Léxico: «peelista»

Se existe, temos de o acolher


      «Em geral, quando PL e PT se colocam do mesmo lado numa matéria legislativa, estamos diante de uma conspiração contra o interesse público. O que mais frequentemente motiva a união das duas legendas antagônicas são as pautas corporativistas. Testemunhamos isso alguns dias atrás, quando peelistas, petistas e deputados de siglas do centrão se juntaram para aprovar na Câmara um projeto que alivia punições a partidos políticos que cometeram irregularidades. Mas “em geral” não é sinônimo de “sempre”» («Uma aposta improvável», Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo, 27.05.2026, p. A5).

[Texto 23 119]


Léxico: «ribamourês | sassarês»

Um já nós temos


      «A terceira edição do Festival Internacional de Teatro em Línguas Minoritárias (Língua) vai decorrer de 05 a 07 de julho, em Barcelos, com apresentações em mirandês, minderico, ribamourês, basco e asturiano, foi hoje anunciado. [...] Nas duas primeiras edições do Língua, passaram por Barcelos espetáculos em mirandês, galego, estremenho, sassarese, crioulo cabo-verdiano, darija e língua gestual portuguesa» («Em Barcelos vai falar-se mirandês, minderico, ribamourês, basco e asturiano», O Minho/Lusa, 27.05.2026, 11h52).

[Texto 23 118]

Definição: «astrologia»

A receita aplicada à homeopatia


      «A astrologia deveria estar em museus e livros de história, não no dia a dia das pessoas. A avaliação é de Carlos Orsi, 55, autor do livro “What Science Says About Astrology” (o que a ciência diz sobre astrologia), lançado neste mês em inglês nos EUA. [...] No livro, Orsi afirma que a astrologia está ligada a uma forma de pensar que minimiza o papel da lógica, da evidência e do pensamento crítico, deixando pessoas vulneráveis à manipulação e à exploração. Além de motivar decisões importantes com base em afirmações falsas, a astrologia tem propiciado o surgimento de formas de discriminação» («Astrologia é pseudociência e não deveria estar no dia a dia das pessoas, diz novo livro», Ramana Rech, Folha de S. Paulo, 31.05.2026, p. A35). 
      Ora, a Porto Editora, e não é a única, apresenta assim a astrologia: «estudo das posições e características dos astros no sentido de determinar a sua influência no destino e no comportamento das pessoas, bem como em fenómenos naturais». Uma coisa é um dicionário não emitir juízos de valor; outra é adoptar, sem distância crítica, a autodescrição de um movimento, doutrina ou prática. Não precisamos de lhes chamar aldrabões: hoje em dia, muitos dicionários de referência já incorporam essa informação. Por exemplo, vários dicionários ingleses usam expressões como «belief that...», evitando apresentar a astrologia como um conhecimento validado. 
      Podemos e devemos ser ainda mais claros, assim ➠ astrologia crença e conjunto de práticas baseadas na alegada influência dos astros sobre a personalidade, o destino e os acontecimentos humanos, recorrendo à interpretação das suas posições e movimentos para formular previsões ou caracterizações; considerada uma pseudociência pela comunidade científica.

[Texto 23 117]

Léxico: «princípio de Peter»

Todos conhecemos exemplos


      «El libro confirma que la animadversión entre los políticos tories nunca llegó a superarse. Johnson, que presenta a May como el mejor ejemplo del principio de Peter —según el cual las personas tienden a ser ascendidas hasta alcanzar su nivel de incompetencia—, critica su decisión de convocar elecciones generales en el 2017, apenas unos meses después de la consulta del brexit» («Boris Johnson reaparece tras 10 años del «brexit»,  Juan Francisco Alonso, La Voz de Galicia, 7.06.2026, p. 27).
      É talvez a formulação mais elegante e memorável do princípio de Peter: a ideia de que «as pessoas tendem a ser promovidas até atingirem o seu nível de incompetência». Encontra-se há décadas em obras de gestão, sociologia, economia, administração pública e até no discurso jornalístico. Merece claramente estar nos dicionários, o  princípio de Peter SOCIOLOGIA DAS ORGANIZAÇÕES teoria segundo a qual, numa hierarquia, cada indivíduo tende a ascender até atingir o seu nível de incompetência.
[Texto 23 116]

P. S.: O conceito foi formulado pelo pedagogo e especialista em administração canadiano Laurence J. Peter (1919-1990), em colaboração com Raymond Hull (1919-1985), e divulgado na obra The Peter Principle (1969).


Léxico: «transportador»

