Adesão e aderência

Sinónimos mas não tanto

      Lembram-se do major pára-quedista na reserva José Moutinho, que participou na 1.ª Companhia da TVI? Eu também não, mas isso agora não interessa. Este ano é relações públicas da volta a Portugal. Ouçamo-lo: «O ciclismo é um desporto muito popular com uma grande aderência por parte da população, especialmente no Norte do País» («José Moutinho, relações públicas da Volta», Diário de Notícias, 9.08.2006, p. 28). O itálico — e esta é, ao que julgo, uma nova prática deste jornal — é do Diário de Notícias. Ora aí está uma questão que merece reflexão: deve o jornalista corrigir erros como este, assinalá-los ou não fazer nada? Não fazer nada, atitude a que estamos habituados, não aproveita a ninguém. Assinalá-los, como fez neste caso o jornalista do DN, serve somente para dar a entender (a quem compreender esta metalinguagem) que o erro é do autor da citação e não do jornalista. Quanto a corrigi-los, parece ser mais polémico e arriscado. Quais os limites, enveredando por esta prática, para a correcção? E como proceder se, em vez de se tratar da transcrição de uma gravação, estivermos perante um texto, eventualmente já publicado, e texto com erros, que temos de citar?
      Útil e corajoso seria o jornalista ter escrito: «O ciclismo é um desporto muito popular com uma grande aderência [adesão, na verdade] por parte da população, especialmente no Norte do País.»
      Para o título não ser totalmente enganador: adesão e aderência são vocábulos sinónimos e ambos procedem do latim. Todavia, o primeiro, que vem de adhesione-, aplica-se em especial ao acto de alguém aderir a uma ideia, a um partido, a uma iniciativa. A adesão da ex-mulher de Paul McCartney, Heather Mills, ao vegetarianismo parece ter sido um truque para casar com o ex-Beatle. O segundo, por sua vez, provém de adhaesione- e usa-se em relação a coisas. A aderência do papel à parede só à custa de muita cola se fez.

Tradução. Quão e quanto

Eu já vi isto

      De vez em quando, gosto de trazer aqui casos reais de traduções do espanhol feitas por quem nem sequer conhece bem o português. Isto é tudo tão previsível: quando se deviam desviar do espanhol, não o fazem; quando, pelo contrário, as regras são iguais, querem afastar-se do espanhol. Vejamos este caso.
      «A pesar de esta simplicidad de estilo y de su técnica severa, sin ninguna concesión amable, ¡cuánta belleza, cuán noble dignidad!» O tradutor, pois claro, tentou dar uma voltinha à frase, para soar a lídimo português: «Apesar desta simplicidade de estilo e da sua severa técnica, sem nenhuma concessão amável, quanta beleza, quanta nobre dignidade!» Azar o dele — e o nosso, que o corrigimos ou lemos. Aqui, quem não sabe?, deveria ter seguido o espanhol, que o mesmo é dizer o português, que nisto são línguas irmãs, e escrito «quão nobre», pois que se trata de um advérbio de intensidade seguido de um adjectivo. Junto de um substantivo seria, nesse caso sim, «quanto», com função adjectival e, logo, variável.

Citação

As espécies de professores

«O professor medíocre, que diz, o bom professor, que explica, o professor superior, que demonstra, e o grande professor, que inspira.»

[The mediocre teacher tells. The good teacher explains. The superior teacher demonstrates. The great teacher inspires.]

William Arthur Ward (1921–1994)

(Apud «Medíocres, bons, superiores e grandes professores», Rui Baptista, Público, 5.08.2005, p. 8)

Livro de estilo da SIC

Pergunte com mais jeitinho…

      No Jornal da Noite da SIC, de ontem, dois repórteres, em duas reportagens diferentes, usaram de uma forma pouco delicada e clara — e pelos vistos em voga na estação — de fazer uma pergunta. Por três vezes, após o entrevistado fazer qualquer afirmação, o repórter inquiria: «Porque?...» O que pode revelar muito poder de síntese e acutilância entre amigos (e inimigos), mas pouco cuidado no âmbito profissional e da comunicação social.

Pronúncia de Gotemburgo

Irmãs desavindas

      Na Antena 1, já se ouve o topónimo Gotemburgo correctamente pronunciado: /Gutemburgo/. Na RTP1, pelo contrário, ainda se pronuncia com o aberto: /Gotemburgo/. A informação ainda não circula bem por aqueles corredores. Esperemos que as coisas melhorem.

