Festa de Purim


Perguntem a Mardoqueu

«O Festival do Purim relembra a perseguição aos judeus na antiga Pérsia» («Dia de festa em Israel», Diário de Notícias, 12.03.2009, p. 56). Um festival é uma grande manifestação musical ou então um espectáculo ou série de espectáculos artísticos ou desportivos. Será o caso? Vêem Festival of Purim em inglês e vá de copiar. O Livro de Ester, que faz parte do Antigo Testamento, fala na festa de Purim (ou das sortes): «Os judeus comprometeram-se a fazer aquilo que já tinham começado e que Mardoqueu lhes escrevera: que Haman, filho de Hamedata, o agagita, opressor dos judeus, resolvera exterminá-los e lançar-lhes o “pur”, isto é, a sorte, para os exterminar e destruir; mas, quando Ester se apresentou diante do rei, este ordenou, por escrito, que o maligno projecto tramado contra os judeus recaísse sobre a cabeça do seu autor e que este e seus filhos fossem suspensos na forca. É por isso que eles chamam a esses dias Purim, da palavra “pur”» (Est 9, 23-25).

Uso do hífen

Qual a diferença?


      «Outras compotas, sem corantes nem conservantes, têm como base a pêra rocha, o limão ou os frutos silvestres, entre mais de vinte variações» («O sabor da maçã reineta», Carla Maia de Almeida, Notícias Magazine, 8.03.2009, p. 14). O que me pergunto é o que falta à pêra rocha (ou à maçã reineta, naturalmente) para se poder considerar que constitui uma unidade semântica ou uma aderência de sentidos, requisito exigido pela Base XXVIII do Acordo Ortográfico de 1945 para se usar o hífen. (No texto do Acordo Ortográfico de 1990, a regra ainda é mais clara, como já aqui referi.) É que na página 16 do suplemento «Terra do Nunca» da mesma revista lê-se foca-comum e leões-marinhos.

Léxico: «charango»

Imagem: http://chezmojo.com/

Quase certo


«No dia 11 de Março de 2006, precisamente há três anos, Evo Morales ofereceu a Condoleezza Rice um charango andino com folhas de coca imbutidas, no final de uma reunião de 25 minutos» («Guitarra de coca oferecida a rice», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 12.03.2009, p. 25). Já conhecíamos a charanga, agora ficámos a conhecer o charango. O inestimável Houaiss regista o verbete: «charango s. m. MÚS instrumento andino de cordas dedilhadas.» Percebemos logo o deslize da jornalista: se há charangos somente nos Andes, não é necessário escrever «charango andino». É redundante.
A definição do Diccionario de Lengua Española da Real Academia Espanhola é, naturalmente, muito mais completa: «charango m. Instrumento musical de cuerda, usado especialmente en la zona andina, parecido a una pequeña guitarra de cinco cuerdas dobles y cuya caja de resonancia está hecha con caparazón de armadillo.»
Quanto a «imbutidas», deve dizer-se que, de facto, para muitos vocábulos existe a variante im/em, mas não é o caso. Apenas se regista a grafia «embutido», de «embutir».

«Assimptota» ou «assímptota»?

Haverá escolha?

Caro F. F: o mais razoável será porventura admitir, como fazem alguns autores, que estamos perante uma dupla grafia: assimptota/assímptota. Como, por exemplo, álcali/alcali. Temos é de proceder em conformidade: se escrevermos assimptota, não podemos lê-la como sendo esdrúxula; se escrevermos assímptota, não podemos lê-la como grave. Rebelo Gonçalves, no Vocabulário da Língua Portuguesa, lembro, regista-a como grave.

