Ano litúrgico


      O ano litúrgico de 2007-2008 começa hoje, dia 2 de Dezembro, que é o primeiro domingo do Advento. Ocasião, pois, para divulgar um texto, a vários títulos interessante, do padre Fernando Félix, missionário comboniano, publicado na revista Audácia, a melhor revista infanto-juvenil portuguesa, fundada em 1966.

O ano da fé


      O ano civil começa a 1 de Janeiro e termina a 31 de Dezembro. Para os estudantes, a abertura das escolas em Setembro e a publicação das notas finais em Junho determina o ano escolar. Há o ano agrícola, o ano judicial... Também a Igreja tem o ano litúrgico: é o tempo em que os cristãos celebram a vida e mensagem de Jesus Cristo.

      No ano 33 da nossa era, um grupo de homens e mulheres viveu uma experiência superdolorosa. Nos três anos anteriores tinham seguido um homem, chamado Jesus, que se apresentou como Filho de Deus. Ele seduziu multidões, fez discursos, contou histórias, curou doentes, ressuscitou mortos, defendeu os pobres e os marginalizados, condenou a injustiça e a hipocrisia. Quem o seguia acreditava n’Ele: era o Messias que Deus prometeu. Mas mataram Jesus numa cruz! Os discípulos, os 12 apóstolos e as mulheres que acompanhavam Cristo, fugiram ou esconderam-se.
     Porém, Deus, que se revelou na criação do mundo, e Jesus Cristo, que venceu a morte, ressuscitando, enviaram a terceira pessoa da Santíssima Trindade, o Espírito Santo, para esclarecer a fé dos discípulos.
O Espírito Santo fez-lhes ver que Jesus era Deus e que Ele estava vivo. Mostrou-lhes que a Sua vida e mensagem tinham como missão salvar o mundo da maldade, conforme o Seu mandamento: «Como o Pai me amou, e Eu vos amei, amai-vos uns aos outros. Se vos amardes, todos compreenderão que sois meus discípulos. Ide pelo mundo, anunciai o Evangelho, fazei discípulos.»
      E aqueles homens e aquelas mulheres foram testemunhas audazes. Reuniam-se cada semana para ler e rezar as Escrituras; anunciavam o Evangelho, celebravam a Eucaristia; eram solidários com os mais pobres; e baptizavam os que aderiam à Boa-Nova de Jesus. E a Igreja crescia.

O COMEÇO DAS FESTAS CRISTÃS

      Naqueles primeiros tempos da Igreja havia uma única festa cristã: a Páscoa, que celebrava a ressurreição de Jesus, a Sua ascensão ao Céu e o envio do Espírito Santo. Celebrava-se uma vez por semana, no primeiro dia, a que os cristãos chamaram domingo, isto é, «Dia do Senhor», e, de modo mais solene, uma vez por ano, no domingo a seguir à primeira lua cheia da Primavera.
      Mas a Igreja sentiu necessidade de ter mais tempo para saborear o significado da Páscoa. Criou, então, uma vigília, a que chamamos Tríduo Pascal, que vai de Quinta-Feira Santa ao Domingo de Páscoa. E acrescentou 50 dias festivos: o Tempo Pascal, que decorrem até à festa do envio do Espírito Santo, no Pentecostes.
      Só na primeira metade do século IV a Igreja estabeleceu um período de preparação para a Páscoa: a Quaresma. E na segunda metade deste mesmo século surgiu o ciclo do Natal. Tinha um certo paralelismo com o ciclo pascal. O Natal tinha um tempo de preparação de quatro semanas, a que chamaram Advento (deriva o latim adventus, e significa «vinda, chegada»), e um tempo posterior, a Epifania (do grego epiphneía, cujo significado é manifestação), de duas semanas.
      No século V, a Igreja já tinha um calendário para o ano litúrgico como o conhecemos hoje: além do Advento e Natal, da Quaresma e Páscoa, surgiu o Tempo Comum, que ocupa as restantes 33 ou 34 semanas do ano. Neste tempo a Igreja celebra a vida quotidiana de Jesus e faz memória dos santos.

