A terminologia da economia

«Desinflação»?


      Luís Reis Ribeiro, num texto publicado no novo diário, i, cujo aparecimento saúdo, explica quatro conceitos da economia: deflação, desinflação, inflação e estagflação: «Deflação. Descida prolongada dos preços de todos os bens e serviços. É um risco grande para a economia: com os preços em queda, os consumidores adiam os gastos, o que cria mais dificuldades às empresas, mais desemprego e ainda menos consumo. Desinflação. É o que está a acontecer agora nas economias portuguesa e europeia — uma quebra nos preços de algumas classes de bens. Neste caso, dos combustíveis. Inflação. É o aumento contínuo do nível dos preços, que se reflecte directamente na diminuição do poder de compra dos cidadãos. Manter a inflação baixa é um dos principais objectivos económicos da maioria dos governos. Estagflação. Os economistas afastam o cenário de deflação e dizem que o risco maior é a estagflação, uma mistura de preços altos com crescimento económico baixo» («Petróleo só vai subir a sério no próximo ano», Luís Reis Ribeiro, i, 14.05.2009, p. 30).

Actualização em 22.08.2009

      E ainda temos a reflação, que é a estimulação da economia por intermédio da injecção de dinheiro e de créditos ou pela redução das taxas. É o oposto da desinflação.

Ortografia: «contracrítica»

Do contra

«Jogando, pelo contrário, a favor da hipótese de Alegre recusar recandidatar-se jogava o facto de Sócrates ter marcado, subitamente, uma deslocação à Madeira, hoje, deslocação que prevê de enorme mediatização, dado o historial de críticas e contra-críticas entre o primeiro-ministro e o líder madeirense Alberto João Jardim» («Alegre escondeu decisão de Sócrates», João Pedro Henriques, Diário de Notícias, 15.05.2009, p. 4). Já aqui vimos mais do que uma vez que nos vocábulos compostos em que entre o prefixo de origem latina contra-, o segundo elemento tem sempre hífen se for palavra começada por vogal, h, r ou s. Logo, contracrítica. Os jornalistas e os revisores é que se esquecem disso.

Léxico: «silpat»


Imprópria


      «Coloque no silpat (tabuleiro em silicone para pastelaria) bem untado e coza a 190 graus cerca de 10 a 15 m» («Papos de anjo em calda de poejo sobre carpaccio de ananás», Teresa Resende, Única, 1.05.2009, p. 84). É a evolução, a que se dá o nome de derivação imprópria, que sofreu a marca Tupperware. Actualmente, quase todos os dicionários registam o termo, tupperware, como substantivo comum para designar o recipiente de plástico com tampa que fecha de forma a não deixar entrar o ar, usado para conservar alimentos.

Gíria dos carteiristas

Fale com eles

A edição do dia 1 do corrente da revista Única publicou um artigo muito informado sobre os carteiristas em Lisboa, «Os carteiristas do 28», da autoria de Hugo Franco. De interesse para nós, o pequeno (mas eles nem precisam de falar…) léxico de termos da gíria dos carteiristas:
«Música ou cabedal: carteira
Montada: eléctrico
Guiros: turistas
Estrilhar: refilar
Cabra: turista atento aos carteiristas
Nixo: carteira sem dinheiro
Balúrdio: carteira carregada de dinheiro
Correo: companheiro de crime
Asa-direita ou encosta: aqueles que fazem ‘tampão na entrada dos transportes para confundir as vítimas
Mão leve: o artista que furta a carteira
Muleta: disfarce usado para se camuflarem entre os turistas.»

Léxico: «blondin»

Cabina de pilotagem de um blondin, durante a construção da barragem de Vouglans ©

Quase


«Habituado a manobrar o ‘blodin’, máquina que transporta o betão, o ferro e todos os outros materiais necessários à construção de uma barragem, Franklin, de 57 anos, ficou impressionado com o desaparecimento da Aldeia da Luz, onde conheceu gentes e passeou nas ruas» («Franklin Quintas», Única, 1.05.2009, p. 27). O jornalista quase acertava, se se tivesse esforçado mais: a máquina, que é um transportador aéreo ou grua funicular, muito usada na construção de barragens, chama-se, na realidade, blondin. O termo deriva de um nome próprio: Blondin. Charles Blondin era o nome artístico de Jean François Graveland (1824-1897), um acrobata francês especialista em equilibrismo sobre cordas, uma espécie de funâmbulo ou aramista. Em 1859, atravessou as cataratas do Niagara, nos Estados Unidos da América, servindo-se de uma corda suspensa sobre as quedas-d’água.

«Pousar» e «posar»

Grande pose

      «O príncipe de Gales, primeiro herdeiro do trono de Inglaterra, e a sua mulher, Camila, duquesa da Cornualha, pousaram na quarta-feira com os estudantes da Royal Ballet School, antes da realização do espectáculo de gala na Royal Opera House, em Londres» («Príncipe Carlos. Pose com bailarinos e críticas aos arquitectos», Diário de Notícias, 15.05.2009, p. 19). É um erro muito mais comum do que se possa pensar. Ah, já agora: o príncipe Carlos não é herdeiro do trono de Inglaterra, mas sim herdeiro dos tronos do Reino Unido e de mais de uma dúzia de reinos da Comunidade das Nações.

«Cristo-Rei» ou «Cristo Rei»?


Liberdade

      Tinha de ser: os 50 anos do Cristo-Rei vão ser comemorados, segundo o Diário de Notícias, numa «megacerimónia» («No elevador do Cristo-Rei há 50 anos», 15.05.2009, primeira página). Mas isso agora não interessa, mas sim o termo Cristo-Rei. Também no Público se usa esta grafia: «50 anos do Cristo-Rei», lia-se na primeira página da edição de ontem. Oficialmente, o nome do monumento é Cristo Rei, sem hífen. A generalidade da imprensa grafa-o com hífen, por analogia com outros compostos onomásticos, como também prefiro: «Cristo-Rei, Ponte 25 de Abril, Torre de Belém, Mosteiro dos Jerónimos, Castelo de São Jorge, Padrão das Descobertas, Centro Cultural de Belém, Museu da Electricidade e os Paços do Concelho serão os pontos da capital que ficarão às escuras em prol daquela campanha global de alerta para a necessidade de adopção de medidas eficazes na luta contra as alterações climáticas» («Apagão global», Vera Mendão Costa, Visão, 12.03.2009, p. 96).

Sobre «improvado»

Ao lado

«A prova-chave fora posta em causa, mas a família de Muncey continua a acreditar que House esteve envolvido no crime. E mesmo entre os procuradores há quem admita que essa hipótese não ficou excluída, apenas improvada» («Declarado inocente após 22 anos no corredor da morte», Hugo Coelho, Diário de Notícias, 14.05.2009, p. 25). Parece, não nego, o antónimo de provada, mas o Dicionário Houaiss, por exemplo, dá como definição de improvado «que se improvou; não aprovado». E quanto a improvar, «não aprovar, julgar desfavoravelmente; desaprovar, censurar; improbar». Teria sido preferível que o jornalista tivesse escrito algo como: «E mesmo entre os procuradores há quem admita que essa hipótese não ficou excluída, apenas por provar.»

Arquivo do blogue