Todos transportam


      «Um foguetão da Blue Origin explodiu esta quinta-feira à noite, no Centro Espacial Kennedy, na Florida. A empresa de Jeff Bezos faz parte dos planos da NASA para a exploração da Lua, e foi escolhida para a primeira fase da construção de uma base lunar. A empresa afirmou ter sofrido “uma anomalia” durante o teste aos motores realizado na plataforma de lançamento. Ninguém ficou ferido, mas o local terá sofrido danos graves — indica o Financial Times —, incluindo em equipamentos cruciais como o transportador dos foguetões para a plataforma e a torre da plataforma» («Foguetão da Blue Origin sofre “anomalia” explosiva. Planos da NASA para a Lua em risco», João Pedro Quesado, Rádio Renascença, 29.05.2026, 11h28). 
      Pois, não está é nos dicionários. Então não é o famoso crawler-transporter, de que eu, quando era pequeno, queria vir a ser condutor? Olha, Porto Editora, o transportador da tua 2.ª acepção é que ninguém lhe põe os olhos em cima há muito tempo. Não sei se chegou aos anos 2000. Pior: esse profissional era designado litógrafo-transportador, não meramente transportador. Bem, para os amigos, lá em casa, talvez. Na folha de vencimento, lá vinha a categoria ➠ litógrafo-transportador ARTES GRÁFICAS profissional da litografia responsável pela preparação de chapas fotográficas e pela transferência de matrizes ou positivos fotográficos para chapas de impressão por processos químicos ou por exposição luminosa; executa ainda operações de revelação, fixação, retoque e correcção das chapas, podendo, nos processos tradicionais, trabalhar sobre pedra litográfica. 
      Quanto ao da notícia, é este ➠ transportador equipamento móvel destinado ao transporte de cargas de grandes dimensões no interior de instalações industriais, portuárias, mineiras ou aeroespaciais.

[Texto 23 115]

Definição: «bólide»

À luz da ciência

 

      «Experts often call these objects bolides. A bolide is an exceptionally bright meteor that breaks apart or explodes in the earth’s atmosphere. These objects are originally small pieces of rock or metal in space that, after a close encounter with the earth, enter the atmosphere as meteors. As such a meteor falls, the air in front becomes compressed and heated, causing it to glow and produce a bright streak of light across the sky. Most meteors are very small and burn up completely before reaching the ground. However, larger ones can survive for longer. If they become bright enough, they become fireballs. And if they fragment violently and release a large amount of energy, astronomers often call them bolides» («Bolides: fireballs going boom», Vasudevan Mukunth, The Hindu, 3.06.2026, p. II).
      Bólide, que a Porto Editora define assim: «1. ASTRONOMIA grande bloco de matéria cósmica que se fragmenta na atmosfera terrestre e origina aerólitos, meteoritos ou uranólitos, que caem para a Terra, na forma de globos brilhantes que por vezes deixam um rastro luminoso; 2. ASTRONOMIA estrela-cadente que chega muito próximo da superfície terrestre». Não me perguntem porque tem duas acepções. Não encontrei nenhum dicionário a distinguir duas acepções astronómicas separadas, como faz a Porto Editora. Pelo contrário, tratam «bólide» como um único fenómeno astronómico. Não acrescenta nada de útil e, pior, introduz uma ideia errada: um bólide não é um meteoro que «chega muito próximo da superfície terrestre». O critério definidor é o brilho excepcional. Tanto pode extinguir-se a 80 km de altitude como explodir a 30 km ou produzir meteoritos que atinjam o solo. Podíamos analisar um a um os problemas de que padece a definição, mas refiro apenas o primeiro e mais grave, que é confundir o bólide com o objecto material.
      Assim, proponho  bólide ASTRONOMIA meteoro excepcionalmente brilhante, produzido pela entrada na atmosfera terrestre de um meteoróide relativamente grande, podendo fragmentar-se ou explodir durante a sua passagem e, por vezes, originar meteoritos.
[Texto 23 114]

Léxico: «narratologista»

Lido e ouvido

 

      Então, assim que me esteja a lembrar, a última vez que ouvi a palavra «narratologista» foi na penúltima quinta-feira à noite, no programa O Que é um Clássico?, que contou com Álvaro Gonçalves, tradutor de Kafka, e Gonçalo M. Tavares. Falaram sobretudo de Kafka. Disse Álvaro Gonçalves: «Não sei se conhecem aquele famoso narratologista americano, Wayne C. Booth, que criou o conceito de reliable e unreliable. E esta germanista inglesa utiliza essa expressão, unreliable. Portanto, de repente, o narrador acaba por ser não confiável. Portanto, não se pode confiar. Aliás, Kafka é conhecido por ter produzido narradores em quem não se pode confiar.» 
      Foi, de facto, Booth (1921-2005) quem cunhou o termo unreliable narrator no seu livro de 1961 The Rhetoric of Fiction. A citação mais referida encontra-se nas páginas 158-59 da segunda edição: o narrador é considerado reliable (confiável) quando fala ou age de acordo com as normas da obra, e unreliable (não confiável) quando não o faz.
[Texto 23 113]
 

Léxico: «montenegrino»

Também nome da língua

 

      O nosso primeiro-ministro esteve na semana passada na estância balnear de Tivat, no Montenegro, onde decorreu mais uma cimeira entre a União Europeia e os Balcãs Ocidentais. Não sabemos é se Luís Montenegro sabe que o montenegrino também é o nome da língua. Os dicionários omitem-no. Independentemente da discussão linguística sobre ser uma língua autónoma ou uma norma nacional de uma língua policêntrica, montenegrino enquanto nome de língua existe, é oficial e é usado em legislação, ensino, censos e organismos internacionais. Assim, proponho  montenegrino LINGUÍSTICA língua eslava meridional, oficial do Montenegro desde 2007, escrita nos alfabetos latino e cirílico; constitui a norma-padrão usada naquele país e assenta no mesmo sistema dialectal que deu origem ao sérvio, ao croata e ao bósnio.
[Texto 23 112]

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