Blá-blá-blá, blá, blá, blá

Porque não é o mesmo


      Vejo muitas vezes, sobretudo em traduções, «blá, blá, blá», quando os dicionários só acolhem o nome «blá-blá-blá». Mas estarão os lexicógrafos a ver bem? Considere-se esta frase: «Tendo em conta a posição preeminente do camarada do partido ***, blá, blá, blá, o caso foi reclassificado como um assunto de segurança interna.» Pretende ser o resumo de uma conversa que alguém teve. Ali, não significa «conversa inútil, sem grande conteúdo» (na definição da Porto Editora), «palavreado», nem desempenha nenhuma função sintáctica nominal. O narrador está simplesmente a omitir uma parte do discurso burocrático, substituindo-a por uma imitação depreciativa do que foi dito. É claramente uma zona cinzenta da língua que ninguém quis tratar até hoje. Uma área crítica. Se fosse fácil, já estava feito. Ou não, dado o incalculável número de omissões que aqui temos comprovado e procurado sanar. Não é, contudo, por ser difícil que vamos ficar de braços cruzados. Assim, proponho blá-blá-blá nome masculino conversa ou discurso considerado vazio, enfadonho, repetitivo ou desprovido de conteúdo relevante; palavreado; 2. interjeição (geralmente grafada «blá, blá, blá») usada para representar, resumir ou omitir ironicamente um discurso, uma explicação ou uma sequência verbal considerados irrelevantes, enfadonhos ou previsíveis.

[Texto 23 126]

Léxico: «calmex»

Até é mais usado


      «O meu pai resmungou qualquer coisa que eu não percebi, perguntou se o jantar estava pronto, ao que a minha mãe respondeu “calmex, que ainda agora aqui cheguei” e ele acabou por se sentar no sofá, murmurando que odeia que a minha mãe diga “calmex”, porque lhe faz lembrar o “simplex”, que eu acho que é uma coisa que o governo fez para simplificar a vida mas que parece complicá-la ainda mais» (A Vida nas Palavras de Inês Tavares, Alice Vieira. Alfragide: Editorial Caminho, 2010, p. 62).
      Custa a crer que não esteja no dicionário da Porto Editora, quando lá encontramos, por exemplo, o malcriado «fónix», que eu jamais usei. «Calmex», ainda hoje.
[Texto 23 125]

Definição: «enfermeiro-mor»

Que não era enfermeiro


      Pergunta-me o leitor R. A. se não acho a definição de «enfermeiro-mor» do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora demasiado pobre. Respondo que sim, pois diz assim: «antiquado responsável pela administração e gestão de certos hospitais». É fácil pensar que o enfermeiro-mor foi uma figura desaparecida há séculos, sobretudo quando a Porto Editora classifica o termo como antiquado. Na realidade, trata-se de um cargo de evolução histórica complexa, documentado desde o século XVI no Hospital Real de Todos-os-Santos, em Lisboa, e que subsistiu, com diferentes atribuições e enquadramentos institucionais, até à década de 1970. Embora a designação possa sugerir uma função ligada à prestação de cuidados de enfermagem, o enfermeiro-mor era, em regra, a principal autoridade administrativa e dirigente do hospital. O último titular do cargo foi Carlos George (1893-1978), médico e administrador hospitalar, pai de Francisco George, antigo director-geral da Saúde. 
      Tudo visto, proponho ➠ enfermeiro-mor HISTÓRIA dirigente máximo de certos hospitais de Lisboa, responsável pelo seu governo, administração e fiscalização; principal autoridade hospitalar.

[Texto 23 124]

Léxico: «paladiano | palladiano»

Grande lacuna


      «El testamento era extraordinario. Dejó dinero a St. Bartholomew’s Hospital de Londres, a la University College, a familiares y conocidos. Y cuarenta mil libras para que se construyera en Oxford una biblioteca. Los fideicomisarios tardaron más de veinte años en ponerse de acuerdo sobre el diseño y la ubicación. El encargo recayó en James Gibbs, que levantó la primera biblioteca circular de Inglaterra, una obra de arquitectura paladiana que hoy es el símbolo visual de Oxford por encima de cualquier otro edificio. Desde 1861 funciona como sala de lectura de la Bodleian Library» («John Radcliffe y la biblioteca del hombre que no leía», Sonsoles Costero-Quiroga, La Razón, 9.06.2026, p. 68). 
      Aparece em bilingues da Porto Editora, mas não onde deve estar, por isso, proponho ➠ paladiano ou palladiano ARQUITECTURA relativo ou pertencente a Andrea Palladio (1508-1580), arquitecto renascentista italiano, à sua obra ou às teorias arquitectónicas por ele formuladas; relativo ou pertencente à corrente arquitectónica inspirada nos seus princípios.

