Léxico contrastivo: «tubulação»

Rede

      «A rede de esgoto do Hospital Souza Aguiar voltou a apresentar problemas ontem. A denúncia foi feita pelo presidente do Sindicato dos Médicos do Rio (Sinmed), Jorge Darze. Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde informou que houve um entupimento na caixa de gordura, no estacionamento, nos fundos da unidade. Segundo o órgão, a limpeza da caixa, feita pela manhã, provocou o refluxo do esgoto em alguns pontos do subsolo» («Souza Aguiar volta a sofrer com tubulação de esgoto», Denise de Almeida, Jornal do Brasil, 11.12.2007, p. A16). 
      Parece muito técnico. Em Portugal diríamos, em circunstâncias semelhantes, «Souza Aguiar volta a sofrer com rede de esgotos» ou «Souza Aguiar volta a sofrer com sistema de esgotos», como na própria notícia se escreve. Antigamente, dir-se-ia encanamento.

Léxico: «alcaixa»


What one learns will depend on what one asks to begin with.
À marinheiro

      O leitor, e tradutor, A. M. L. pergunta-me se sei o nome que tem a gola postiça da blusa dos marinheiros. Como ainda ontem li, o que uma pessoa aprende depende do que pergunta. Também eu, por causa de uma dúvida, já uma vez fui ter com um alfaiate para me explicar um termo para uma tradução. A gola postiça, com listas em volta, que sai do decote da blusa dos marinheiros e abre sobre o peito, formando cabeção de cantos nas costas, designa-se alcaxa. Variantes: alcaixa e alcachaz.

Tradução: «massive»

Maciças são as portas

      Nas traduções do inglês, não deixa de ser irritante que o massive seja quase sempre e só traduzido por — maciço. Ou, pior — massivo. Que raio, então e se fosse «grande», «imponente», «imenso», «poderoso», «enérgico», «gigantesco», «esmagador», «pesadíssimo», «enorme», «tremendo», «grosso»… Claro que o metus reverentialis, também ele maciço, dos revisores tem o seu peso.

Léxico: «bruxismo»

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Santo Ofício


      Pânico no dentista. «O nosso filho tem bruxismo!», bradam os pais à saída. Os outros pacientes, saindo de uma modorra receosa, alarmam-se. Ficam alerta. Escarafuncham os neurónios em demanda da palavra. Só ocorre «bruxa». Uma senhora, ainda jovem, levanta os olhos da Evasões e diz: «Isso não é nada. O meu filho sofre de restlesslegs

Léxico contrastivo: «orelhão»

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Escuta

      «A depredação de telefones públicos atingiu no Estado do Rio a marca de 72 mil aparelhos somente no ano passado, informa a Oi, empresa de telefonia que substituiu a Telemar. Nas contas da companhia, todos os meses 6% das unidades são danificados. Ao todo, estão espalhados pelo Estado 100 mil orelhões» («A cada ano, 72 mil orelhões são depredados no Estado», Jornal do Brasil, 9.12.2007, p. A15). Mais uma vez, um objecto ficou conhecido pelo nome que lhe foi atribuído popularmente. No Brasil, os telefones públicos só surgiram nos passeios em finais de 1971. Em Portugal, os telefones públicos que estão no exterior, nas ruas, apenas têm a designação de cabinas telefónicas.

Léxico contrastivo: «gari»