Apelidos compostos

Todo compostinho

Se quisermos saber o que é um apelido composto, é escusado visitar fóruns de genealogia na Internet. Os frequentadores também não sabem. O pouco que é referido, mesmo em prontuários, sobre a matéria diz respeito às citações bibliográficas, e a informação é escassa: limita-se a dizer que se o autor se chamar Camilo Castelo Branco, por exemplo, se deverá escrever Castelo Branco, Camilo. É pouco.
Há, contudo, uma carta do director-geral dos Registos e do Notariado, datada de 2001, elucidativa. Lê-se nela: «Somente quando uma família adoptou por seu apelido um nome de lugar, de santo ou um cognome que já eram vocábulos compostos antes da denominação eles podem ser contados como uma unidade.» Assim, se um homem chamado António Sá se matrimoniar com uma senhora chamada Leonor de Mello, por exemplo, os descendentes não podem reivindicar ter um apelido composto: Mello Sá, ou Mello e Sá ou Mello-Sá. Nada disso. Mas também isto diz a carta do director-geral: «Não é processo legítimo, equiparável a estes, a classificação como vocábulo gramatical composto de grupos de apelidos que se encontraram por via de casamento e que não constituíam vocábulo composto no momento da denominação inicial.» A carta também tem listas exemplificativas. Assim, há apelidos compostos originados de topónimos, como Vilas Boas, Vila Nova (ou Vilanova), Castelo Branco (ou Castelbranco), Vila Real, Vila Verde (ou Vilaverde), Vila Franca, Vila Lobos (ou Vilalobos), Rio Tinto (ou Rio-Tinto), Rio Torto, Val-Flores, etc. E também há apelidos compostos originados de nomes religiosos, como Espírito Santo, San Payo (ou Sampaio), São-Bento, Santa-Ana (ou Sant’Ana ou Santana), Santa-Clara, etc. Como também há apelidos compostos originados de alcunhas, como Alva-Rosa, Boa Morte, Pé-Curto (ou Pécurto), Todo-Bom, Sim-Sim, Boa-Alma, etc.
Diz ainda a carta: «Ao falar em “vocábulo gramatical [composto]”, “nome próprio” e “apelido”, a lei recorre a terminologias e conceitos da gramática. Assim, a apreciação do nome do cidadão português tem de ser feita de uma perspectiva linguística, e não cultural, religiosa, histórica ou genealógica (embora a possibilidade de ser escolhido um apelido que os pais não usam, mas a que têm direito, careça de demonstração de tipo genealógico).» Termina a carta: «Poderá contrapor-se que certas personagens históricas têm a capacidade de soldar os seus apelidos numa única unidade lexical, transmissível aos descendentes. Assim será numa perspectiva histórica ou cultural. Mas a linguística, que fundamenta a lei, encara o problema diferentemente, como se viu. E se, por hipótese, o debate fosse penetrado por considerações de natureza aristocratizante, não poderiam ser cerradas a portas a contra-argumentações de proveniência mais democratizante, umas e outras exorbitando do enquadramento que está dado ao nome de família em Portugal.»
Recapitulando: o conceito de apelido composto, embora tenha interesse para a ordem social, decorre unicamente da gramática; os apelidos compostos podem ter apenas um nome (Sanpayo) ou dois, ligados (Santa-Clara) ou não (Corte Real) por hífen.
Agora quanto às regras portuguesas de catalogação. Imaginemos que temos de referir o nome de Mário de Sá Carneiro. Trata-se de um apelido simples, logo: a palavra de ordem é Carneiro; no cabeçalho ficará Carneiro, Mário de Sá — mas na entrada remissiva ficará Sá Carneiro, Mário de. Ou seja, a entrada remissiva de nomes do tipo referido é igual à dos nomes com apelidos compostos. E estas são regras que podemos usar nos índices onomásticos.

«Nos antípodas»

Assim é que é

O astrólogo (ou «astrofilósofo»?) José Prudêncio foi ontem entrevistado por Isabel Angelino no programa Há Conversa, na RTP Memória. A determinada altura, disse que qualquer coisa estava «nas antípodas» de outra coisa. Disse mal. A designar, em sentido real ou figurado, dois pontos opostos, «antípodas» é um nome masculino plural: nos antípodas. Como adjectivo, é uniforme; como nome para designar o habitante que, relativamente a outro, se encontra num lugar diametralmente oposto do planeta, tem os dois géneros.

Ortografia: «hidrolisado»


Polivalência

Já com o vocábulo «catalisador» se passa o mesmo: vejo-o quase sempre escrito, até por pessoas cuidadosas quanto ao resto, com z. Mesmo em textos revistos o vejo grafado com z. Falta de reflexão sobre a língua: se deriva de uma palavra com s, «catálise», os derivados não podem ter z. Assim, de «catálise», «catalisador», e de «hidrólise», «hidrolisado». Difícil?
Todavia, sabe Deus quem escreve estas coisas, em especial nestas empresas como a que comercializa a farinha láctea (Jerónimo Martins). Com o império da polivalência, poderá ser mesmo um segurança ou uma telefonista (que muitas vezes acumula as funções de recepcionista, especialista nas revistas Maria e Ana e bisbilhoteira) que «têm jeito para a escrita». O resultado está à vista. Sim, é mais grave do que com as leis, porque estas só são conhecidas de umas escassas centenas de pessoas, ao passo que os rótulos de produtos são lidos por muito mais gente.
Ah, sim, escreve-se betacaroteno ou β-caroteno, que a Infopédia afirma que «é um percursor da vitamina A».

Redacção das leis

A redacção final

Boa notícia, esta de o procurador-geral da República criticar abertamente a redacção das leis. Perdão: das propostas de lei. «O PGR apontou também falhas na redacção da lei, uso indevido de siglas (que geram confusão) e até de neologismos, como “empoderamento”, uma importação do inglês “empowerment”. Pinto Monteiro criticou a má técnica legislativa. Opiniões não contrariadas pelos deputados que, entre dentes, fizeram questão de dizer que se trata de uma “proposta de lei”. Ora, da autoria do governo, sendo que a redacção final será mais cuidada» («“Tirem lá a vírgula entre o sujeito e o predicado”», Diário de Notícias, Carlos Rodrigues Lima, 11.03.2009, p. 15). O argumento de que se trata de uma proposta de lei e não de uma lei é revoltantemente risível.

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