Partogénese, engástrio e Cristianismo

ADN

      Lembram-se de ter aqui falado de uma mulher chinesa que, na sequência de uma consulta médica, soube que tinha dentro de si o seu irmão gémeo? Vá lá, não mintam: está aqui. Mal sabia eu que um cientista, Leoncio Garza-Valdés, avançara com essa hipótese para o nascimento virginal (designado partenogénese na literatura científica) de Jesus Cristo. De facto, há várias hipóteses científicas para um nascimento virginal, e, concretamente, para o nascimento virginal de Jesus Cristo. Na obra A Física do Cristianismo, do físico norte-americano Frank J. Tipler, publicada agora pela Editorial Bizâncio (tradução de Jorge Lima e revisão científica de José Félix Costa, professor no Departamento de Matemática do Instituto Superior Técnico), podemos ler: «Em alternativa, a hipótese do próprio Garza-Valdés, a terceira hipótese, é a seguinte. Um tumor com a forma de um embrião masculino não desenvolvido encontrar-se-ia no útero de Maria desde o nascimento. Como observa Garza-Valdés, tais embriões (pelo menos na variedade XX) têm sido relatados na literatura médica, tendo ele próprio tido um paciente que sofria desta anormalidade. O embrião, no caso de Maria, teria fertilizado um dos óvulos dela, do que resultaria o Nascimento Imaculado de Jesus» (p. 214). Frank J. Tipler, contudo, um católico, acha a teoria de Garza-Valdés «moralmente repulsiva», acrescentando que «a acusação de incesto irmão-irmã foi, segundo parece, lançada sobre Maria, em Alexandria, nos inícios da era cristã». Prudente, porém, realça: «Não devemos, no entanto, esquecer que achar uma teoria repulsiva não significa que não seja verdadeira.»
      A tese de Frank J. Tipler é outra: «Um Nascimento Virginal bem mais provável ocorreria caso apenas o gene SRY fosse inserido num cromossoma X de Maria, resultando o nascimento ou de uma célula haplóide [célula que possui apenas um exemplar de cada um dos cromossomas próprios da espécie] na qual se desse duplicação de cromossomas ou de uma célula diplóide [célula que possui uma série dupla de cromossomas homólogos]. No caso haplóide, haveria um gene SRY inserido em cada cromossoma X normal. No caso diplóide, haveria um gene SRY por cada dois cromossomas X normais. Ambos os genomas são distinguíveis dos indivíduos normais do sexo masculino através da realização de testes de ADN convencionais. Um indivíduo do sexo masculino normal disporia do lote normal de genes Y suplementares, enquanto a um indivíduo do sexo masculino XX apenas com o SRY faltariam tais genes. O actual teste-padrão de ADN procura muitos genes Y. (O teste de determinação do sexo que era corrente em meados da década de 1990, inventado por Lucia Casarino e outros, procurava unicamente os genes AMEL-X e AMEL-Y.) Deste modo, o teste-padrão de determinação do sexo permitiria distinguir as diversas maneiras através das quais um indivíduo XX do sexo masculino poderia vir à luz por via de um nascimento virginal» (pp. 203-4).

Léxico contrastivo: «retrato falado»

Apanhado

      Depois do escrachado, eis que surge o «retrato falado»: «A polícia divulgou ontem o retrato falado do suspeito de ter atirado na professora de religião Vitória Lúcia Marques Kurrik, 55 anos, e no padre Frank Luiz Franciscatto, 41 anos» («Polícia já tem retrato falado do assassino», Denise de Almeida, Jornal do Brasil, 6.12.2007, p. A12). Segundo o Aulete Digital, é um termo popular: «Suposto retrato de um suspeito, montado por técnicas e equipamentos especiais, ou por simples desenho, a partir da descrição de testemunhas, usado pela polícia na tentativa de identificá-lo e localizá-lo.» É o nosso retrato-robô. E mais: «Na terça-feira, foi preso o motoboy Magno de Oliveira Paiva, acusado de transportar o bando em um Tempra.» Exactamente: o nosso estafeta.

