Léxico contrastivo: «cacimba»

Cacimba é poço

      «Uma brincadeira em uma cacimba terminou com a morte de duas crianças no início da tarde de ontem na rua Almir Lopes, 151, Eusébio. De acordo com informações do sargento Carlos Cristiano, do Corpo de Bombeiros de Horizonte, na Região Metropolitana de Fortaleza, os primos Ezequiel Rodrigues das Neves, 5 anos, e João Vitor Ribeiro da Silva, 4 anos, estavam brincando sobre a tampa da cacimba, feita de um pedaço de portão quando o material acabou caindo no buraco, levando as crianças. O sargento diz que havia pouca chance de as crianças terem sobrevivido ao acidente. “Quando chegamos, não havia mais nada a fazer para salvar as crianças. Não se sabe se elas morreram na queda ou afogadas. A cacimba tem 12 metros de profundidade, mas estava com sete metros d’água”, explica o sargento» («Primos morrem ao cair em cacimba», Marcos Cavalcante, O Povo, 24.12.2007, p. 10). Uma cacimba é um poço cavado no solo para extracção de água. O étimo é o quimbundo kixima.

Entrevista a A. Lobo Antunes

X, o Panóptico

      Na entrevista de ontem a Mário Crespo, no Jornal das 9, na Sic Notícias, António Lobo Antunes confessou ter pena que em Portugal não haja a distinção anglo-saxónica entre publisher e editor. Este, alvitrou, ajudá-lo-ia com conselhos, «corte aqui», «desenvolva ali». A não ser que Lobo Antunes se referisse à distinção meramente semântica, a verdade é que temos publishers (dos quais, de resto, não manifestou esperar nem conforto nem conselhos) e editors — que se reúnem na mesmíssima pessoa. E isso não tem nada de estranho. Quando Lobo Antunes escrevia nas folhas de prescrição médica com o timbre do Hospital Miguel Bombarda (usando para fins privados um bem público — honra nossa…), mesmo durante as horas de serviço e estando de bata, também não seria fácil distinguir quem era o escritor e quem era o médico. É claro que se se referia ao facto de o publisher estar nas Maldivas a apanhar banhos de sol e o editor a compor-lhe a prosa, essa realidade é mais norte-americana. A minha experiência, consideravelmente menos vasta do que a de Lobo Antunes, é a de que a função do editor anglo-saxónico está nos nossos directores e responsáveis editoriais, e, por vezes, nos simples assistentes editoriais. No fundo, trata-se da mesma espécie de ignorância que revelava, há uns meses, um crítico literário com quem conversei, que mostrou não saber, nem sequer aproximadamente, qual o papel de um revisor, ainda que estivesse absolutamente convicto de o saber. A mim, como revisor e tradutor, é-me dado ver o que eles não vêem, e vice-versa. Não há, em relação a nenhuma realidade, observadores panópticos.
      Mário Crespo é inteligente. Começou por exorcizar o mal, afirmando que entrevistar António Lobo Antunes era intimidante. E isto, por vezes, resulta. Como parece ter sido o caso. Com sorrisos, meios sorrisos e silêncios, Mário Crespo soube gerir o tempo, generoso, como sempre devia ser, da entrevista. Mas houve afirmações enigmáticas ou ambíguas de Mário Crespo, como quando disse que ninguém escrevia como Lobo Antunes. Não podia deixar de dizer o mesmo, suponho, e com o mesmo grau de justeza, se o entrevistado fosse José Saramago, Mário Cláudio, José Rentes de Carvalho ou José Luís Peixoto, por exemplo. A quase louvaminha por causa da disposição gráfica da dedicatória de O Meu Nome É Legião, tantas vezes mais fruto da inspiração do paginador do que escolha ponderada do autor, foi caricata. Se a observação tivesse sido feita em relação a outras ousadias formais do autor, de que tem epígonos bastantes, e que a mim, pessoalmente, me não encantam, aí sim, entrávamos no mérito do autor.

«Bola de Berlim»?

Imagem: http://img.olhares.com/
Mitos urbanos

      «Afinal, tudo não passava de um mito urbano. A venda de bolas de Berlim nas praias nunca foi proibida, tal como nunca houve lei alguma que proibisse o bolo-rei de ter brinde» («Bolas de Berlim voltam à praia com ok da ASAE», Ana Kotowicz, Meia Hora, 21.12.2007, p. 6). Se se deve escrever «couve-de-bruxelas» e não «couve de Bruxelas», «folha-de-flandres» e não «folha de Flandres», «água-de-colónia» e não «água de Colónia», «porco-da-índia» e não «porco da Índia», então por que diabo continuamos a escrever «bola de Berlim»? Poucos dicionários registam a locução, mas os que o fazem, como o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, é assim que a registam. Seja bola-de-berlim!

