Plágio

Nem os sermões escapam

Agora também os homiliastas saem prejudicados com a Internet: «Os 28.000 sacerdotes católicos que há na Polónia foram informados pela respectiva hierarquia de que poderão ser multados, se plagiarem os seus sermões a partir da Internet, podendo inclusive sujeitar-se a três anos de cadeia, noticiava ontem o jornal britânico The Guardian, numa correspondência de Berlim. A Igreja publicou um livro sobre como se devem escrever sermões, de modo a combater o hábito crescente de os padres se apropriarem das palavras alheias» («Quem plagiar sermões pode ir para a cadeia», Público, 27.4.2008, p. 21). O padre Wieslaw Przyczyna, co-autor da obra ŚCIĄGAĆ CZY NIE ŚCIĄGAĆ? (Plagiar ou não Plagiar), que tem 150 páginas e custa 29,90 zlotys, à volta de 9 euros, é especialista em sermões da Pontifícia Academia de Teologia de Cracóvia.

Léxico: «pickanini»

Pequenino

«A corrida prometia, com três excêntricas personagens. Os dois candidatos que dizem o que pensam sem papas na língua: Livingstone (uma vez chamou nazi a um jornalista judeu) e Johnson (usou um termo negativo, pickanini, para falar de africanos numa coluna de jornal). E ainda o liberal democrata Brian Paddick (o mais alto funcionário da polícia britânica a ter assumido a sua homossexualidade). Mas a campanha tornou-se num duelo entre Johnson e Livingstone» («Duelo de duas personalidades originais para a câmara de Londres», Maria João Guimarães, Público, 27.4.2008, p. 18). Aquele pickanini espicaça a curiosidade de qualquer pessoa. Não há praticamente nada sobre o vocábulo. Ainda assim, na Internet descobri isto: «Sabir actually survived until the nineteenth century and some of its words occur very regularly in almost all pidgins and creoles: sabi or savi ‘to know’ (from Spanish/Portuguese saber), pikin/pikinini/pickanini ‘small’/’child’ (from Portugueses pequenino), oporto ‘white man’ (from the Portuguese city of the same name), etc.» (Los estudios ingleses. Situación actual y perspectivas de futuro, «How and why do pidgin languages evolve?», Ana Fernández Guerra, Universidade de Valência, 1999, p. 122).

Actualização em 1.5.2008

«Johnson tem passado o tempo a defender-se de um comentário que escreveu sobre uma visita do então primeiro-ministro Tony Blair a África na Spectator (a revista conservadora que editou de 1999 a 2005), criticando-o por fugir de Londres para ser saudado pelos pickaninnies, um termo pejorativo. “Picaninny é um termo fora de moda para descrever uma criança negra e sim, usei-o, e é ofensivo, mas já pedi desculpa várias vezes”, disse num debate televisivo, adiantando à laia de desculpa que o usou num “contexto satírico”» («O conservador colorido acusado de fazer pouca campanha para evitar gaffes», Maria João Guimarães, Público, 1.5.2008, p. 17).

Numerais


Manda a tradição



      No programa Sociedade das Nações de ontem, na Sic Notícias, Nuno Rogeiro, a propósito de um disco, falou nas Cantigas de Santa Maria, uma colecção, uma compilação de 419 cantigas, escritas em galego-português, dedicadas à Virgem, da autoria de Afonso X. E este numeral leu-o Nuno Rogeiro como cardinal: Afonso Dez. Ora, a verdade é que na designação de papas, soberanos, séculos e partes de uma obra se usam os ordinais até décimo quando o substantivo antecede o numeral. Logo, deveria ter dito Afonso Décimo. Se há alguma coisa facultativa é o uso dos cardinais quando o número é superior a dez, isso sim. É para prevenir estas confusões e trapalhadas que algumas revistas e jornais brasileiros usam, nestas circunstâncias, algarismos arábicos, como podem ver na imagem acima: João Paulo 2.º e Bento 16. Muito inventivos e práticos, os Brasileiros. Cada vez gosto mais deles. E é um amor recíproco, sei-o, porque 50 % dos meus leitores são brasileiros.