Serra d’Ossa, outra vez

Gregos e alentejanos

      «O nome desta famosa serra — d’Ossa —, que segundo as crónicas provém dos Essénios ou Ósseos, remete para a Ursa cuja patronidade proto-histórica como eventual referência religiosa de contornos druídicos parece muito provável (e não só aqui). Do ponto de vista da geografia sagrada assinale-se, porém, a existência de duas montanhas com o mesmo nome (Ossa) na Grécia» (Lugares Mágicos de Portugal, volume VI, «Enigmas», Paulo Pereira, Círculo de Leitores, 2005, p. 177).

Artigo em nomes de localidades

Hum…

      José Rodrigues dos Santos, no Telejornal de ontem, a propósito do incêndio na serra d’Ossa, dizia «em Redondo». Ora, a verdade é que os naturais, os redondeiros, não dizem assim, usam o artigo: o Redondo, no Redondo, vou ao Redondo. As gramáticas, é verdade, não abordam esta questão, mas a língua não está apenas nos dicionários e nas gramáticas. Regra prática, há-a: se o nome da localidade é simultaneamente um substantivo comum, então o nome da localidade tem o género desse substantivo comum: a amadora/a Amadora; a amieira/a Amieira; a azenha/as Azenhas do Mar; a fajã/a Fajã (da Ovelha/de Baixo/de Cima); a figueira/a Figueira da Foz; a foz/a Foz do Arelho; a gafanha/a Gafanha; a glória/a Glória; a guarda/a Guarda; a igrejinha/a Igrejinha; a lixa/a Lixa; a marinha/a Marinha Grande; a meda/a Mêda; a moita/a Moita; a parede/a Parede; a pontinha/a Pontinha; a portela/a Portela; a régua/a Régua; a sertã/a Sertã; o alandroal/o Alandroal; o arco/os Arcos; o barreiro/o Barreiro; o cartaxo/o Cartaxo; o entroncamento/o Entroncamento; o fogueteiro/o Fogueteiro; o fundão/o Fundão; o pinhal/o Pinhal Novo; o pinhão/o Pinhão; o porto/o Porto; o pragal/o Pragal; o sabugal/o Sabugal; o tramagal/o Tramagal; etc. Se, pelo contrário, o nome da localidade não corresponder a um nome comum, então a tendência é para não atribuir género. Mas há excepções, ainda assim: a Amareleja, a Azaruja, a Benedita, a Covilhã (mas existe covilhão, uma espécie de urze), a Golegã, a Lourinhã, a Malcata, a Nazaré, a Trofa, o Crato, o Gerês, o Montijo (embora exista o substantivo comum montijo, ponho algumas reservas, pois é somente um regionalismo alentejano) e outros, que não correspondem a nomes comuns.
      E já que referi a serra d’Ossa, devo referir o lapso de Conceição Lino, no Jornal da Noite (SIC) de anteontem: depois de ter dito que esta serra se situava no Baixo Alentejo e de, minutos depois (e alguns telefonemas de protesto, aposto), ter corrigido a informação, disse «a serra da Ossa». Apesar de envolto em algumas brumas, «Ossa» não corresponde a nenhum nome comum, e toda a gente diz e escreve «serra d’Ossa». «Fogo na serra d’Ossa fez ontem cinco feridos», titulava o Diário de Notícias (11.08.2006, p. 19).

Crise humanitária?

Nem pensar

      Nem o Diário de Notícias escapa a este disparate: «Crise humanitária agrava-se no Líbano» (Susana Salvador, 11.08.2006, p. 15). Consultem num dicionário a entrada respectiva: «humanitário adj.s.m. (1858) 1 que ou aquele que se dedica a promover o bem-estar do homem e o avanço das reformas sociais; filantropo. ETIM fr. humanitaire (1835) ‘que diz respeito à humanidade, que vem em auxílio às necessidades dos homens’» (Dicionário Houaiss). É óbvio que o vocábulo apenas se pode utilizar em expressões que qualifiquem acções benéficas, positivas: ajuda humanitária, corredor humanitário, intervenção humanitária, missão humanitária das ONG, trabalhador humanitário, etc. De contrário, a semântica de cada um dos termos é de sinal oposto. Assim, pode soar mal (para ouvidos habituados ao erro), mas o correcto é «crise humana agrava-se no Líbano» ou tão-somente «crise agrava-se no Líbano».
 

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