AO90 no dia-a-dia

Da teoria à prática


      «Desde logo, através do mais ou menos declarado financiamento, com dinheiros públicos, da confissão dominante – ainda há um quarto de século o então cardeal patriarca de Lisboa, José Policarpo, se queixava de haver pouca verba no Orçamento de Estado para a construção de igrejas, e só a partir de 2005, após a revisão da Concordata, os padres deixaram de beneficiar legalmente de isenção de IRS –, sendo fastidioso enumerar aqui todos os privilégios, económicos e outros, de que a Igreja Católica ainda goza face às outras confissões» («O Chega e a Bíblia de Tarantino», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 29.04.2026, p. 13). 

      Tem que ver com o Acordo Ortográfico, sim senhor: desde o início da sua aplicação, pessoas mal informadas — entre as quais boa parte são jornalistas — entendem, ou assim parece, que uma das alterações foi decepar tudo o que é hífen. Revejam-me esta convicção, se faz favor. E com urgência.

[Texto 22 899]

Léxico: «camerata»

Mais música


      Carlos Tavares, o que foi ministro da Economia no XV Governo Constitucional, não o ex-director-executivo da Stellantis (e quantos mais homónimos não haverá...), foi um dos convidados do programa Uma Noite em Forma de Assim, na Antena 1. A certa altura, usou o termo «camerata», nascido italiano, mas usado universalmente. Portanto, já é nosso este ➜ camerata MÚSICA 1. conjunto de músicos, geralmente de pequena dimensão, dedicado à execução de música de câmara; 2. [por extensão] grupo de artistas ou eruditos reunidos em torno de interesses estéticos comuns, especialmente à semelhança das academias musicais italianas do Renascimento.

[Texto 22 898]

Léxico: «transcriptoma | transcriptómica | transcriptómico»

E são três


      «Neste estudo, os investigadores combinaram técnicas de sequenciação de células individuais e transcriptómica espacial – tecnologia avançada que mapeia a expressão dos genes diretamente em cortes de tecido, preservando a localização original das células – para examinar cerca de 5,5 milhões de neurónios em mais de 300 ratinhos» («Cientistas criam o primeiro “mapa do olfato”», Rádio Renascença, 28.04.2026, 16h36). 

      Bem, muito bem, rebém — porque é, de facto, esta a palavra, com esta grafia, que se usa na maioria das vezes. Não é por acaso. Assim, proponho ➜ transcriptómica BIOLOGIA MOLECULAR ramo que estuda o transcriptoma; conjunto de métodos destinados à análise global da expressão génica. 

      E é assim porque vem do inglês transcriptome, comp. de transcript, «transcrito», + genome, «genoma», com -ome (do gr. -ōma, «conjunto, totalidade»), já que, termo científico e recente que é, não se formou na nossa língua, e daí ser errado escrevê-lo «transcritoma». 

      E, assim, também temos ➜ transcriptoma BIOLOGIA MOLECULAR conjunto de todas as moléculas de RNA (transcritos) presentes numa célula, tecido ou organismo, num dado momento ou em determinadas condições; reflecte o estado de expressão génica. 

      E ➜ transcriptómico BIOLOGIA MOLECULAR relativo ao transcriptoma ou à sua análise; que diz respeito ao estudo global da expressão génica.

[Texto 22 897]

Léxico: «bailarina»

Esta não dança


      «O método mais usado, sobretudo no inverno, continua a ser a “bailarina”, um cilindro a lenha onde se faz fogo para aquecer cerca de 90 litros de água, utilizados depois em banho de imersão. “É o nosso luxo”, descrevem, embora exija tempo: o processo pode demorar entre 30 minutos e uma hora até estar pronto» («Quando a luz falha, eles continuam ligados. Como se vive fora da rede elétrica?», Lara Castro, Rádio Renascença, 28.04.2026, 6h48). 

      Trata-se de uma reportagem, e vêem-se duas fotografias da bailarina, que se poderá pensar que é a «vasilha de forma cónica para aquecer água» que o dicionário da Porto Editora acolhe. O que se vê nas imagens da reportagem, porém, é diferente, é isto ➜ bailarina aparelho doméstico tradicional, geralmente metálico e de forma cilíndrica, provido de fornalha interior a lenha, utilizado para aquecer água destinada a banhos de imersão, comum em meios rurais.