O COMEÇO

      O ano litúrgico 2007-2008 começa no próximo dia 2 de Dezembro, o primeiro domingo do Advento. Este calendário religioso não inicia no mesmo dia todos os anos. Porque é o Natal que determina o começo do ano da Igreja. O Natal tem data fixa — 25 de Dezembro —, mas percorre ciclicamente os dias da semana (em 2006 calhou a uma segunda-feira; este ano será numa terça). Como o Advento principia sempre no quarto domingo anterior, aquele factor faz que o ano litúrgico comece entre 27 de Novembro e 3 de Dezembro.
      Até dia 24 de Dezembro, as vestes litúrgicas (paramentos) dos sacerdotes são roxos, com excepção do terceiro domingo de Advento, em que são rosa. O roxo é símbolo da penitência e do arrependimento — porque é necessário preparar o caminho do Senhor —, mas também da espera serena, através da oração, da leitura da Palavra de Deus, do jejum e da partilha dos bens. O rosa simboliza o entusiasmo de quem já está a cruzar a metade do percurso para a meta.
      No Natal e nas duas semanas seguintes a cor das vestes é o branco. É sinal da perfeição (no branco estão presentes todas as cores), da pureza e da alegria plena. No primeiro domingo após o Natal comemora-se a família de Jesus (a Sagrada Família). No seguinte (dia 6 de Janeiro de 2008), lembra-se a visita dos magos a Jesus e a apresentação d’Este no Templo de Jerusalém.
      O ciclo do Natal encerra com a celebração do Baptismo do Senhor (a 13 de Janeiro de 2008). Começa, então, o primeiro período do Tempo Comum, que decorre até à Quaresma.

O CENTRO

      A comemoração da Páscoa é móvel e pode ocorrer entre 23 de Março e 24 de Abril. No novo ano litúrgico teremos o que se chama Páscoa baixa, pois vai ocorrer precisamente no dia 23 de Março. A Quarta-Feira de Cinzas, que marca o começo da Quaresma, retrocede na mesma proporção, e será a 6 de Fevereiro de 2008. E é igual a condição da festa de Pentecostes, com que culmina o tempo pascal a 11 de Maio.
      As cores da Quaresma e da Páscoa voltam a ser o roxo e o branco. A excepção é a Sexta-Feira Santa e o Pentecostes, em que as vestes são vermelhas, símbolo do sangue mártir e do fogo.

O DESENVOLVIMENTO

      Depois do Pentecostes retoma-se o Tempo Comum. Seguem-se 28 semanas. A solenidade de Cristo-Rei, a 23 de Novembro de 2008, encerra o calendário da Igreja. Neste tempo os paramentos são verdes, como sinal de esperança e da vida a crescer.

ESTRUTURA

      Dia a dia, a Igreja medita textos retirados da Bíblia. Nos dias da semana há dois ciclos: um para anos pares e outro para os ímpares. Para os domingos existem três ciclos. No A proclama-se o Evangelho de S. Mateus; o B é dedicado a S. Marcos, e no C lê-se sobretudo S. Lucas, mas também há textos de S. João.
      O ano litúrgico de 2007/2008 é o ciclo A.

Léxico contrastivo: «bacana»

Charadas

      Comecemos, por uma vez, ao contrário. Primeiro o título da notícia: «Comida vencida em endereço de bacana». Poucos serão os leitores portugueses que a compreenderão. Agora as primeiras linhas: «O restaurante Garcia & Rodrigues, localizado em um dos metros quadrados mais caros do Rio, o Leblon, e freqüentado por figuras como Chico Buarque e o governador do Rio, Sérgio Cabral, teve que arcar com uma multa de R$ 25 mil por colocar à venda produtos impróprios para o consumo. A vigilância sanitária esteve no local ontem, depois de uma denúncia de que havia alimentos estragados no estabelecimento» (Anna Luiza Guimarães, Jornal do Brasil, 29.11.2007, p. A12). Ou seja, comida fora de prazo encontrada em ponto de encontro de gente rica.
      Como adjectivo, «bacana» é o que os Brasileiros designam «palavra-ônibus» (de omnibus, para todos), a palavra, quase sempre de uso coloquial, cujas acepções são tão diversas que não comportam uma clara delimitação semântica, como, por exemplo, «coisar», «legal», «troço», entre outras. Como substantivo, como é usada na notícia, significa pessoa rica, que é a acepção que tem no lunfardo, de onde terá — o que é controverso — vindo.