[Texto 23 123]

Léxico: «santarrão»

No cerne, a hipocrisia


      «Os protagonistas da obra [A Scandal in Königsberg] são Johann Wilhelm Ebel e Georg Heinrich Diestel. Ambos eram pregadores luteranos que atuavam em Königsberg. Eram figuras carismáticas, mas que flertavam com uma religiosidade mais popular, na linha do pietismo. A “intelligentsia” prussiana via esse tipo de movimento com desconfiança. Seus seguidores ganharam o apelido de Muckers, palavra alemă que pode ser traduzida como santarrões» («Um escândalo em Königsberg», Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo, 7.06.2026, p. A3).
      É mais ou menos assim: Mucker não implica necessariamente hipocrisia, ideia que está no cerne do nosso «santarrão». Mas esse não é problema nosso. O objectivo deste texto, Porto Editora, é chamar-te a atenção para o facto de «santarrão» ser adjectivo e substantivo.

[Texto 23 122]

Definição: «subproletariado»

Já se autonomizou


      Aqui em certo texto, Simone Weil fala no subproletariado, que a Porto Editora define assim: «POLÍTICA, SOCIOLOGIA segundo a doutrina marxista, camada social do proletariado que vive na miséria e que se caracteriza pela ausência da consciência de classe». 
      Não concordo nada, nadinha mesmo, pois que o termo já circula em textos sociológicos, jornalísticos e até políticos sem dependência explícita dessa moldura. Assim, proponho ➠ subproletariado POLÍTICA, SOCIOLOGIA camada social situada abaixo ou à margem do proletariado, caracterizada por condições de vida precárias, inserção instável ou inexistente no mercado de trabalho e fraca integração económica e social; por extensão, conjunto de indivíduos em situação de marginalidade ou exclusão estrutural. 
      Em certos contextos teóricos, em especial de tradição marxista, aproxima-se do conceito de «lumpenproletariado», podendo incluir a ideia de ausência de consciência de classe.

[Texto 23 121]

Definição: «tigre-da-tasmânia»

Pois, mas porquê tigre?


      «El último tigre de Tasmania murió en el zoológico de Hobart, Australia, en 1936. Fue hace 90 años. [...] Fue el carnívoro marsupial más grande del mundo. Lo llamaron tigre por las rayas en la parte posterior de su cuerpo, su linaje estaba emparentado con el de los canguros, aunque su cráneo era parecido al del lobo» («El tigre de Tasmania», Javier Cancho, La Voz de Galicia, 7.06.2026, p. 37). 

      Esta é uma das características relevantes que os nossos dicionários omitem. Uma, não a única. Assim, proponho ➠ tigre-da-tasmânia ZOOLOGIA (Thylacinus cynocephalus) espécie de marsupial carnívoro, a maior dos tempos modernos, outrora distribuída pela Austrália, Nova Guiné e Tasmânia, de aspecto semelhante ao de um cão ou lobo, com cauda longa e rígida e pelagem castanho-amarelada, apresentando na região posterior do dorso listas escuras semelhantes às de um tigre; o último exemplar conhecido morreu em 1936; lobo-da-tasmânia, tilacino.

[Texto 23 120]

Léxico: «peelista»

Se existe, temos de o acolher


      «Em geral, quando PL e PT se colocam do mesmo lado numa matéria legislativa, estamos diante de uma conspiração contra o interesse público. O que mais frequentemente motiva a união das duas legendas antagônicas são as pautas corporativistas. Testemunhamos isso alguns dias atrás, quando peelistas, petistas e deputados de siglas do centrão se juntaram para aprovar na Câmara um projeto que alivia punições a partidos políticos que cometeram irregularidades. Mas “em geral” não é sinônimo de “sempre”» («Uma aposta improvável», Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo, 27.05.2026, p. A5).

[Texto 23 119]


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