«Luiz», «Queiroz»…

Agora me lembro

Os analistas e comentadores políticos gostavam que, na entrevista de ontem, o primeiro-ministro tivesse respondido a perguntas que não lhe foram feitas… Ah, mas este não é um blogue político. Retomo a questão da grafia dos antropónimos. E não só com o nome Carlos Queiroz. Quem é que «actualiza» o nome de Luiz José Machado Gomes Guerreiro Pacheco? Sim, o escritor (mais ou menos…) maldito Luiz Pacheco. Nem Pedro Bingre, aposto. Não há, até porque o ridículo mata, nenhuma criatura a escrever Luís Pacheco.

«Corte» e «campo de ténis»

Manda quem pode

      Por alguma razão os revisores ali não gostam mesmo nada da palavra «corte» para designar o campo de ténis. Está aqui a explicação: se temos «campo de ténis», para quê aportuguesar court, palavra inglesa? O recurso chegou às traduções: «Steve era advogado, e como pertencia a uma firma que negociava com o pai dela, os Bolton eram muitas vezes solicitados para ir a Old Tree, o nome com o qual os McNeils tinham dignificado o seu terreno: Steve servia-se da piscina deles, e dos cortes de ténis, e havia uma casa que pertencera a Apple que o Sr. McNeil lhe permitia usar, mais ou menos, à vontade» (Travessia de Verão, Truman Capote. Tradução de Manuel Cintra, revisão de tradução de Maria João Freire de Andrade e revisão tipográfica de Eulália Pyrrait. Lisboa: Dom Quixote, 2.ª ed., 2007, p. 30).

Definição de bebé

Eu perguntei primeiro

      Até que idade uma criança é bebé? Sim, eu sei que é uma boa pergunta. «Bebé de dois anos caiu ontem dentro de um poço e morreu» («Mangualde. Bebé caiu num poço e morreu», Diário de Notícias, 15.03.2009, p. 72).
      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, bebé é a «criança recém-nascida ou de pouca idade». Quanto aos recém-nascidos, não temos dúvidas — mas essa «pouca idade» chega a quanto? O Dicionário Houaiss não anda longe desta definição, substituindo o «de pouca idade» por «poucos meses». O Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa avança com outra definição: «Bebé, s. m. Criança de peito, criancinha.» E quanto aos dicionários de outras línguas? Para o Cambridge Advanced Learner’s Dictionary, bebé é a «very young child, especially one that has not yet begun to walk or talk». Para Le Trésor de la Langue Française Informatisé, «bebé» é «enfant en bas âge». A etimologia, neste caso, não ajuda muito. Como se sabe, Bébé foi o nome que, por volta de 1755, o rei Estanislau I Leczinski (ou Stanisław I Leszczyński), rei da Polónia, deu ao seu anão Nicolas Ferry (1739-64), que teve na época uma grande celebridade. Estanislau I, palatino da Posnânia, teve de fugir do trono polaco, onde o pusera Carlos XII da Suécia, depois da derrota de Poltava, como teve de fugir do principado de Zweibrücken, oferta daquele monarca sueco, refugiando-se em França. Estanislau I deu duas coisas à França: a mão da filha Maria Leszczynska a Luís XV e a palavra «bebé» à língua francesa.

«West Bank»?


Recado

      Senhor jornalista, fale à vontade da Guerra dos Seis Dias em 1967, mas não diga que os Palestinos em Jerusalém e na West Bank passaram a viver sob ocupação de Israel. Então agora já não temos palavras para nomear esse conceito tão complexo como é a margem de um rio? Já agora, porque não Gaza Strip? Se nós não defendermos a nossa língua, quem o vai fazer — os Israelitas? A Margem Ocidental (do rio Jordão), ou Cisjordânia, um território com menos de 6 mil quilómetros quadrados, é tão topónimo como Margem Sul, logo, com maiúsculas, mas em português.


Actualização em 5.11.2009

Nas traduções, é comum ver-se «Margem Ocidental»: «Condenavam também a proibição israelita de envio de auxílio externo para a Margem Ocidental, através de Amã, para projectos educativos, habitacionais e agrícolas» (Palestina: Paz sim. Apartheid, não, Jimmy Carter. Tradução de Pedro Garcia Rosado e revisão de Luís Milheiro. Lisboa: Quidnovi, 2007, p. 82).

