Como se escreve na imprensa

Sinos e prestações

Vejam este título da edição de hoje do Meia Hora: «Primeiro sino astronauta vai passear no Espaço este ano». Inequívoco e gramaticalmente correcto: alguém, um país, vai mandar um sino para o espaço. Nada de mais. Aliás, uma cadela não é mais do que um sino. Claro que não deixamos de nos perguntar para quê, mas por vezes a ciência é insondável. Logo o primeiro parágrafo da notícia, porém, nos despersuade de que uma cadela não é mais do que um sino: «Pequim anunciou os seus planos espaciais para 2008, em que deverá lançar 15 foguetões, pôr em órbita 17 satélites e promover a sua terceira missão tripulada, que vai incluir o primeiro passeio espacial por parte de um astronauta chinês, informou ontem a agência de notícias oficial» («Primeiro sino astronauta vai passear no Espaço este ano», Meia Hora, 9.1.2008, p. 12). Sino é um antepositivo, um elemento de composição, não pode andar por aí à solta como uma gaivota.
E se tivéssemos mais cuidado com o que escrevemos, não seria melhor? Logo um dos títulos da primeira página é de arrepiar: «Pensões de reforma: aumento atrasado, curto e pago às prestações deixa oposição à beira de um ataque de nervos». «Às prestações»?

Léxico contrastivo: «síndico»

Uma espécie de advogado

«Moradora e ex-síndica, Otilde Bandeira só lamenta que o raro indicador de andares em forma de relógio, que fica em cima da porta, tenha quebrado no ano passado. “Foi uma loucura conseguir o conserto”» («Sobe e desce», Anna Luiza Guimarães, Jornal do Brasil, 6.1.2008, p. A16). Vem do grego σύνδικος (syndikos), «advogado, representante», a que pertence também o vocábulo «sindicato». No Brasil, é a pessoa que administra um condomínio, geralmente, como em Portugal, um condómino. Os Portugueses conhecem a palavra das telenovelas. Corresponde ao nosso administrador.

Tradução

Fitas e adesivos

Na Sic Mulher, na série inglesa Animal Hospital, tão reveladora da singularidade dos Ingleses, dois adolescentes levaram uma periquita, a Snowy, ao veterinário. Tinha, viu-se depois bem na radiografia, uma pata fracturada. Rolf Harris (australiano a viver desde 1952 no Reino Unido), o apresentador do programa, perguntou à veterinária se ia usar talas, ao que ela respondeu que usaria tape, que tanto significa «fita-cola» como «adesivo». No contexto, contudo, só poderia traduzir-se por adesivo, e foi isso que vimos, e não é preciso ser-se veterinário ou alveitar para perceber porquê. Na legenda, lemos, com espanto e incredulidade, que usaria fita-cola. Coitado do pássaro. E do tradutor, que trabalha para a Pluridioma.

Como se fala na rádio

Capit_ _s de Abril

      No noticiário das 21 horas de ontem na Antena 1, o jornalista Daniel Belo disse, convictamente e na sua bela voz, que «Luisão é um dos capitões da equipa».
      Primeiro a gramática. É verdade que a maioria dos substantivos terminados em -ão pluraliza, por razões etimológicas, em -ões. (É neste grupo, não esqueçamos, que se incluem os infindáveis aumentativos.) Não é neste grupo, porém, que se encaixa «capitão». Há depois um grupo, reduzido, de substantivos em -ão cujo plural não está definitivamente fixado, como é o caso, por exemplo, de «aldeão», com dois plurais: aldeãos e aldeães; de «ancião», com três plurais: anciãos, anciões, anciães; de «ermitão», etc. Também não é a este grupo que pertence «capitão». «Capitão» faz parte de um grupo, igualmente reduzido, de substantivos que pluralizam em -ães:

alemão/alemães;
bastião/bastiões;
cão/cães;
capelão/capelães;
capitão/capitães;
catalão/catalães;
charlatão/charlatães;
escrivão/escrivães;
guardião/guardiões;
pão/pães;
sacristão/sacristães;
tabelião/tabeliães.

