Crase, de novo

Poucos, mas alguns


      A respeito da crase, escrevi que há algumas subtilezas no seu uso, mas que me parecia que, de uma maneira geral, não escapavam ao comum falante português. Ora cá está mais um caso que não é sempre resolvido da mesma maneira: «Estava a representar o filho da mulher-a-dias que vai à casa dos patrões fazer um recado» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 39). Estou convencido de que muito mais de metade dos falantes, e especialmente tradutores, optariam por não fazer crase.

[Post 3341]

Crase

À pedrada


      Não me esqueci da sua pergunta, caro Paulo Araujo. A propósito de um título, «Atacam polícia à pedrada antes de bater em agente», em que se usa a crase (e crase é vocábulo que poucos falantes portugueses conhecem), este leitor pergunta: «Supondo-se substituir pedrada por pontapé ou chute, não seria necessário imaginar ao pontapé ou ao chute; por isso, não vejo motivo para a crase. Desculpe a insistência.» Os Portugueses não somente quase desconhecem o vocábulo — raramente se debatem com a dificuldade que aos Brasileiros parece inerente ao conceito. Mas voltando atrás: crase é o nome que se dá à contracção da preposição a com o artigo a (ou no plural, as), grafada à, às, e, por extensão de sentido, ao acento grave que marca na escrita essa contracção.
      Ontem, na redacção, um jornalista pensou em voz alta: «Volta a Turquia ou Volta à Turquia?» Lembrou-se, decerto, de Volta a França e Volta a Espanha, e hesitou. Tirando este caso, só me estou a lembrar da hesitação, mais do mundo académico, em torno de ensino a distância/ensino à distância. Há, não nego, algumas subtilezas no uso da crase, mas parece-me que, de uma maneira geral, não escapam ao comum falante português. Não é que o diagnóstico seja útil, mas creio que é algo idiossincrático, muito próprio dos falantes brasileiros. Razão insuficiente para dizermos que estamos perante outra língua, pois claro.

[Post 3332]

Arquivo do blogue