Formas de tratamento

Calinadas


      No Público, Nicolau Ferreira escreve sobre os funerais do futuro — «Os cemitérios do futuro vão estar vivos», é o título. O sumário previne, amigável e erroneamente: «No dia do vosso funeral não fiquem surpreendidos se houver pessoas a assistir a um concerto na esplanada do cemitério. A Europa espera por uma morte mais verde, tecnológica e personalizada. Vamos adiar a morte para ver o funeral de amanhã». Mortos e surpreendidos… Alguma figura de estilo, cogitará o revisor temeroso. Vamos, porém, por outro lado: «vosso» e «não fiquem».
      Já o Prof. Vasco Botelho de Amaral escrevia, a propósito das formas de tratamento, em 1947: «Considero que a língua portuguesa é rica demais quanto a formas, fórmulas, jeitos e processos de tratamento. Rica demais, porque a abundância de obstáculos não apenas se opõe aos estrangeiros dispostos a aprender a falar ou a escrever o nosso idioma, mas, inclusivamente, dificulta o acesso dos próprios Portugueses ao conhecimento seguro ou correcto da técnica do tratamento» (Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1947, pp. 540-557). Muito bem dito — até o duplo «demais». Ah, sim, não digam disparates. O texto vai por ali fora e lá está o que nos interessa: «Outro solecismo, frequente, por exemplo, nas locuções radiofónicas inclusivamente da nossa primeira estação, é a mistura do tratamento vocativo na 3.ª pessoa com pronomes na 2.ª:
      “Prezados ouvintes. Esperamos que o programa que lhes temos estado a transmitir seja do vosso agrado.”
      Quando se diz lhes, o tratamento realiza-se na 3.ª pessoa. Pois, esta mesma construção tem de manter-se, e, portanto, não se apresenta canonicamente o vosso, em lugar de seu. O programa que lhes temos estado a transmitir seja do seu agrado — será a única dicção correcta.»
      Na página 551, faz uma advertência: «2.as com 3.as = calinada». Não é bonito? Sessenta anos depois, o erro persiste. Tenho à minha frente duas obras: uma tradução e uma obra original portuguesa. Veja-se um exemplo da primeira: «— Mas agora entendem por que a casa é demasiado perigosa para vós? Têm de fazer com que a vossa mãe o entenda também. Têm de fazer com que ela queira ir-se embora dali. Se eles souberem que lá estão, pensarão que têm o livro e jamais vos deixarão em paz» (O Mapa Secreto. Livro 3 de As Crónicas de Spiderwick, de Tony DiTerlizzi e Holly Black, tradução de Isabel Gomes e revisão de Isabel Nunes. Editorial Presença, Lisboa, 3.ª ed., 2008, pp. 41-42). E um exemplo da segunda: «Lydia carregou na tecla que dizia “ler” e a mensagem apareceu escrita no ecrã: “Bem-vindos ao Planeta Branco. Convidamo-los a desembarcar, sem medo. As vossas vidas não correm perigo e a atmosfera é respirável» (O Planeta Branco, Miguel Sousa Tavares, revisão de Silvina Sousa. Lisboa: Oficina do Livro, 1.ª ed., 2005, pp. 61-62). Para quê continuar? Já perceberam.

Uso do hífen com anti-

Oh, que desilusão!

Ana Gerschenfeld escreve hoje no caderno P2 do Público: «Um dia, os automobilistas poderão ter de usar um capacete ao volante. Só que não será para proteger a cabeça em caso de choque, mas para evitar que eventuais lapsos de atenção provoquem um acidente» («No futuro. Capacete anti-erro», 26.4.2008, p. 3). Lamentavelmente, o capacete ainda não existe nem, existindo já, se aplicaria aos erros ortográficos: o prefixo anti- só leva hífen antes de h, i, r e s. Logo, antierro.

Dicionários raros

Boa notícia

Esta sim, é uma óptima notícia: o sítio do Instituto de Estudos Brasileiros/Universidade de São Paulo acaba de pôr à disposição do público, em versão fac-similada, dois dicionários raros: o Diccionario de Medicina Popular, da autoria de Pedro Luiz Napoleão Chernoviz, publicado pela primeira vez em 1842, e que chegou à 18.ª edição em 1918, e o Vocabulario Portuguez & Latino, de Rafael Bluteau, cujos dez volumes foram publicados entre 1712 e 1728. O projecto é coordenado pela historiadora Márcia Moises Ribeiro. Ver aqui. Seguir-se-á, proximamente, segundo é ali anunciado, a publicação de outros dicionários.
Muito obrigado ao leitor Jeová Barros, que me chamou a atenção para este acontecimento.

Léxico: «capitular»

Hum…



      «Peculiar porquê? Porque é usada de uma forma não canónica, apesar de o escritor já fazer parte do cânone literário: falta no texto o travessão para identificar o interlocutor no diálogo e somos apenas ajudados pelo início das falas de cada personagem ser assinalado por uma capitular. Também aqui se vê a frase característica da escrita de Saramago, quase sem pontos finais e cadenciada na pausa por vírgulas» («Saramago, o escritor que brinca com a pontuação», Isabel Coutinho, Público/P2, 23.4.2008, pp. 4-6). Não é raro, é raríssimo ver-se o vocábulo «capitular» usado nesta acepção: maiúscula inicial. Habitualmente, reserva-se o termo para designar a maiúscula ornamentada e de grandes dimensões usada em início de capítulo. Também dita meramente capital se for apenas grafada num corpo superior ao usado no texto. Mais chãmente, mais terra-a-terra, diríamos então «assinalado por uma maiúscula».


Léxico: «tecnodoping»

Depois do doping

Todos os dias nascem novas palavras. «O novo fato da Speedo relançou o debate sobre as condições de igualdade entre os nadadores. O termo tecnodoping até já ganhou expressão em vários fóruns e blogues, embora João Paulo Vilas Boas, director do departamento de biomecânica da Faculdade de Desporto do Porto, diga que não se pode apelidar este caso de tecnodoping. “Doping é elevar ilícita e artificialmente a capacidade de rendimento”, refere Vilas Boas, para quem a “tecnologia tem lugar no desporto” e é um desafio para os fabricantes» («Tecnodoping ou tecnomarketing, os efeitos do novo fato na modalidade», Hugo Daniel Sousa, Público, 20.4.2008, p. 41).

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