[Texto 22 895]

Definição e etimologia: «maratona»

Nem dizem se é de estrada


      «Cuentan que el origen del maratón hay que agradecérselo al filólogo francés Michel Bréal. Fue él quien relató a Pierre de Coubertain la vieja historia de Filípides y su carrera desde Marathon hasta Atenas para anunciar el desembarco persa. También quien lo convenció para incluir una prueba similar en el programa olímpico. Y dicen que los 42,195 kilómetros no son la distancia real entre las dos ciudades, sino que se estableció así a partir de los Juegos de Londres 1908, cuando se alargó la prueba en poco más de dos kilómetros al inicio para que la Reina consorte pudiese ver la salida desde el balcón real del Palacio de Windsor» («El asalto a la barrera imposible: del pie descalzo de Bikila a unas zapatillas de 97 gramos», J. Asprón, El País, 27.04.2026, p. 33). 

      Dizem, dizem, dizem... Maratona não era cidade, como escreve o jornalista, nem aldeia, como se lê no Houaiss. Não passava de um povoado, um demo, mas designava sobretudo uma planície. Quanto à definição, podia dizer-se mais do que se lê na maioria dos dicionários, sem sobrecarregar, assim ➜ maratona DESPORTO prova de corrida pedestre de fundo, disputada em estrada, com distância oficial de 42,195 km, fixada internacionalmente desde os Jogos Olímpicos de Londres de 1908, integrando o programa do atletismo e exigindo elevada resistência física e gestão prolongada do esforço. 

      Já quanto à etimologia, vem do topónimo Maratona (grego Marathṓn), demo da Ática situado numa planície costeira; segundo a tradição, um mensageiro (identificado tardiamente como Fidípedes) correu daí até Atenas para anunciar a vitória ateniense sobre os Persas (490 a. C.); o episódio foi retomado no século XIX, dando origem à designação da prova de corrida de fundo; o topónimo remonta a maráthron, «funcho».

[Texto 22 894]

Definição: «balalaica»

Porque se pode 


      Num romance que estou a rever, uma personagem toca balalaica, sempre umas musiquinhas lá da sua terriola russa. Ora, usa quase sempre palheta. Dado que nem todos os instrumentos de cordas se podem tocar com palheta, proponho ➜ balalaica MÚSICA instrumento musical de cordas dedilhadas, de origem russa, com braço trasteado e caixa de ressonância triangular, de três cordas, duas das quais em uníssono, tocado sobretudo com os dedos, usado sobretudo na música popular russa, tanto a solo como em acompanhamento de canto ou integrado em conjuntos instrumentais.

[Texto 22 893]

Definição: «tartaruga-verde»

Omitido o traço mais distintivo


      «Se hace de noche en Long Beach, playa que bordea Georgetown, la capital de Isla de Ascensión. En la orilla, algo se mueve. Una masa oscura y enorme emerge del oleaje con una lentitud que parece de-liberada. Es una hembra de tortuga verde (Chelonia mydas), que puede llegar a medir 1,3 metros y pesar más de 150 kilos, y que acaba de cruzar 2.300 kilómetros de océano abierto desde las costas de Brasil. Ha tardado seis semanas. En el camino no ha comido nada. Está volviendo a la playa en la que nació» («La odisea para sobrevivir de la tortuga que desova a 2.000 kilómetros de casa», Patricia Fernández de Lis, El País, 26.04.2026, p. 42). 

      O pior das definições de «tartaruga-verde» dos nossos dicionários é a omissão desta odisseia de que fala o artigo. A maioria das definições fica-se pelo aspecto e pela taxonomia, quando o traço verdadeiramente distintivo desta espécie é comportamental: essa migração extraordinária e o regresso ao local de desova. Assim, proponho ➜ tartaruga-verde ZOOLOGIA (Chelonia mydas) espécie de tartaruga marinha de grande porte, da família dos Quelonídeos, com distribuição pantropical, caracterizada por realizar longas migrações oceânicas e por regressar às praias onde nasceu para desovar; apresenta carapaça oval de coloração variável (geralmente castanho-olivácea) e corpo esverdeado, podendo atingir cerca de 1,5 m de comprimento e pesar até cerca de 190 kg; na fase adulta, alimenta-se sobretudo de algas e ervas marinhas, sendo predominantemente herbívora.

[Texto 22 892]

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