Léxico contrastivo: «caça-níqueis»

Imagem: http://wizardofodds.com/
Moedas

      «Cerca de 300 máquinas caça-níqueis foram destruídas na tarde de ontem, no estacionamento do Complexo da Polícia Civil, no Sudoeste. A ação foi resultado de uma parceria entre a Justiça, a polícia e Ministério Público. Antes da destruição, os monitores de parte dos equipamentos foram doados a instituições públicas de ensino» («Justiça manda destruir caça-níqueis», Carolina Vicentin, Jornal do Brasil/Brasília, 4.12.2007, p. D6). Em Portugal são, mais prosaicamente, «máquinas de moedas»: «Só após o escândalo — do jogo ilegal, operação de máquinas de moedas, proibidas pela justiça — é que a embaixada se apressou a esclarecer que o cargo de cônsul honorário de Licínio não foi concretizado junto ao Ministério das Relações Exteriores do Brasil» («Operação Furacão ganha contornos políticos», Sérgio Barreto Motta, Diário de Notícias, 6.5.2007). Não se está a ver o Casino Lisboa anunciar, na sua página na Internet, máquinas caça-níqueis em vez de: «No Casino Lisboa pode testar a sua sorte em cerca de 1000 das mais modernas slot machines disponíveis no mercado.» «Caça-níqueis» também é substantivo, como em espanhol «máquinas tragaperras» se pode também dizer apenas «tragaperras».

Léxico contrastivo: «estoque»

Reservas

      «Especialistas estimam que a indústria e os revendedores autorizados fecharam outubro com estoque de 165 mil veículos» («Estoque só cobre 20 dias», Sonia Moraes, Jornal do Brasil, 5.11.2007, p. A17). É o stock dos Ingleses… e o nosso, pois alguns portugueses julgam que a palavra é insubstituível. Os Brasileiros têm o «estoque» (e nós também, mas diferente), mas também têm «escore» (score), «escrete» (scratch), «eslaque» (slack), «eslógão» (slogan), «esquete» (sketch), «esqui» (ski), «esnobe» (snob), «esnúquer» (snooker), «esplim» (spleen), «esporte» (sport), «estafe» (staff), «estande» (stand), «estêncil» (stencil), «esterline» (sterling), «estresse» (stress)… Destes, só adoptámos «esqui» e, quando estamos para aí virados, «estêncil». O «estafe», pomo-lo nos tectos.

Verbo «haver»

Continuemos

      Daqui a vinte e cinco dias fará dois anos que comecei este blogue. Por vezes, quando me sinto mais pessimista, pergunto-me para que continuo aqui a escrever. Há textos que certos pretensiosos acharão comezinhos, porventura inúteis. Um antologiador, sobretudo um antologiador pretensioso, recusaria incluí-los numa colectânea. Sobre o verbo «haver», por exemplo, e a sua regência, sentenciaria que já todos sabem o que há para saber. Todavia, textos como o que acompanha a imagem (publicado na página 4 da edição de ontem do Meia Hora) despersuadem-me da inutilidade do que escrevo. Talvez, penso, um dia o inepto escrevente por aqui passe.

Léxico contrastivo: «enfermaria-xadrez»

Aos quadradinhos

      «O assaltante e estelionatário Eduardo Genner Vieira da Silva, 24 anos, fugiu da enfermaria-xadrez do Instituto Dr. José Frota (IJF), na madrugada de ontem, após serrar uma grade da janela e saltar do 2.º andar. Ele estava no hospital há cerca de uma semana, procedente do Instituto Penal Paulo Sarasate (IPPS), quando se queixava de fortes dores nas costas. Um outro detento do presídio, Vanderli Pereira de Paiva, o Fofão, ficou entalado no espaço da grade serrada e foi flagrado pelo policial militar que fazia a guarda do setor» («Preso serra grade e foge de enfermaria-xadrez do IJF», Nicolau Araújo, O Povo, 3.12.2007, p. 3). Em Portugal dizemos «enfermaria-prisão» ou, tratando-se de um local destacado e específico, «hospital-prisão». O Hospital-Prisão de São João de Deus, em Caxias, por exemplo.

