Léxico: chambaril

Imagem: http://alentejanando.weblog.com.pt/arquivo/chambaril.jpg

Porcos (com sua licença…)

      Um leitor pergunta-me se sei o nome do pau curvo que se enfia nos jarretes do porco morto, quando se pendura para o abrir. Talvez saiba que ao pernil também se dá o nome de chambão. Pois o pau chama-se chambaril.

Tradução

Eu, noctâmbulo da Dor e da Saudade*

      A língua portuguesa tem poucas palavras terminadas em -âmbulo. Tanto quanto sei, apenas «anteâmbulo», «funâmbulo», «noctâmbulo», «preâmbulo», «sonâmbulo» e «vigilâmbulo». «Anteâmbulo», que é um sinónimo de preâmbulo, ninguém a usa, nem eu; «funâmbulo» é usada com alguma frequência, no âmbito das artes circenses; «preâmbulo» é muito usada, sobretudo nas faculdades de Direito; «sonâmbulo» é a mais usada e conhecida; «vigilâmbulo» ninguém, a não ser poetas, a usam — com a ressalva de que há um grupo teatral com esse nome, Vigilâmbulo Caolho. Parecia que me tinha esquecido de «noctâmbulo», mas não. Na verdade é a que, de momento, mais me interessa. Constou-me que recentemente um leitor enviou uma carta (terá sido email, decerto) a um editor que tinha publicado um livro em que aparecia o vocábulo «noctâmbulo». E a mensagem era, ao contrário do que se poderia supor, de protesto por se ter usado tal vocábulo. A obra, em prosa poética, era, repare-se, uma tradução do francês, e o original dizia «noctambule». «Les trottoirs sont envahis de noctambules.» José Saramago tem razão: ler sempre será uma coisa de minoria. Pelo menos ler bem. Não há Plano Nacional de Leitura que nos valha.


* Verso do poema «Plenilúnio», da autoria do poeta brasileiro Augusto dos Anjos (1884-1914).


Léxico: poterna

Imagem: http://www.grodzisko.pl/
No castelo

      Uma leitora pergunta-me qual a designação que se dava às portas secretas dos castelos e fortalezas. Essa porta tinha o nome de poterna*, e a imagem mostra uma, de um castelo algures na Polónia. Era uma porta traseira, habitualmente elevada e de difícil acesso, muitas vezes bastante afastada, por uma galeria, da fortificação. Era através da poterna que, em caso de assédio, se entrava e saía da praça fortificada.

* Do latim posterala, «porta posterior».

Uso do itálico

Ah, isso…

      Decerto que há aspectos bem mais graves nos jornais — a começar na pontuação, desleixada ou ignorante. Hoje, porém, quero abordar o uso do itálico. Os casos que apresento são diferentes: no primeiro, o jornalista (ou o revisor) poderia ter usado a palavra portuguesa, evitando assim o itálico. Embora seja uma forma de destaque, perturba a leitura. No segundo caso, o jornalista (ou o revisor) não deveriam usar o itálico.

O caso. «A colecção, que abrange brinquedos das mais variadas origens, materiais e temas da última metade do século XIX e do século XX, tem como ex-libris um triciclo em ferro, madeira e couro», «Museu de (a)brincar de Arronches candidato a prémio europeu», Hugo Teixeira, Diário de Notícias, 13.05.2006, p. 44.

A solução. ex-líbris s.m.2n. vinheta desenhada ou gravada que os bibliófilos colam ger. na contracapa de um livro, da qual consta o nome deles ou a sua divisa, e que serve para indicar a posse. (Dicionário Houaiss)

O caso. «Apesar de ter conseguido o tempo mais rápido nos treinos disputados ontem, o piloto da Ferrari foi considerado culpado por ter atrasado deliberadamente os adversários», «Schumacher é o último no Mónaco», 28.05.2006, p. 48.

A solução. De facto, Schumacher conduz um Ferrari, mas a equipa é a Ferrari, isto é, só as marcas é que são destacadas a itálico. É uma boa prática, mas não é seguida por todos os jornais.

Tradução de «polipasto»

Imagem: http://www.proyectosfindecarrera.com/
Desunião ibérica

      Não duvido, caro Luís Ramos, que tenha lido num dicionário que a tradução do espanhol «polipasto» é… «polipasto». Não apenas não conhecia a palavra como portuguesa como confirmei em todos os dicionários que tenho *. Pelo que posso ver no Diccionario de la Real Academia Española, «polipasto» ou «polispasto» provém do latim polyspaston, e este do grego πολúσπαστον. Pela definição — «aparejo de dos grupos de poleas uno fijo y otro móvil», o que corresponderá à imagem —, creio que se pode traduzir por guincho ou cadernal.

* No Brasil sim, usam a palavra, mas só a vejo na Internet. Em inglês, existe o vocábulo polyspaston, que provém do mesmo étimo: «Weight-lifting machine typically composed of a pair of pulley-blocks (one fixed, one mobile) housing sheaves, with a rope running in their grooves. The polyspaston performs the same function as the tackle, but the sheaves are arranged end-to-end in two parallel rows instead of rotating on a common axle as in a standard block.»

Expressão: «cutelo da mão»

Se não sabe, invente

      Recentemente, um consulente do Ciberdúvidas perguntava como se designa a parte carnuda da mão, acrescentando que em inglês é heel *, pelo que em português poderia ser «calcanhar da mão». Isto fez-me lembrar outra coisa relativa à mão. Embora a primeira vez que vi a expressão tenha sido numa tradução, não consigo localizá-la, mas em meu auxílio vem uma anotação que fiz a Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto, de Mário de Carvalho, em que se pode ler: «com o cutelo da mão». É com o cutelo da mão, por exemplo, que se mata um coelho. Trata-se de uma muito engenhosa e perspicaz catacrese, como asa do nariz, perna da mesa, nariz do avião e de outras. Catacrese que já devia estar dicionarizada. Na língua, a analogia é um filão inexaurível.

* Por exemplo, na frase «Place heel of hand nearer victim’s head on breastbone next to index finger of hand used to find notch».

Locução «a sério»

À parva

      Ultimamente, entrou em voga a locução «à séria», usada e difundida por gente snobe (e snobe, etimologicamente, significa «sine nobilitate» [sem nobreza], não esqueçamos). Entre as pessoas simples — excepto as mais permeáveis à mediocridade exibida nos reality shows —, o despautério não criou raízes, felizmente.
      Felizmente também, alguma imprensa vai denunciando a snobeira, ainda que de forma demasiado subtil: «Passemos, então, a M.R.P. [Margarida Rebelo Pinto]. Não vejo como possamos acusá-la de fraude. Fraude, metaforicamente falando, significa vender gato por lebre. É verdade que tem mostrado desejo de ser reconhecida como escritora “séria” (ou será à séria?). […] Mas o que interessa é saber se, apesar das pretensões da autora, a devemos levar a sério (ou será à séria?)» («A falta que faz o “je ne sais quoi”», Ana Cristina Leonardo, Expresso/Actual, 20.05.2006, p. 58).

Léxico: xauter

Como as palmas das mãos

      Se numa cidade precisamos de guias, com maior e diversa razão precisamos deles num deserto. O vocabulário da língua portuguesa inclui uma palavra que designa o muçulmano que guia os viandantes nos desertos da Arábia — xauter (do árabe xater, homem perfeito).
      Curiosamente, o profeta nomeado por Deus para guiar aqueles que viviam a leste do monte Sinai, o povo de Mudyan e Aykah, chamava-se Xuaib, que significa «aquele que mostra o caminho certo».

Arquivo do blogue