Tradução: «péniche»

O contrário do que ali se intuía


      Quinto episódio da série Na Sombra. O mais electrizante até agora, a faltar um para o fim. Le Major, claramente nervoso, confessa a César e a Marylin: «C’est moi qui suis allé à la péniche où j’ai retrouvé le fils Pinguet.» Nas legendas: «Fui à barcaça, onde me encontrei com Pinguet Filho.» Ora, a embarcação está atracada em Issy-les-Moulineaux, um daqueles troços do Sena onde abundam péniches habitadas, muitas delas permanentemente atracadas e integradas no tecido urbano. São batelões convertidos, alguns luxuosíssimos. Chamar barcaça a isto... Há-de ser a pior escolha, muito, muito atrás, pela conotação, de «batelão», «barco», «casa-barco», e em último caso — oh, sim, dêem-me um tiro! — o termo original, péniche, que encontro em algumas traduções, para dar a cor local. Não há volta a dar, a palavra «barcaça» torna-se mesmo desajustada no contexto, já que remete de imediato para rudeza, trabalho pesado, até alguma degradação material, tudo o contrário do que se sabe (César fora lá antes, de noite) e do que se intui.

[Texto 22 817]

Léxico: «clipping»

Usada todos os dias, em todo o país


      «A Oposição quer que o Governo esclareça os moldes do uso da ferramenta NewsWhip, que permite monitorizar a importância de temas na opinião pública e identificar os jornalistas com “as vozes mais influentes e com maior presença numa crise”, através da análise de meios de comunicação online e das redes sociais. A Secretaria-Geral do Governo, estrutura criada para prestar aconselhamento ao Executivo da AD, argumenta que o serviço contratado por 40 mil euros é um tipo de “clipping [recolha seletiva de notícias] moderno” e não serve para vigiar jornalistas» («Governo chamado a explicar compra de serviço capaz de monitorizar jornalistas», Rita Neves Costa, Jornal de Notícias, 14.04.2026, p. 15). 

      Qualquer dia é uma ferramenta semelhante, mas para influenciadores e, quem sabe, autores de blogues. Lembremos o que escreveu o pastor luterano Martin Niemöller: «Primeiro vieram buscar os comunistas, e eu não falei — porque não era comunista. Depois vieram buscar os social-democratas, e eu não falei — porque não era social-democrata. Depois vieram buscar os sindicalistas, e eu não falei — porque não era sindicalista. Depois vieram buscar os judeus, e eu não falei — porque não era judeu. Depois vieram buscar-me a mim — e já não havia ninguém para falar por mim.» Entretanto, tempo para mais uma estranheza: no meu avatar de funcionário autárquico, tratava, entre outros assuntos, da organização e distribuição do material que recebíamos do serviço de clipping. Como é que a Porto Editora (vejam vocês noutros dicionários, façam qualquer coisinha) ainda não acolhe este estrangeirismo? 

      Vamos lá nós redigir uma boa definição de clipping, porque a jornalista não dispunha de mais caracteres. Assim, proponho ➜ clipping COMUNICAÇÃO, JORNALISMO serviço de recolha, selecção e organização de conteúdos publicados em meios de comunicação (imprensa, rádio, televisão, plataformas digitais), geralmente sobre determinado tema, entidade ou pessoa, com vista ao acompanhamento da cobertura mediática e à avaliação do seu impacto e relevância, podendo incluir análise quantitativa e qualitativa da presença e influência dessas menções.

[Texto 22 816]

Léxico: «vendeano»

Longe do Alentejo


      «Por sua vez, os padres, que passeavam suas éguas rabonas, nos coldres confundidas as pistolas com o crucifixo, à testa das colunas vendeanas de oprimidos e fanáticos, que desejavam?» (O Romance de Camilo, Vol. 1, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 264).

[Texto 22 815]

Léxico: «armadilha de queda»

Eu quero saber


      «A equipa liderada por Jordi Moya-Laraño, investigador da Estação Experimental de Zonas Áridas (EEZA-CSIC), em Espanha, conseguiu documentar em vídeo espécimes de “Cryptodrassus michaeli”, um aracnídeo que até agora só era conhecido de registos isolados. O trabalho de campo foi realizado na zona de Boca de los Frailes, na província de Almería, onde os biólogos utilizam armadilhas de queda, pequenos recipientes de plástico enterrados ao nível do solo, para capturar espécimes vivos» («Nova espécie de aranha com apenas três milímetros descoberta em Espanha», Jesús Maturana, Euronews, 9.04.2026, 11h45). 

      Sendo assim, ➜ armadilha de queda ZOOLOGIA dispositivo passivo de captura de pequenos animais terrestres, especialmente artrópodes, constituído por um recipiente enterrado ao nível do solo no qual os organismos caem ao deslocarem-se pela superfície; é utilizado em estudos ecológicos para recolha de espécimes (frequentemente vivos) e para avaliação da actividade e abundância relativa da fauna do solo.

[Texto 22 814]

Imagem tirada daqui: https://x.com/InsetoLand/

Definição: «rito tridentino»

Regime? Hum...