Léxico contrastivo: «hidrômetro»

Medidor, contador…

      «A Agência Reguladora de Água e Saneamento (Adasa) realizou ontem audiência pública para discutir a implantação de hidrômetros individuais no DF. […] A polêmica sobre os hidrômetros começou em 2005, quando uma lei determinou que os prédios antigos teriam cinco anos para se adaptar à individualização» («Hidrômetro individual ainda causa divergências», Carolina Vicentin, Jornal do Brasil/Brasília, 29.11.2007, p. D6). É isso mesmo: o hidrômetro dos Brasileiros é o nosso contador da água.

Glossário de artes gráficas

Boas artes

      Será certamente útil este pequeno glossário, com 563 entradas, de artes gráficas e matérias afins (óptica, jornalismo, tipografia, etc.). Além de uma lista alfabética, inclui igualmente um directório de empresas relacionadas com as artes gráficas e um índice temático que permite consultar termos por grupos de interesse (PDF, óptica, tipografia, pré-impressão, etc.). Em espanhol, sim, mas, para algumas entradas, com os equivalentes em alemão, francês, inglês, italiano e português.

Tuscany = Toscana

Mas não

      «[Helene] Schjerfbeck estudou em Paris, depois seguiu para Pont-Aven, na Bretanha, onde pintou durante um ano, depois para a Toscânia, Cornualha e S. Petersburgo» («Glória póstuma para uma estrela finlandesa», OJE, 30.11.2007, p. 17). Mal traduzido da revista The Economist: «Schjerfbeck studied in Paris, went on to Pont-Aven, Brittany, where she painted for a year, then to Tuscany, Cornwall and St Petersburg.»

Erros e erratas

O corrector incorrecto (PE)

      Explicação na página 2 do semanário OJE, edição de hoje: «Um arreliador problema com o corretor automático dos textos, levou a que, na nota de ontem, o nome de Paulo Morgado fosse trocado com o de Paulo Macedo. Razão mais do que suficiente para a repetição da nota, na edição de hoje.» Dois erros numa explicação? Na próxima edição os leitores merecem uma explicação da explicação. Ah, claro: os jornais não têm a secção «erros da edição anterior», errata. Gramaticais, não.

O corretor incorreto (PB)

Léxico contrastivo: «propinoduto»

Mãos untadas

      «Uma quadrilha de empresários, contadores e fiscais de renda foi presa ontem na Operação Propina S. A., desencadeada pelo governo estadual e pelo Ministério Público (MP) do Estado. Estima-se que a lavagem de dinheiro patrocinada pelo grupo tenha provocado um rombo de R$ 1 bilhão na arrecadação tributária. A verba é três vezes maior do que a movimentada até 2003 pelo fiscal Rodrigo Silveirinha no escândalo do propinoduto. Os investigadores, que ainda ignoram quando o novo bando começou a atuar, suspeitam da ligação entre os dois episódios» («De Rodrigo Silveirinha ao Propinoduto II», Renato Grandelle, Jornal do Brasil, 29.11.2007, p. A8). 
      Na definição do dicionário Aulete Digital, é termo jocoso que se refere a um «possível canal de transferência de propinas de fontes corruptoras para destinatários, geralmente políticos. [Termo criado no decorrer de um escândalo político-administrativo surgido no Brasil no final de 2005, quando foi revelada a suposta compra dos votos de alguns deputados por meio de propinas oriundas de fontes não identificadas, como, p. ex., contas bancárias de certas empresas].» No contexto, «propina» designa, como está bem de ver, as nossas «luvas», «suborno».

Léxico contrastivo: «decolar»

Cola da gravidade

      «Um avião bimotor com quatro pessoas a bordo caiu ontem, cinco minutos depois de decolar, sobre uma área residencial de Manaus, destruindo seis casas» («Bimotor cai sobre seis casas depois de decolar», Jornal do Brasil, 23.11.2007, p. A6). Do francês décoller*. Os nossos aviões descolam.

* Língua em que se registou pela primeira vez em 1931, na obra Vol de nuit, de Saint-Exupéry: «Les secrétaires, convoqués pour une heure du matin, avaient regagné leurs bureaux. Ils apprenaient là, mystérieusement, que, peut-être, on suspendrait les vols de nuit, et que le courrier d’Europe lui-même ne décollerait plus qu’au jour.»

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