Léxico: «pandora»

Esta é pequena

      Temos o vocábulo pandora a significar três coisas: um indivíduo de um antigo povo, Pandoras, da Índia (registado pela primeira vez em 1720); um molusco marinho bivalve (registado pela primeira vez em 1899); e um instrumento de cordas, semelhante ao alaúde e ao cistre, tocado com plectro (registado pela primeira vez em 1913). Só não temos a acepção do vocábulo francês pandore: guarda; agente; polícia. E é natural que não tenhamos. O vocábulo, usado por ironia na linguagem familiar, mas com registos na literatura, vem do patronímico Pandore, nome do guarda numa canção célebre do cançonetista francês Gustave Nadaud (1820―1893). Nadaud, que era natural de Roubaix, próximo da fronteira com a Bélgica, conhecia o termo neerlandês para guarda: pandoer, que provém, por sua vez, do húngaro pandur, que designava o soldado de certos corpos irregulares. Ora, o primeiro contingente destes soldados foi enviado no século XVII para a aldeia húngara de Pandur. Fica assim, de caminho, explicado o étimo do nome dos carros de combate Pandur, comprados por 50 milhões de euros à empresa americana General Dynamics e destinados ao Exército português.
      Este post foi-me sugerido pela leitura de um texto do blogue dos revisores do Le Monde, aqui.

Léxico: «porta-valores»

Imagem: http://jn.sapo.pt/

Valores



      «Dezassete mil euros foi quanto rendeu o ataque que um “solitário” armado protagonizou este sábado à tarde contra um porta-valores da empresa Esegur, na Pontinha. O roubo registou-se quando o porta-valores procedia à reposição de uma caixa Multibanco, junto a um centro comercial, confirmou ao 24horas fonte policial» («Assalto a porta-valores rende 17 mil euros», Valdemar Pinheiro, 24 Horas, 14.09.2009, p. 15). A lei designa-os vigilantes porta-valores. É a primeira vez que vejo a designação na imprensa, que habitualmente se lhes refere como seguranças. Quanto aos veículos em que se faz o transporte dos valores, são, como se sabe, carrinhas de valores (mas, por vezes, referidos como blindados): «Na Charneca da Caparica, Almada, quatro homens atacaram uma carrinha de valores estacionada junto a um banco» («Duas carrinhas atacadas», Miguel Curado, Correio da Manhã, 20.08.2009, p. 11).

Actualização em 21.09.2009

      Uma portaria (n.º 1084/2009, de 21 de Setembro) do Ministério da Administração Interna, publicada hoje, fala em «vigilante de transporte de valores».

Léxico: «bidiário»

Mais uma só deles

      «Quim, responsável pela formação dos sadinos, que ontem orientou a sessão bidiária da equipa, é o técnico eleito pela SAD para dirigir os sadinos no jogo de domingo, na Figueira da Foz, ante a Naval.» O revisor antibrasileiro embirra com a palavra «bidiário», «inventada pelos jornalistas». Também não a encontro atestada em nenhum dicionário, mas o certo é que na imprensa desportiva é de uso comum. Se há bissemanal, bimensal, bienal (ou bianual), porque não forjar bidiário? O revisor antibrasileiro não concordaria com a afirmação de Henry Becque de que não temos tempo para observar os outros, não temos tempo para os escutar: há apenas tempo para dizer mal deles. Não, não, ele também quer doutriná-los. Vai ter com eles, argumenta: «Se se realiza duas vezes ao dia, como é que é “a sessão”?»