      «Codifié par le pape Pie V en 1570, le rite tridentin, l’autre nom de la célébration en langue officielle du Vatican, était le standard jusqu’aux réformes liturgiques des années 60. Mais aujourd’hui, contre toute attente, la messe en latin, sa rigueur et ses codes solennels, fait de la résistance. Ou plutôt elle est revigorée: toujours plus nombreux, les fidèles, en particulier les jeunes de moins de 30 ans, se pressent aux offices» («De plus en plus de jeunes se tournent vers la messe en latin», Catherine Cochard, Le Matin Dimanche, 12.04.2026, p. 15). 

      Estás a ver o título, Porto Editora? Onde é que esses jovens vão encontrar missa em latim? Pois nas igrejas, fraternidades que seguem o rito tridentino. Ora, estranho a tua definição, já que nem sequer se fala em Trento nem em Pio V, sendo quase toda construída por oposição. Assim, proponho ➜ rito tridentino RELIGIÃO forma tradicional do rito romano da Igreja Católica, fixada na sequência do Concílio de Trento (séc. XVI) e codificada no Missal de Pio V (1570), caracterizada pelo uso do latim, celebração com o sacerdote voltado para o altar (ad orientem), uma estrutura ritual mais fixa, a presença de ministros assistentes com funções definidas e por um maior uso de silêncio e de gestos codificados; manteve-se como forma dominante até à reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, continuando a ser celebrada, embora de modo mais restrito e minoritário, em diversas comunidades católicas.

[Texto 22 813]

Léxico: «cardioprotecção | cardioprotector | hipoglicemiante»

Vamos lá ver


      Que sorte têm os bacorinhos criados ao ar livre que se alimentam de bolotas, hein? Ao que parece, há fundamentos bioquímicos plausíveis para um efeito cardioprotector das bolotas, sobretudo devido aos ácidos gordos insaturados e aos antioxidantes, mas não há, até ao momento, prova clínica directa suficiente para as considerar um alimento com efeito protector específico sobre o coração. Há isto e depois aquelas merdas de síntese.

[Texto 22 812]

⋅ ── ✩ ── ⋅



P. S.: Ah, e são também (as bolotas, não os porquinhos) hipoglicemiantes. Ora tu, Porto Editora, só registas «hiperglicemiante».

Léxico: «caça-gralhas»

Não percebo


      Então porque é que ouço — e leio — a palavra «caça-gralhas» desde sempre e ela não está nos dicionários? Olha, por exemplo, na correspondência de Luiz Pacheco, que foi também revisor, e muito competente, disse-me uma vez Jaime Salazar Sampaio. Encontramos neles, nos dicionários, até palavras que não deviam estar lá, mas não todas as que existem e se usam.

[Texto 22 811]

Léxico: «ortóstato»

Só pode ser confusão


      «Cualquiera que se sitúe frente al “obelisco” de Avebury, un ortostato de más de 6 metros de altura y 3 de diámetro, se sentirá sobrecogido contemplando aquella piedra alzada hace 5.000 años en el centro de un círculo de piedras de casi 100 metros de diámetro» («Megalitismo: qué sabemos hoy sobre los gigantes de piedra», Diego Suárez Martínez, La Razón, 12.04.2026, p. 50). 

      A Porto Editora regista o termo, com duas acepções. Vamos esquecer a segunda, relativa à medicina, e concentremo-nos na primeira: «ARQUEOLOGIA, ARQUITECTURA laje ou bloco de pedra vertical que forma a parte inferior de um muro, parede ou outra estrutura erigida no solo». Não é assim. Caiu no erro de reunir numa só acepção, sob os domínios Arqueologia e Arquitectura, dois sentidos distintos de «ortóstato»: o da arquitectura antiga, em que o termo designa uma laje vertical usada sobretudo na parte inferior de um muro ou no revestimento de uma parede, e o da arqueologia do megalitismo, em que designa uma grande pedra fincada verticalmente e integrante de uma estrutura monumental. A fusão destes dois valores semânticos gera uma definição híbrida e, no respeitante ao megalitismo, errada. 

      Assim, proponho ➜ ortóstato ARQUEOLOGIA (megalitismo) grande pedra alongada disposta verticalmente e fincada no solo, que constitui elemento estrutural de construções megalíticas, servindo de suporte ou de delimitação, nomeadamente em dólmenes, antas ou outros monumentos afins; 2. ARQUITECTURA (antiga) laje ou bloco de pedra disposto verticalmente, utilizado sobretudo na fiada inferior de muros (basamento) ou no revestimento de paredes em construções da Antiguidade, especialmente na arquitectura grega. 

      E vamos lá deixar a etimologia mais compostinha, porque, na verdade, vem ➜ do lat. orthostāta, e este do gr. ὀρθοστάτης (orthostátēs), comp. de ὀρθός, «direito, vertical», e στάτης (de ἵστημι, «pôr de pé, fazer estar»), «o que está de pé», «pedra erguida».

[Texto 22 810]

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