Tradução: «unoaked»

Estava aqui a pensar


      Com que então uma garrafa de Comboio do Vesúvio unoaked… Ainda algum pacato e desprevenido português se atraganta antes mesmo de o levar aos lábios. Vejamos: se unoaked também é, apesar de consolidado, ambíguo em inglês, porque não sugerirmos nós um termo legitimamente português? Em rigor, unoaked não significa sempre «vinho sem qualquer contacto com madeira». Muitas vezes quer apenas dizer «vinho sem marca sensorial de carvalho», excluindo o uso de barrica nova, mas admitindo madeira neutra, contacto breve ou soluções técnicas equivalentes. O termo funciona menos como descrição processual do que como rótulo de estilo, e essa ambiguidade é hoje plenamente aceite no discurso enológico anglo-saxónico. Ora, se toleramos essa elasticidade no inglês, não há razão para exigir ao português uma precisão cirúrgica que o próprio original não tem. A dificuldade não é conceptual, é lexical: o inglês dispõe de um adjectivo curto, transparente e estabilizado; o português refugia-se em perífrases correctas, mas pesadas, como «vinho não estagiado em madeira» ou «vinho sem contacto com carvalho». É aqui que se pode, e talvez se deva, atirar o barro à parede. Desmadeirado é morfologicamente irrepreensível, semanticamente claro e dialoga directamente com um adjectivo já consagrado, amadeirado. Tal como unoaked, pode ser lido tanto em chave técnica como sensorial; tal como unoaked, não resolve todas as subtilezas do processo, mas comunica eficazmente um perfil de vinho. Nenhum termo nasce perfeito nem imune a objecções. Nasce porque alguém o usa, outro o entende e um terceiro já não estranha. Se aceitamos unoaked numa garrafa do Douro, talvez esteja na hora de experimentar também um vinho desmadeirado, ao menos na língua.

[Texto 22 803]

Como se traduz por aí

Não temos cá disso


      Quarto episódio da série Na Sombra. Francœur, apertado por escândalos e suspeitas, propõe a Marie-France Trémeau uma candidatura conjunta, à americana. O Eliseu para ele, para ela o Matignon. Ela, embora replique de imediato que não acredita nestas soluções bicéfalas, não deixa de ponderar ali mesmo. Mas diz também: «Quand tu auras vu ma liste de courses, je ne sais pas si ta proposition sera toujours une si bonne idée.» Nas legendas, estava assim: «Quando tiveres visto a minha “lista de compras”, a tua proposta talvez não tenha sido uma ideia assim tão boa.» E esta «lista de compras» já tinha aparecido noutro episódio. Para um francês, a expressão francesa não é obscura, a sua equivalência literal é que não existe em português. É um caso clássico de assimetria idiomática. 

      Temos de ver que é um filme, em geral o espectador não anda para a frente e para trás para perceber, nem pára para ir consultar um dicionário. Tem de se optar sempre pela formulação mais clara, mais directa. Por isso, eu optaria por uma solução assim: «Quando vires a minha lista de exigências, não sei se a tua proposta continuará a parecer uma tão boa ideia.» Ou até mais simples: «Quando vires as minhas exigências, não sei se a tua proposta continuará a parecer uma tão boa ideia.» Ou ainda: «Quando vires as minhas contrapartidas, não sei se a tua proposta continuará a parecer uma tão boa ideia.» É que, para aceitar, ela vai querer os ministérios mais importantes, como o do Interior e o da Justiça, entre outras exigências relacionadas com a linha política.

[Texto 22 802]

«Funcionário», a evolução

Ou quase tudo


      Tudo muda, pois claro. Umas décadas atrás, só havia dois tipos de funcionários: os da Função Pública, como o meu pai e alguns tios meus, e os «funcionários do partido» (do «Partido», escrevem eles, como eu escrevo «Igreja»). Agora vamos aí pelas ruas e até nas montras de lojas chinesas se lê «admitimos funcionária».

[Texto 22 801]

Léxico: «pão da avó»

Nem o que é nosso prezamos


      «Das mãos de Ana Paula sai um pão de água grande, com dois quilos, que recebeu o nome de “pão guloso”, depois de clientes terem dito: “Até o comemos sem nada, é tão bom que, quanto mais comemos, mais apetece comer”. Mas não só. Faz também pão de centeio, pão da avó, broa de milho, regueifa de canela, entre outros que marcarão presença no certame, onde a padeira estará a trabalhar ao vivo» («Ana Paula assume: “Gosto imenso de fazer pão. Tudo o que faço, faço com amor”», Zulay Costa, Jornal de Notícias, 10.04.2026, p. 16). 

