Dicionário de chinês

Império do Meio

O leitor Rui C. Castro pergunta-me se conheço algum dicionário de chinês-português que recomende. Bem, eu não sei chinês, com muita pena minha — será uma das línguas do futuro —, mas na minha posse tenho, oferecido pelo meu amigo tenente-coronel José Manuel Pedroso, um amante da língua e cultura chinesas, o Dicionário Chinês-Português de Análise Semântica, da autoria de Joaquim A. de Jesus Guerra, S. J., publicado em 1981 pelos Jesuítas portugueses. Tem 1120 páginas e no prefácio o autor afirma: «A presente obra parece um Dicionário Chinês-Português; é, porém, com mais exactidão, uma Chave Universal de Análise Semântica. Universal, ou seja, para todas as línguas; sem excepção, cuido eu. E nisto representa — os leitores que ajuízem — uma útil descoberta.» Sim, os leitores que ajuízem.

Há e à

Coisas simples

Quanto a substituir o «há» por «existe» ou «existem», a tua professora tem razão, Andreia. « estudantes que procuram saber mais.» «Existem estudantes que procuram saber mais.» é a terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo haver. O à, por sua vez, é a contracção da preposição a com o artigo definido feminino (a + a), que se fundiram numa só palavra. Esta fusão é assinalada, como em todas as contracções semelhantes*, pelo acento grave (`). «A Andreia vai à piscina todos os fins-de-semana.»

* Na língua portuguesa, há somente sete palavras que têm acento grave, todas elas formas contraídas com a referida preposição: à, às, àquele, àquela, àqueles, àquelas, àquilo.

Sândi e cadeia fónica

Ora vejamos

Em resposta à dúvida do leitor J. Gomes, devo dizer que não conheço outra forma de transcrever uma cadeia fónica a não ser recorrendo ao Alfabeto Fonético Internacional (AFI), porque é biunívoco, isto é, a cada símbolo corresponde apenas um som. Veja o que se passa, por exemplo, com a representação das vogais, que todos aprendemos que são cinco: a, e, i, o, u. A realidade, porém, é que o português apresenta, isto está bem estudado pelos linguistas, catorze vogais, sendo que nove são vogais orais e cinco vogais nasais. Para transcrever, pois, uma cadeia fónica e perceber como os sons se influenciam mutuamente, a ortografia oficial portuguesa seria insuficiente. Somente com recurso ao AFI se poderia, graficamente, perceber que à marca do plural (v.g., os carros; os aviões) correspondem três sons diferentes. Este fenómeno designa-se sândi (palavra do sânscrito), cuja definição encontra nesta entrada do Dicionário Houaiss:

«sândi s. m. (1877 cf. MS) Fon modificação que afecta foneticamente o início e o final de uma palavra ou de um morfema, quando combinado com outro elemento na cadeia; p. ex: no port. a alteração fonológica (e gráfica) em que é de? > quede? e a alteração da pronúncia da forma absoluta livros no sintagma livros escolares/livrozescolares

Ortografia: caixa-forte e cofre-forte

O maldito tracinho…

O fenómeno tem poucos anos: especialmente nos jornais, a mania-de-usar-hífenes-a-torto-e-a-direito-é-simplesmente-confrangedora. Creio que foi o Dicionário da Academia, que nem sequer tem um papel normalizador na língua, que veio autorizar esta prática. Em contrapartida, cada vez se vê mais não usar o hífen nos vocábulos há muito registados nos dicionários com hífen. No Diário de Notícias, por exemplo, que é exemplar em relação a alguns, muitos, aspectos da língua, parece haver um conluio entre jornalistas e revisores para que a palavra «mais-valia» jamais apareça grafada com hífen. Ultimamente, são as palavras «caixa-forte» e «cofre-forte» que aparecem em toda a imprensa sem hífen. «Entre compras feitas nos hipers e outras grandes superfícies e os depósitos nas instituições financeiras, esses valores acabam por ir parar aos carros blindados das grandes empresas de transporte de valores e, posteriormente, para as suas caixas fortes» («Dentro da caixa forte», Paulo Santos, Visão, n.º 692, 8 a 14.06.2006, p. 136).

