«Quarentão» e «quadragenário»

Parece mais velho

«Ontem, no tribunal de Munique, o quadragenário de fato negro e óculos de massa levantou-se para pedir publicamente desculpa às vítimas, que não estavam presentes na sala» («Casanova suíço confessa extorsão a ‘Senhora BMW’», Hugo Coelho, Diário de Notícias, 10.03.2009, p. 29). Está certíssimo: quadragenário é aquele que tem idade na casa dos 40 anos. A verdade, porém, é que a palavra «quarentão» é muito, mas muito mais usada. Até hoje, nunca ouvi ninguém proferir a palavra e na escrita só em traduções. Trintão, quarentão, cinquentão, sexagenário…

Groenlândia ou Gronelândia?


Jamais

      Sabe qual é a capital da Gronelândia? Bem me parecia… Ah, sim, este blogue é sobre língua.
«Desta água fria (parece que vinda do degelo da Groenlândia) tenho medo» («Água a mais para um gato escaldado», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 12.03.2009, p. 56). Se vem do dinamarquês Grønland, até se afigura mais correcto, e é mesmo a grafia preferida dos Brasileiros. Contudo, no Grande Vocabulário da Língua Portuguesa, José Pedro Machado afirma que Gronelândia é preferível a Groenlândia. O que me parece é que Groenlândia é mais difícil de pronunciar, e nunca a pronunciei.

Verbo «tratar-se», de novo


Só vi 5 minutos

Em Sintonia do Amor (Sleepless in Seattle, no original), que ontem à noite passou no canal Hollywood, Sam Baldwin (Tom Hank) diz ao filho, Jonah (Ross Malinger): «Tratam-se de coisas que quero descobrir, e por isso é que saio com ela.» A tradutora foi Susana Bénard (Ideias & Letras). Alguns tradutores serão proficientíssimos na língua de partida — mas na língua de chegada?

Ortografia: «termossolar»

Imagem: http://www.aquasol.com.br/TSnovo.htm

Mais brio


Estão a ver a palavra «termossifão» na imagem? Parabéns, vêem. Agora a sério. Na edição de hoje do jornal económico Oje lia-se o seguinte título: «ACS totaliza investimentos de 2.200 milhões em eólica e termosolar». O que me pergunto é se esta gente — jornalistas, editores, revisor, paginador — não tem pelo menos curiosidade em saber como se escrevem as palavras. Acaso não aprenderam, como eu, na escola primária que um s isolado vale por z? Lidam com as palavras como se se tratasse de pedras. Termorresistente, termossifão, termossolar…

«Porque» e «por que»

Também dormita

O leitor M. C. pergunta-me se a seguinte frase de Ferreira Fernandes está correcta: «Um das razões porque gosto de futebol é que chuta a semântica para ela ser discutida em lugares impensáveis» («Mais uma discussão da treta», Diário de Notícias, 10.03.2009, p. 52). «E não me refiro», acrescenta o leitor, «à falta de concordância.» Bem me parecia que não iria incomodar-me pela falta de concordância… Tem, contudo, razão: Ferreira Fernandes deveria ter escrito «uma das razões por que», o que equivale a «uma das razões pelas quais». Que, na frase, é um pronome relativo. Substitui o nome antecedente «razões». Este continua a ser um erro bastante frequente.

Iliteracia


Não lhes falta chá

Reparem na apresentação do produto: «Infusão de plantas em saquetas individuais de 1,5 g gravadas a 1 cor. Embalagem individual de 10 saquetas.» Vamos fingir que infusão não é a operação que consiste em deixar macerar plantas ou outra substância num líquido a ferver, de forma a extrair-lhe os princípios alimentícios ou medicamentosos. No modo de preparação, lê-se: «Para garantir uma boa extracção dos activos e assim obter uma infusão de aroma intenso e paladar agradável, deve prepará-la sempre com água fervente.» Espera lá: mas a infusão não estava já preparada na saqueta?
Quem é que escreve estas parvoíces? Na Coutinho & Alexandre fariam bem em consultar um dicionário que lhes infundisse algo de bom.

Nova edição do «Volp»


Dia de São José

O leitor Paulo Araujo, a quem fico muito grato, acabou de me enviar o texto acima, publicado hoje no jornal O Estado de S. Paulo. As notícias, como podem ver, não podiam ser melhores: dia 19 a 5.ª edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp) será lançado. O volume terá 349 737 palavras com as respectivas classificações gramaticais. Em relação a certos vocábulos, a Comissão de Lexicografia da Academia Brasileira de Letras e principal responsável do Volp teve de estabelecer critérios no vazio deixado pelo Acordo Ortográfico de 1990. «Outro caso omisso no acordo foi a utilização de “não” e “quase” como prefixos — como não fumante ou quase irmão. Preferiu-se a forma sem hífen», escreve o autor do texto, Alexandre Gonçalves, que termina o texto afirmando: «A reacção portuguesa será conhecida na primeira quinzena de Abril, quando o Volp chegará ao país.» Este Volp será, não há qualquer dúvida, a base do futuro e tão necessário vocabulário ortográfico comum exigido pelo acordo.

«Stande»?

Não me convence

Até já me esquecia que o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, regista e recomenda «stande». ‘Stá bem, mas, já agora, não era melhor «estande»? «Não se trata de nenhuma espécie de adoração de um novo carro, nem nenhum sinal de espanto perante a sua beleza. Trata-se, apenas, de dois vendedores que fazem exercício físico antes da abertura do stande, em Banguecoque. Com a crise, é preciso muita força para vender...» («Tailândia», Global Notícias, 10.03.2009, p. 2).

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