Almeidas e garis

      «Parte da mão-de-obra que poderia ser usada para varrer a cidade ou reforçar a coleta de lixo é hoje desviada para desgrudar de postes e parques papéis de propaganda colados ilegalmente. Os anúncios irregulares vão desde prostituição a professores particulares e são insistentemente retirados com espátulas e tinta pelos garis que trabalham na Comlurb» («Praga do papel colado tira garis da limpeza urbana», Jornal do Brasil, 9.12.2007, p. A15). Gari é o varredor de rua, e é mais um exemplo de derivação imprópria: o étimo é o antropónimo (Pedro Aleixo) Gary, antigo responsável pela limpeza das ruas do Rio de Janeiro. Francês de origem, Aleixo Gary estabelecera-se no Rio de Janeiro em 1859, com armazéns de drogas e produtos farmacêuticos, importação e exportação, assinando em 11 de Outubro de 1876 um contrato com o Ministério dos Negócios do Império para execução dos serviços de limpeza e irrigação da cidade, por um período de 10 anos, mas que se prorrogou até 1891. Temos um caso paralelo com o nome que ainda algumas pessoas dão aos varredores na cidade de Lisboa: almeidas. Deriva do antropónimo Almeida, apelido de um responsável da limpeza urbana da capital.

Má tradução?

Pensemos

      «O Tribunal de Apelações da Justiça de Mônaco voltou a adiar o julgamento do pedido de extradição do Brasil do ex-banqueiro Salvatore Cacciola. Foragido do Brasil desde 2000, Cacciola foi preso pela Interpol em Mônaco em setembro. Desde então, o governo vem tentando seu retorno ao país. De acordo com o Ministério da Justiça, o novo julgamento deve ocorrer até 31 de janeiro de 2008. O adiamento, segundo a Justiça, foi motivado por “discrepâncias” de termos jurídicos traduzidos do português para o francês no parecer que pede a extradição. Entre os termos divergentes, por exemplo, estaria o crime de peculato» («Má tradução mantém Cacciola em Mónaco», Jornal do Brasil, 7.12.2007, p. A4). O Jornal do Brasil quis saber a opinião de Delber Andrade, advogado e professor de pós-graduação do Centro de Direito Internacional (Cedin), em Belo Horizonte. Segundo Delber Andrade, «peculato é uma palavra muito própria da nossa língua e não existe um correspondente em francês». Não é verdade. «Péculat: soustraction ou détournement des fonds publics ou des biens de l’État par un dépositaire ou comptable public.» O que sucede é que o tipo penal designado como peculato no Código Penal brasileiro não corresponde a um tipo legal designado como «péculat» no direito penal francês. Não sou especialista em Direito Comparado, mas diria que corresponderá ao crime de «escroquerie»: «L’escroquerie est le fait, soit par l’usage d’un faux nom ou d’une fausse qualité, soit par l’abus d’une qualité vraie, soit par l’emploi de manoeuvres frauduleuses, de tromper une personne physique ou morale et de la déterminer ainsi, à son préjudice ou au préjudice d’un tiers, à remettre des fonds, des valeurs ou un bien quelconque, à fournir un service ou à consentir un acte opérant obligation ou décharge» (Art. 313-1 do Código Penal francês). É, evidentemente, um problema, um erro, de tradução, mas não, paradoxalmente, um erro do tradutor, ainda que tradutor juramentado.
      Só conheço um tradutor juramentado, frequentemente solicitado pelos tribunais, e garanto que poderá perceber de tudo menos de Direito. Em questões tão melindrosas, impunha-se o recurso — nem que fosse somente para uma revisão científica — a especialistas de Direito Comparado.

Léxico contrastivo: «caveirão»

Imagem: http://www.diariodeumpm.net/
Percebe-se porquê

      «Depois do fracasso da operação de quarta-feira na Vila Cruzeiro, na Penha, onde quatro carros blindados quebraram e frustraram o planejamento dos 650 policiais que foram ao morro, a Secretaria de Segurança informou que, até fevereiro, mais oito caveirões chegarão à cidade. Ao todo, o Rio contará com uma frota de 19 blindados, sendo que os novos modelos podem vir do exterior. No dia 19, o Estado lançará a licitação para adquirir os oito caveirões. Já demonstraram interesse empresas do Iraque, Rússia, França, África do Sul e Brasil» («Rio terá oito novos caveirões», Felipe Sáles, Jornal do Brasil, 7.12.2007, p. A15). É um termo da gíria do Rio de Janeiro. Como se depreende da notícia, é o nome dado aos veículos blindados da polícia.

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