A praga do «confortável»

Inventem outra, por favor

      O adjectivo «comfortable», perdão, «confortável», é uma praga nas traduções e na escrita do dia-a-dia, mesmo nos textos mais banais. Agora, todos querem é conforto. «As interacções nos ambientes virtuais assentam, em grande parte, na comunicação escrita, sendo fundamental que os formandos se sintam confortáveis a expressar as suas ideias através desta forma de comunicação» (Oje, «O perfil ideal do e-formando», Filipa Viegas Abreu, 3.12.2007, p. VII). Alternativas? Recorrendo ao Compara, apresento seis exemplos literários.

«Bernard said he was too comfortable to move.»
«Bernard disse que que se sentia demasiado bem para se mexer.»

Excerto da obra Cães Pretos, de Ian McEwan, tradução de Fernanda Pinto Rodrigues. Lisboa: Gradiva, 1993.

«Luis had waited until she was comfortable and then he had said he would go down to the hotel’s dining room and bar, just for an hour, and give José a bit of a fright.»
«Luis esperara até ela estar bem instalada e depois dissera que ia até à sala de jantar e ao bar do hotel, só durante uma hora, meter um susto a José.»

Excerto da obra Um Amante Espanhol, de Joanna Trollope, tradução de Ana Falcão Bastos. Lisboa: Gradiva, 1999.

«The photograph had been taken on a sunny day from the opposite side of the valley, providing the kind of comfortable composition suitable for a postcard or calendar.»
«A fotografia fora tirada num dia cheio de sol, do lado oposto do vale, e constituía uma composição agradável e apropriada para um postal ilustrado ou um calendário.»

Excerto da obra Os Inconsolados, de Kazuo Ishiguro, tradução de Fernanda Pinto Rodrigues. Lisboa: Gradiva, 1995.

«I was only too aware of the possibility that if any guest were to find his stay at Darlington Hall less than comfortable, this might have repercussions of unimaginable largeness.»
«Tinha a consciência absoluta de que a possibilidade de algum convidado considerar a estada em Darlington Hall menos do que satisfatória poderia ter repercussões de inimaginável amplidão.»

Excerto da obra Os Despojos do Dia, de Kazuo Ishiguro, tradução de Fernanda Pinto Rodrigues. Lisboa: Gradiva, 1991.

«To make him comfortable, she gave an aside half-smile, half-grimace.»
«Para o pôr à vontade, ela dirigiu-lhe de viés qualquer coisa que era metade sorriso, metade careta.»

Excerto da obra A filha de Burger, de Nadine Gordimer, tradução de J. Teixeira de Aguilar. Porto: Asa, 1992.

«Nothing,´ I replied; `I am as comfortable as can be; when will the brig sail?´»
«— Não preciso de nada — respondi — e estou tão bem quanto é possível. Quando é que o barco larga?»

Excerto da obra Aventuras de Arthur Gordon Pym, de Edgar Allan Poe, tradução de Eduardo Guerra Carneiro. Lisboa: Estampa, 1988.


Léxico: escrachado

Imagem: http://cache.viewimages.com/xc/
Casos de polícia

      E se os porta-vozes da polícia começassem a dizer que fulano tal, agora detido em flagrante delito, já estava «escrachado»* em vez de «referenciado»? E se os jornalistas, em vez de companhias de «low cost», dissessem companhias de «baixo custo»? Seria perigoso, pois ia pensar, por mim falo, que tinha acordado noutro país, e sentir-me-ia mal.

* Atenção, irmãos Brasileiros: o nosso «escrachado», também da gíria, não é o vosso, que significa «depravado, pervertido». O nosso refere-se ao indivíduo identificado criminalmente; fichado na polícia.

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