Utopia e ucronia

Ulogia

Tal como «utopia», «ucronia» é uma palavra que sabemos onde e como nasceu. Em 1876, o filósofo francês Charles Renouvier (1815-1903) cunhou, a partir do modelo do vocábulo «utopia», o termo «uchronie», que usou mesmo no título de uma obra: Uchronie, l’utopie dans l’histoire. Como define o Dicionário Houaiss, ucronia é uma «história apócrifa, recriada em pensamento como poderia ter ocorrido» e, por extensão de sentido, «período, época, tempo imaginário; recordação fictícia dentro de um tempo».
Muito interessante é a reflexão à volta do termo «utopia» que António Mega Ferreira reproduz na sua crónica na Visão: «E, como uma estudante [de arquitectura, num colóquio] não deixou de assinalar com argúcia, a história do termo utopia tem na origem um equívoco: é que Thomas More, que a inventou (ou-topos, um não-lugar), em 1516, via-a mais como uma forma de criticar a sociedade caótica do seu tempo do que como modelo para uma construção humana, In fine, aliás, rejeitava-a, por ela lhe parecer contraproducente na sua secante ortodoxia» (Visão, n.º 692, 8 a 14.06.2006, «Uma falsa modernidade», p. 21).

Erros dos jornalistas


Mundial do Desconchavo

Depois de ter dito qualquer coisa sobre o seu «homólogo Horacio Elizondo», árbitro do Portugal-Inglaterra, o repórter Horácio Antunes, da Antena 1, perguntou a uma criancinha que estava em Coimbra: «Gostastes de Coimbra?» Com jornalistas assim, para que precisamos de cataclismos naturais? Ganharmos foi, de alguma maneira, uma recompensa para todo este nosso infortúnio.

Dodo ou dodó

Imagem do dodo: http://www.davidreilly.com/

Doudo varrido

Embora sempre tenha preferido a forma «dodo», por a julgar mais próxima de uma suposta etimologia portuguesa, a verdade é que os dicionários também registam a forma «dodó», que foi precisamente a usada no seguinte artigo do Diário de Notícias:
«Quando os navegadores portugueses chegaram às ilhas Maurícias, por volta de 1505, encontraram uma ave até então desconhecida: isolada de toda a humanidade, a ave reagiu bem aos visitantes, nunca mostrou medo e não fugiu dos novos predadores. Esta inocência, que os portugueses interpretaram como loucura, valeu ao animal ser chamado “doudo” (variante de doido). Daí, dizem alguns, o nome de dodó.
Existe, porém, outra teoria: os holandeses, que entretanto começaram a chegar às ilhas, tornaram-se a partir de 1644 a principal potência colonizadora. Àquela ave demasiado grande e que passava os dias a arrastar-se pelo chão, sem conseguir voar, chamaram “dodoor”, que significa preguiçoso. E que terá dado origem ao nome “dodó”» («Ossos de dodó com dois mil anos encontrados nas ilhas Maurícias», Maria João Caetano, 26.06.2006, p. 19).

Achelense e chelense

Quaternário

Um leitor pergunta-me se se deve escrever «chelense» ou «achelense». Deve escrever-se das duas formas, porque remetem para coisas diferentes. Veja o que se afirma na seguinte citação:
«A era da quaternária tem sido dividida em época de Chelles (Seine-et-Marne) ou chelense; época de Saint-Acheul (Somme) ou acheulense; época do Moustier (comuna de Peyzac-en-Dordogne) ou musteriense; época de Aurignac (Haute-Garonne) ou aurinhacense; época de Solutré (Saône-et-Loire) ou solutrense; época de La Madeleine (comuna de Tursac, Dordogne) ou madelenense; época de La Tourasse (La Tourasse Haute-Garonne) ou turassense; época de Azil (Mas d’Azil, Ariège) ou azilense; época de Tardenois (Fère-en-Tardenois) ou tardenense; época de Campigny (Campigny) ou campinhiense» (Novos Elementos para o Estudo da Origem do Nome de Lisboa, Arlindo de Sousa, Publicações Culturais da Câmara Municipal de Lisboa, 1968, p. 229).

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