      Quanto às circunstâncias do erro. É também verdade que falar não é escrever. Quem escreve pode corrigir sem que os destinatários o saibam. Quem fala em directo numa rádio ou na televisão ou erra e não liga ou corrige. Na minha opinião deve corrigir sempre. Para João Paulo Meneses, autor do excelente Tudo o que se passa na TSF — … para um «livro de estilo» (Editorial Notícias, 2003), não é sempre assim, pelo menos no que respeita aos «pequenos erros»: «Podemos rectificar de imediato mas também deixar seguir: se tivermos em conta que qualquer rectificação funciona como um alerta (redobrado) do próprio erro, então nestas pequenas gralhas a correcção não é necessária» (p. 269). Já aqui apresentei as razões da minha discordância.

Expressão: «papa negro»

Superior dos Jesuítas

«Desde o último dia 6 de janeiro, representantes da Companhia de Jesus no mundo inteiro estão reunidos em Roma para repensar sua identidade e missão para os anos vindouros. E sua primeira providência será eleger um novo superior geral. Pela primeira vez na história, o assim chamado “papa negro” renuncia ao cargo ainda em vida e sua renúncia é aceita pelo papa. O novo geral, que será eleito pelos 225 delegados de todas as províncias da Ordem, terá diante de si uma árdua e bela missão: governar a Companhia pelos próximos anos. Diante de si terá dois grandes e reais desafios» («Uma companhia para o século 21», Maria Clara Bingemer, Jornal do Brasil, 7.1.2008, p. A10). A designação deve-se simultaneamente à cor das vestes dos Jesuítas e à importância da ordem no seio da Igreja Católica.

Como se fala na rádio

Todos os nomes

Queria expressar a minha solidariedade com o director-geral de Saúde, Dr. Francisco George. Não, como seria de esperar, por causa de toda a oposição à aplicação da chamada Lei do Tabaco (Lei n.º 37/2007, de 14 de Agosto), mas pelo facto de os jornalistas da rádio lhe deturparem quase sempre o nome. Na Antena 1, ora é «Jorge» ora «Géorge». Conheço o nome do director-geral de Saúde desde os tempos em que ele era delegado de saúde em Beja e escrevia para o Diário do Sul. Nunca me passou — e porque havia de passar? — pela cabeça aportuguesar-lhe o nome. Quanto a deturpações, já basta com o meu: Helder Guedes?

Judeu/judaico

Museu Judaico de Berlim


      Já foram várias as vezes que aqui escrevi sobre a diferença entre «judeu» e «judaico». O erro persiste. Pelo que pude averiguar, o erro já vem da agência Lusa. Os jornais limitam-se a — acefalamente — reproduzi-lo, como fez o Meia Hora: «O Museu Judeu de Berlim voltou a superar em 2007 o seu recorde anual de visitantes, com 733 mil pessoas, mais 18 mil do que no ano anterior» («Museu Judeu de Berlim supera número de visitas», Meia Hora, 7.1.2008, p. 13). Alguns jornais ainda têm a desculpa de que não têm revisão, mas este tem: a ficha técnica diz que a revisora é Sílvia Lobo.




O futebolês nas traduções

Mister

Ontem à noite, dei uma olhadela ao canal Hollywood. Passava o filme Os Três Desejos (Three Wishes no original). Estavam três personagens sentadas à mesa a tomar o pequeno-almoço. Quando entra uma quarta personagem, e foi aqui que eu comecei a ver, a personagem desempenhada por Patrick Swayze levanta-se e diz: «Coach…» A tradutora (e tive de esperar até ao fim para ver quem tinha traduzido), Susana Bénard, achou que ficaria bem traduzir «coach» por «mister», palavra bem portuguesa, como sabemos. Talvez alguma «massa associativa» ache bem, eu acho simplesmente ridículo.

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