Adjectivos pátrios compostos

Aqui não há precedências

Já não me recordo dos pormenores, mas a pergunta, de uma tradutora, aos consultores do Ciberdúvidas era se existia precedência dos termos em compostos como anglo-americano. Lembrei-me agora disto a propósito da jornalista Roxana Saberi, condenada a oito anos de prisão no Irão e agora libertada. De uma maneira geral, a imprensa portuguesa di-la americano-iraniana: «Jornalista americano-iraniana Roxana Saberi sai em Liberdade após redução da pena» (Maria João Guimarães, Público, 12.05.2009, p. 12). A imprensa brasileira, por seu turno, prefere-a iraniano-americana: «A jornalista iraniano-americana Roxana Saberi, condenada no Irã a oito anos de prisão por espionagem, encerrou a greve de fome, anunciou o pai da detenta, Reza Saberi» (Jornal do Brasil, 6.05.2009).

Léxico: «viril»

Não é de homem

«Os especialistas estavam sobretudo preocupados com o facto de o viril, elemento fundamental para a sustentação da peça, estar partido e de as figuras que a compõem — 12 apóstolos, Deus Pai, os anjos músicos, a virgem Maria e a pomba simbolizando o Espírito Santo —, decoradas com ouro e esmalte policromado (parte dele a destacar-se), estarem cobertas por uma estranha e fina poeira. […] Estas figuras encontram-se na segunda e terceira partes da custódia, digamos assim, peça que se divide em três zonas distintas: a base, onde se encaixa a haste, decorada com esferas armilares, a divisa de D. Manuel; o corpo central, onde está o viril destinado à hóstia, rodeado pelos 12 apóstolos; e, finalmente, o duplo baldaquino do gótico final, marcado pela figura de Deus Pai sentado numa cadeira, segurando também ele uma esfera armilar, e pela pomba que simboliza o Espírito Santo» («Custódia de Belém», Lucinda Canelas, Público/P2, 12.05.2009, p. 4).
Faz-me lembrar a história, real, de uma pessoa conhecida, nova-rica, muito orgulhosa do «vidral» que tinha mandado pôr a encimar a porta da entrada da moradia. Os conhecidos troçavam dela nas costas, mal sabendo que «vidral» também é uma forma admissível de nos referirmos ao «vitral». Por analogia, é claro, com «vidro», mas na realidade «vitral» tem como étimo o francês vitrail. Quanto a viril, é a âmbula ou redoma de vidro onde se guardam relíquias e outros objectos de estimação, e deriva provavelmente de vidril (vidro+-il).

Léxico: «procedural»

Mais um

«Os procedurals, esse subgénero das séries que parece reproduzir-se como coelhos, estão para ficar no ecossistema televisivo. […] Os procedurals (género que se foca na investigação de um acontecimento — clínico, policial ou judicial) e a audiência mais velha eram tradicionalmente as armas e alvos do canal [CBS]» («É sempre bom saber que os bons continuam a ganhar», Joana Amaral Cardoso, Público/P2, 12.05.2009, p. 9). Em inglês, procedural é um adjectivo e não significa mais do que «procedimental; por procedimento». O Merriam-Webster Online Dictionary regista a locução police procedural, dizendo ter sido registada na língua inglesa pela primeira vez em 1967 e significando «a mystery story written from the point of view of the police investigating the crime».

Explicar estrangeirismos

Toma!

«Curioso é o facto de no rol dos produtos mais consumidos pelas famílias cocooning (encasulamento) constarem os preservativos masculinos e femininos» («Famílias poupadas», Ana Fonseca, Notícias Sábado, 9.05.2009, p. 8). As explicações são para quem sabe ou para quem não sabe? Pergunta parva, hã? Então também a explicação é parva. Cara Ana Fonseca, deveria ter escrito «encasulamento, ou preferência por uma vida caseira», por exemplo.

«Tigres Tâmiles», de novo

Parabéns

Pode ter sido por distracção, mas no jornal Público escrevem Tigres Tâmiles. Ora leiam: «Os Tigres Tâmiles falaram de um cenário em que tinham morrido “mais de dois mil civis inocentes durante o fim-de-semana, e culpam o Governo por ter disparado contras as pessoas que o movimento tem mantido reféns durante meses, numa tentativa de última hora de tentar obter pressão internacional para uma trégua que evite a derrota» («Banho de sangue confirmado no Nordeste do Sri Lanka», Público, 12.05.2009, p. 12). Tirando a «tentativa de última hora de tentar obter», está quase perfeito.

Actualização a 15.05.2009

Afinal, parece que não é distracção: «Mais de dois mil civis conseguiram fugir aos combates entre o Exército e os Tigres Tâmiles, em curso numa estreita faixa arenosa, na costa do Nordeste do Sri Lanka» («Dois mil passam lago para fugir à guerra», Público, 15.05.2009, p. 20).

Aportuguesamento: «xerpa»

Porque não?