Actualização em 23.07.2009

Ora aqui temos bem grafado: «Mas quando viu o senhor que vende bolos na praia, levantou-se num ápice e dirigiu-se a ele: em poucos minutos tinha duas bolas-de-berlim na sua posse» («Norton de Matos não resiste à bola-de-berlim», Rita Bravo, Diário de Notícias, 22.07.2009, p. 53).

Actualização em 28.07.2009

Era aqui temos mal grafado: «A freguesia, que fez do acontecimento anedota, não trocou as bolas de Berlim com creme pelos recém-chegados muffins de chocolate crocante com sementes de gergelim e espuma de baunilha, pelo que rapidamente se escoou para outras paragens» («Leite entornado», Nuno Pacheco, Público/P2, 27.07.2009, p. 3).

Ortografia: «outrem»

Por conta de outrem

      Uma coisa irritante é, de impressos de organismos oficiais a traduções, poucas vezes o vocábulo «outrem» estar correctamente grafado, isto é, sem o acento. Se o acento tónico está na penúltima sílaba, gostava de saber como pronuncia a palavra quem a escreve com acento. A regra geral, em relação às palavras graves, sabemos, é não terem acento gráfico. Em contrapartida, poucas vezes vejo acentuada a forma verbal «contém», que precisa do acento, pois se trata de uma palavra aguda não monossilábica terminada em -em, como «além», «alguém», «armazém», «Belém», «Cacém», «catém», «cuiavém», «curtarém», «Jerusalém», «Matusalém», «ninguém», «refém», «retém», por exemplo.

Léxico: «chaptalização»

Coisas do vinho

      Ouvi-a ontem na Antena 1. Nunca tinha ouvido a palavra antes. A chaptalização é a adição de açúcar de beterraba ao mosto, para aumentar o teor alcoólico. O termo (em francês chaptalisation) deriva do nome de quem difundiu a prática: Jean-Antoine Chaptal (1756-1832), conde de Chanteloup, médico e químico francês. Com a chamada reforma do vinho, a prática da chaptalização mantém-se, o que é contestado pelos países do Sul da Europa.

Silabadas

Atenção

      Mário Crespo, o nosso melhor apresentador de telejornais, entrevistou ontem José António Barreiros, recém-eleito presidente do Conselho Superior da Ordem dos Advogados. A determinada altura, Mário Crespo afirmou que há «escritórios a funcionar quase em /cártel/». O entrevistado não respondeu à acusação (porque não percebeu a palavra?), e eu só quero dizer que «cartel» tem acento tónico na última sílaba e com o a fechado, como «Abel», «anel», «Babel», «granel», «papel», «Raquel»...

Lexicografia; «repère»

Ça tire

      Nunca deixo de ficar espantado — posso? — com certas técnicas e critérios dicionarísticos. Pego, por exemplo, no Grande Dicionário Francês/Português de Domingos de Azevedo (13.ª edição, 1998) e procuro o verbete do vocábulo «repère». Leio: «Sinal ou marca que se põe nas diferentes peças de uma obra para se poderem ajustar com exactidão e facilidade.│Marcas ou sinais que se fazem em uma parede, em um terreno, etc., para se encontrar um alinhamento, um nível, uma altura, uma distância.│Point de repère, ponto de partida; ponto de referência; sinal; indicação.» Ter-me-ei enganado de dicionário? Mas não, este é mesmo um dicionário bilingue. Então, porque é que me aparece uma definição em vez de um ou vários vocábulos correspondentes na língua portuguesa? E a locução final, point de repère, não acaba por condensar as correspondências em português? Repère, afinal, pode ser muita coisa: as nossas miras de acerto, da indústria gráfica, serão repères em francês; em sentido figurado, sim, será um marco, um marco cronológico, por exemplo; um ponto de referência para encontrar uma casa, por exemplo, é um repère; o traço que serve de índice de leitura num instrumento de medida é um repère; as marcas para a posição de montagem de um instrumento são repères; as hastes pintadas de duas cores, chamadas varolas, usadas em trabalhos de topografia, são repères. Etc.

Léxico contrastivo: «disque-droga»

Ao domicílio

      «O oficial é acusado de manter um disque-drogas em sua casa para atender a consumidores em bairros nobres das zonas Sul e Oeste. Segundo a polícia, Fragata vendia entre cinco e 10 quilos por semana. Cada grama custava em torno de R$ 100 com a droga já misturada. Fragata atendia às pessoas em casa, contactadas através de telefone e email» («PF desarticula quadrilha que fazia disque-drogas», Felipe Sáles, Jornal do Brasil, 19.12.2007, p. A13). Este vocábulo nem sequer no Aulete Digital está registado. Como se depreende, é um serviço de venda de droga em que esta é entregue em casa do cliente. Comodamente. Como se de uma piza se tratasse.

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