«Tailor-made» e «bespoke»

Imagem: http://www.sarti.com.au/

Alfaiatar a língua


      A propósito do termo tailor-made, lembrei-me deste excerto de um artigo: «Este alfaiate português Bespoke (expressão inglesa que significa molde criado à medida) não se considera artista, mas diz que alfaiataria é uma arte» («O real alfaiate português», Hugo Bordeira, Diário de Notícias/DN Gente, 14.03.2009, p. 1).
      Não é exactamente assim. Criado à medida tem equivalência no inglês made-to-measure, em que preexiste um molde na alfaiataria, fazendo o alfaiate uns acertos no fato em função do cliente a que se destina. No bespoke, o fato é feito de raiz para cada cliente. Actualmente, o termo aplica-se a muitos outros bens, desde sapatos a automóveis.
      O alfaiate português entrevistado para o Diário de Notícias afirmou: «“Depois o príncipe Carlos cumprimentou-me, e eu contei-lhe que gostava muito dos casacos que ele usa, tipo trespasse, com quatro botões. Ele respondeu-me que raramente tinha fatos novos porque restaurava muitos dos que já tem”, lembra Ayres [Gonçalo, aprendiz da Savile Row].» Já aqui tínhamos referido esta expressão, casacos de trespasse.

Ortografia: «geladeiro»


Chi fa e vende gelati


      Jornalista, poeta, dramaturgo, ficcionista e autor de uma vasta obra infanto-juvenil, José Jorge Letria foi ontem o convidado do programa Prova Oral, na Antena 3, com Fernando Alvim e Cátia Simão. Ao falar-se de Santini, o escritor usou a palavra «gelateiro». Está-se mesmo a ver: de «gelato» (sabem o que é: «dolce composto di succhi di frutta, latte, uova e altri ingredienti mescolati a bassa temperatura»), tinha mesmo de ser gelateiro. Lá que o Sr. Attilio Santini Mosena dissesse «gelataio», não vamos agora, escritores como somos, ainda por cima, dizer isso em vez do mais correcto «geladeiro» ou, como fazem os Brasileiros, «sorveteiro». Simpatizo muito (devia ter começado por aqui, para cativar o público) com José Jorge Letria, e aproveito até para sugerir o último trabalho deste escritor, Histórias de Chocolate, um CD, com a voz do autor, composto de 12 histórias que têm no chocolate o protagonista.

«Charril»?

Há-de ser bonito

Ainda não visitei o Museu do Oriente. As filas, confesso, são suficientemente persuasivas a fazerem-me renunciar a tal ideia. Mas fui ver recentemente «A Evolução de Darwin» na Fundação Calouste Gulbenkian. Ao Museu do Oriente, iria tanto para ver a exposição «Mulheres do Hindustão», pelo interesse que o tema me desperta, como para ver um charril. «Margarida Aguiar, pintora, 25 anos, observa que os visitantes não vêem os bancos portáteis e depois queixam-se da falta de cadeiras para relaxar e reflectir. “Deve-se orientá-los, estão num charril na entrada”, sublinha» («Falar de arte, o trabalho dos assistentes de exposição», Isadora Ataíde, Diário de Notícias, 15.03.2009, p. 14).

Léxico: «anádroma»

Tudo grego



      «As lampreias são peixes anádromas, uma vez que se reproduzem em água doce, mas desenvolvem-se até à forma adulta no mar» («Novas barragens ameaçam sobrevivência da lampreia», Rui Pedro Antunes, Diário de Notícias, 15.03.2009, p. 50). Anádroma (do grego ἀνάδρομος, «anádromos», que significa «que se eleva a correr», como os salmões e as lampreias fazem) é o peixe que passa parte da vida no mar e sobe os rios para desovar em água doce. O artigo refere ainda que «as formas larvares de lampreia se designam por amocetas». Os dicionários, contudo, apenas registam a grafia «amocete», o que, tendo em conta o étimo grego, é mais correcto.

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