«À cabeça do grupo, Garcia desfia os segredos que o fizeram conquistar uma mão-cheia dos mais altos cumes dos Himalaias, de como prefere treinar-se entre os xerpas, o povo da montanha» («Nos Himalaias com João Garcia», Tiago Salazar, Notícias Sábado, 9.05.2009, p. 19). O Dicionário Houaiss regista este aportuguesamento de sherpa. E a propósito da sequência sh, que não existe em português, lembrei-me de outra palavra que se tem repetido por estes dias: Shoa ou Shoah, palavra que em iídiche significa «catástrofe». É, como se sabe, a palavra usada pelos judeus para se referirem ao Holocausto, pois este termo tem um significado literal que pode ser ofensivo para eles. Na imprensa portuguesa, vê-se também muito a grafia Shoá. Depois do acento agudo, só falta mesmo o x: Xoá.

O uso do apóstrofo


A propósito…



      Numa edição da semana passada do Diário do Minho, que já aqui passou pelo Assim Mesmo, li que se realizou na Universidade do Minho, nos dias 9 e 10 do corrente, a 6.ª edição do Congresso Internacional de Optometria e Ciências da Visão (CIOCV). O artigo, que não está assinado, assegura que «todo o programa do CIOCV’09 está pensado para proporcionar ao optometrista clínico mais e melhores competências para dar resposta aos desafios que se lhe colocam», convicção que não nos interessa. Mas quanto a «CIOCV’09»? Esta moda de usar o apóstrofo para suprimir metade da data ter-se-á tornado notória, entre nós, com a Exposição Mundial de Lisboa de 1998. Questionou-se então a adequação do uso deste sinal diacrítico para este fim e onde deveria ficar e se deveria haver espaçamento (Expo’ 98, Expo ‘98, Expo ‘ 98 ou Expo’98). Como se pode ver na imagem, oficialmente, grafou-se Expo’98. Há, é verdade, abreviação numérica como há abreviação vocabular. Até há uns anos, era relativamente vulgar ler-se e sobretudo ouvir-se referir datas omitindo a casa dos milhares. Alguém nascido em 1939, por exemplo, dizia que nascera em «939» (e pronunciava «nove, trinta e nove»). Na indicação das décadas, «década de 80», também há, de alguma maneira, abreviação. E, em qualquer dos casos, nunca se usa apóstrofo. Pela mesma ordem de ideias, creio que também se não deve usar nestes casos. Logo, eu escreveria CIOCV 09.


Actualização em 30.05.2009

      Afinal encontrei um exemplo em contrário: numa nota de António Sérgio às Odes Modernas de Antero de Quental: «Por via de regra, os liberais de todos os países da Europa interessaram-se pela causa da independência da Polónia, por ocasião das revoltas de 1830 e ’63» (Odes Modernas, Antero de Quental. Edição fac-símile da edição organizada, prefaciada e anotada por António Sérgio [1943], Sá da Costa Editora, 2009, p. 173). «Os radicais prepararam durante alguns anos um novo movimento insurreccional, que veio a rebentar em ’63» (p. 174).



Auxiliar «haver»

Último reduto

      Os falantes têm uma ideia mais ou menos clara de que o modelo mais utilizado na língua portuguesa para a formação de tempos compostos é ter + particípio passado e que o modelo haver + particípio passado tem um acentuado recorte literário e formal, sendo a diferença meramente estilística. Mais ainda, alguns saberão que este último modelo é muito usado na variante brasileira da língua. Contudo, nas traduções, por motivos que não são imediatamente claros, encontramos o último reduto, defendido por tradutores e revisores, desta construção. Numa obra que estou a ler, De Bom a Excelente, de Jim Collins (com tradução de Paulo Tiago Bento e revisão de Ayala Monteiro. 4.ª ed. Lisboa: Casa das Letras, 2008), são inúmeros os exemplos desta construção: «Smith, o advogado de modos suaves da empresa, não tinha muita certeza de que o conselho de administração houvesse feito a escolha certa — e essa dúvida foi reforçada no momento em que um dos directores falou com ele à parte e lhe lembrou que lhe faltavam algumas das qualificações necessárias à posição» (p. 39). «Voltámos a insistir, sublinhando que havíamos seleccionado as empresas bom para óptimo a partir de um desempenho que ultrapassava a média do sector» (p. 61). «Afinal, não havíamos encontrado provas de que as empresas bom para óptimo tivessem sido abençoadas com mais sorte (ou, no caso, com mais azar) do que as empresas de comparação» (p. 62). «Começámos então a reparar no padrão simétrico que apresentavam os executivos das empresas de comparação: eles atribuíam grande parte da culpa à sorte, lamentando-se frequentemente das circunstâncias que haviam encontrado» (p. 62). «Olhando para a evidência empírica, notámos que alguns dos líderes do nosso estudo haviam passado por experiências de vida significativas que talvez tenham iniciado ou estimulado o processo de maturação» (p. 66)…

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