Níveis de língua

Uma questão de nível

      «O escandaloso comportamento de Irby ocorreu a 26 de Março num voo entre Bangalore (Índia) e Londres. Mal o avião levantou voo, a herdeira começou a falar alto com o passageiro da fila de trás, Daniel Melia, que viajava com a namorada. Esta chateou-se e mudou-se para outra zona do avião, e foi então que Irby e Melia começaram a “flirtar descaradamente”. Num ápice consumiram três garrafas de vinho» («Socialite britânica bêbeda em avião», Ricardo Ramos, Correio da Manhã, 17.09.2009, p. 33). Está aqui em causa o nível de língua. Chatear(-se) provém do calão, e há muito entrou na linguagem familiar. O jornalista devia perceber isto. Mas há sempre a Iniciativa Novas Oportunidades...


Bem-comportado/malcomportado

Distraídos

      É um dos erros mais comuns: «É prudente desconfiar de gente com ar de bem comportada que se propõe moralizar a pátria. O País já teve uma má experiência na era democrática. Uns tantos homens bons (inspirados por um general Presidente da República, homem dotado de rara sensibilidade política que o levou a incompatibilizar-se com todas as bancadas parlamentares) fundaram um novo partido — Partido Renovador» («Os novos renovadores», Manuel Catarino, Correio da Manhã, 17.09.2009, p. 29).


BATE é acrónimo


Até que fura

      «Mais de cinquenta mil pessoas são esperadas na Luz amanhã, para ver o jogo entre as águias e o Bate Barisov» («Bate Barisov rende um milhão», Correio da Manhã, 16.09.2009, p. 11). Consoante pender mais para o bielorrusso ou para o russo, ora será Barisov ora Borisov. Mas nunca é Bate, pois trata-se de um acrónimo: BATE.

Ortografia: «héli»

Acertaram em Julho

      «Bombeiros com medo de que o heli explodisse» (Luís Oliveira, Correio da Manhã, 14.06.2009, p. 10). «Felipe Massa recebeu assistência ainda no circuito sendo transportado de héli para o hospital» («Massa sobrevive a acidente a 200 km/h», João Paulo Godinho, Correio da Manhã, 26.07.2009, p. 39). «Depois de ter feito campanha num barco e de comboio, ontem o coordenador do BE sobrevoou a serra da Arrábida de helicóptero, Francisco Louçã fez a viagem a bordo de um ‘heli’ Agusta Westland 139» («Louçã sobrevoa a Arrábida», Correio da Manhã, 16.09.2009, p. 28). Em três meses, três formas de grafar o vocábulo (redução, como já aqui vimos). As probabilidades de acertarem aumentam.

Tradução: «imbeccati»

Mal ensinados


      «Para o primeiro-ministro italiano, as revelações que nos últimos meses têm vindo a público sobre as suas festas privadas não passam de “calúnias”, contra as quais — garante — tem o direito de se defender com todos os meios ao seu alcance. “Um chefe de governo que vê como se difama o seu próprio país por parte de uns diários ensinados e que está calado sem reagir não tem o direito de recorrer aos meios legais para defender que isso não é liberdade de Imprensa, mas que se chama na realidade difamação?”, questionou o primeiro-ministro» («“Há canalhas na Imprensa”», Ricardo Ramos, Correio da Manhã, 17.09.2009, p. 31). «Diários ensinados»? No sítio da TVI, a tradução, porque é disso que se trata, ainda era pior: «“Um chefe do Governo que vê como se difama a seu próprio país por parte de uns diários leccionados e que esteve calado sem reagir, não tem o direito de recorrer a meios legais para defender que isso não é liberdade de imprensa mas se chama difamação?», assinalou o primeiro-ministro.» O diário La Stampa reproduziu as declarações do primeiro-ministro italiano: «Un capo del governo che vede diffamare il proprio Paese da giornali chiaramente imbeccati, che è stato zitto per tutto il tempo senza reagire, non ha nemmeno il diritto di adire alle vie legali per sostenere che questa non è libertà di stampa ma si chiama diffamazione?» A palavra é então imbeccati, particípio do verbo imbeccare, usado aqui em sentido figurado: «Istruire qlcu., suggerendogli cosa dire o cosa fare.» Industriados, instruídos, doutrinados seriam boas traduções.

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