Léxico: «nível morto»

Preguiça dos jornalistas

      «O volume de água armazenado na albufeira do Roxo (Beja) está perto do nível morto e, se não chover “em breve”, a qualidade da água bruta poderá diminuir, o que irá obrigar a reforçar o tratamento para abastecimento público» («Falta de chuva diminui qualidade», Correio da Manhã, 23.09.2009, p. 21). A notícia continuava, mas sobre o conceito de nível morto, nem uma palavra. O leitor que pesquise. O nível morto de água numa barragem é aquele abaixo do qual a água não é usada para consumo.


Tradução: «support»


Difícil de suportar


      «Os dois foram viver juntos e tiveram uma criança. Marquez reclamava ter deixado o trabalho a pedido do actor de ‘CSI’ (em exibição na SIC), uma vez que este lhe prometera suporte financeiro» («Ex-companheira de Caruso retira queixa», Isabel Faria, Correio da Manhã, 22.09.2009, p. 44). Cara Isabel Faria: a imprensa anglo-saxónica é que fala em financial support, mas convém traduzir bem: apoio (ou sustento) financeiro. Suporte, nesta acepção, é anglicismo semântico que devemos evitar.

Sol/sol

Mais uma pazada


      «Não são jovens arrivistas à procura de um lugar ao Sol» («Aníbal, José e Manuela no país dos inimputáveis», João Miguel Tavares, Diário de Notícias, 22.09.2009, p. 7). Aqui, o nosso colunista confunde Sol com sol, e o revisor não estava lá para corrigir o erro primário. Já devia saber que se escreve com inicial minúscula quando nos referimos à luz que emana do astro Sol, que, este sim, se grafa com inicial maiúscula. Ou o jornalista também escreve «uma pazada de Terra»?

Precursor/percursor

Pequenas confusões


      «O pintor inglês JMW Turner, considerado um percursor do impressionismo, é celebrado pela Tate Britain, em Londres, que exibe a partir de amanhã alguns dos seus quadros ao lado dos mestres europeus que o inspiraram» («Exposição ‘Turner e os Mestres’ em Londres», Diário de Notícias, 22.09.2009, p. 54). É um erro muito comum, este de confundir percursor com precursor. Precursor é o que precede, o que vai adiante, o que anuncia com antecipação. Percursor, o que percorre, o que faz um percurso. Para quem é dado a confusões, a melhor mnemónica é esta: relacionar o prefixo pre- com um termo que exprima inequivocamente anterioridade, como pré-aviso, por exemplo, que é o aviso prévio, o aviso que foi feito antes. E o precursor é isso mesmo, o que está à frente no anúncio de algo.

Léxico: «roga»

Nas vindimas, com alegria

      «Todos os anos repetem-se as rogas de 40 pessoas que sobem o Douro desde Resende ou Cinfães para vindimar» («Vindimas antecipadas», Bernardo Esteves, Correio da Manhã, 21.09.2009, p. 21). Nas sociedades modernas, urbanas, deixámos de ouvir a palavra roga. Na definição (que parece redigida por um director da antiga FNAT, Fundação Nacional para Alegria no Trabalho) do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é o «grupo alegre de homens e mulheres, por vezes toda a população válida de uma ou mais aldeias de Trás-os-Montes e da Beira, que, na época própria, se desloca para o Alto Douro, para trabalhar nas vindimas». É um derivado regressivo do verbo rogar, na acepção de «assalariar, contratar».

Actualização em 26.09.2009

      «Juntos formam uma empreitada — a que no passado se chamava “roga” — de 35 a 40 vindimadores, vindos de Resende, Pinhão ou de São João da Pesqueira» («Um país nas vinhas», Susana Torrão, Notícias Sábado, 26.09.2009, p. 27).

Uso de estrangeirismos

Imagem: http://commons.wikimedia.org/

Do Vermont à Porcalhota


      «Com uma área de 20 mil metros quadrados, o parque temático permite a prática de ski, snowboard, skate, inline (patins em linha) e BMX freestyle» («Esquiar na Amadora por 18 €», Bernardo Esteves, Correio da Manhã, 21.09.2009, p. 19). Apesar de o título usar o verbo esquiar, no texto o jornalista achou que ficava melhor em inglês, para não destoar de tudo o resto… O que o levou também a usar o vocábulo inline, se bem que tenha tido de o explicar (patins em linha). Em vez de pensar que podia, pelo menos, usar duas palavras portuguesas, não, preferiu tornar o texto parcialmente compreensível a um turista anglófono. Assim, esquiar no Vermont ou na Porcalhota fica mais parecido.

Ortografia: «prazo-limite»

Quase o mesmo

      «A aplicação de um horário de trabalho na GNR está a atrasar a promulgação, por parte do Presidente da República (PR), Cavaco Silva, do novo estatuto profissional desta força de segurança. O prazo-limite para a aprovação do decreto-lei é 4 de Outubro, data-limite que também deverá aplicar-se ao novo estatuto da PSP» («Horário atrasa GNR», Miguel Curado, Correio da Manhã, 21.09.2009, p. 13). Por analogia com data-limite, que alguns dicionários já registam, deve, de facto, escrever-se prazo-limite.

Linguagem familiar

Em família

      Não deve haver, em toda a imprensa portuguesa, um jornal em que se leiam tantas palavras e expressões que habitualmente só se usam no âmbito familiar como o Correio da Manhã. «Em 2007 Moniz nomeou Maia Abreu director de Informação da TVI. E fez saber que a Prisa não queria Mário Moura e Constança Cunha e Sá. Tudo mentira» («Aldra!», António Ribeiro Ferreira, Correio da Manhã, 18.09.2009, p. 30). Aldra, como redução de «aldrabão», não ouvia desde a minha juventude, e não esperava reencontrá-la neste contexto.

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