      Não sei porque não temos tudo isto nos dicionários, por difícil que seja (e é) definir certos tipos de pão. Por acaso, é mesmo pão da avó que comemos, há vários anos, cá em casa, pelo que proponho ➜ pão da avó pão de fabrico artesanal, geralmente de formato rústico e miolo denso, preparado com farinhas tradicionais (frequentemente de trigo ou misturas), levedação lenta e cozedura prolongada, muitas vezes em forno a lenha, evocando receitas caseiras antigas; caracteriza-se por crosta espessa e estaladiça e sabor pronunciado, associado à tradição rural e doméstica. 

      Isto, é claro, nas padarias tradicionais, nas poucas que restam, não o que sai de supermercados e hipermercados, mal amassados, malcozidos, mal-amanhados.

[Texto 22 800]

Léxico: «cuco-pequeno»

Trapalhada à vista


      «O mais pequeno é o cuco-pequeno (Chrysococcyx minutillu), que vive no Sudeste Asiático, na Nova Guiné e na região oriental da Austrália, com apenas 17 centímetros de comprimento e cerca de 15 gramas, e o maior é o cuco-tucano, que se pode encontrar na Austrália, na Nova Zelândia, na Nova Guiné e na Indonésia, com cerca de 60 centímetros de comprimento e 600 gramas» («Os cucos, uma vasta família de aves», National Geographic Portugal, 8.04.2026, 15h10). 

      Aqui, o caso é mais grave: continua a estar apenas no dicionário com o AO90 da Porto Editora, mas o nome científico não corresponde: «ORNITOLOGIA (Cuculus poliocephalus) Ave de bico e patas curtas, da família dos Cuculídeos, ordem dos Cuculiformes.» O Cuculus poliocephalus é uma espécie diferente, maior, e não corresponde à descrição do mais pequeno. Assim, proponho ➜ cuco-pequeno ORNITOLOGIA (Chrysococcyx minutillus) ave da família dos Cuculídeos, de muito pequeno porte, com cerca de 17 cm de comprimento, corpo esguio e cauda relativamente longa; distribui-se pelo Sudeste Asiático, Nova Guiné e nordeste da Austrália; alimenta-se sobretudo de insectos e, como outros cucos, é parasita de ninho.

[Texto 22 799]

Como se fala por aí

Assim se perde


      «Dois quilómetros e 600 metros antes estamos na zona das Docas de Lisboa. Cotrim de Figueiredo puxa do megafone e encoraja as dezenas presentes. “Quem chegar em último é uma batata mole, encontramo-nos no Palácio de Belém, que vou lá buscar as chaves”» («Cotrim. “Quem chegar em último é uma batata mole”», João Maldonado, Rádio Renascença, 4.01.2026, 19h33). Isto é o quê, a versão das Avenidas Novas da batata podre?

[Texto 22 798]

Definição: «Casa Civil»

Porque a outra já está


      Na sexta-feira passada, ouvi o Presidente da República, numa resposta a uma delegação da CGTP que o aguardava, com uma tarja, no paredão da praia da Vieira, Leiria, falar na sua Casa Civil. Já aqui corrigimos e melhorámos a definição de «Casa Militar». A definição de «Casa Civil» padece de problemas semelhantes. Assim, proponho ➜ Casa Civil POLÍTICA conjunto de serviços e assessores que apoiam directamente o Presidente da República no exercício das suas funções, assegurando a coordenação interna, a preparação e acompanhamento da actividade presidencial, a representação institucional e a articulação com outros órgãos de soberania e entidades públicas.

[Texto 22 797]

Léxico: «botica»

Pobres somos nós


       A autora tinha razão em três ou quatro coisas, como é natural. Uma delas ao escrever que a botica lá de casa estava sempre bem abastecida de remédios caseiros preparados ao longo do ano. Não deixa de ser chocante que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolha uma acepção de «botica» — antiquado, pois claro — e o Houaiss registe nove. Depois de deitar as mãos à cabeça, só temos de meter ou pôr mãos à obra, ensinando de caminho a certos jornalistas como se usam estas expressões.

[Texto 22 796]

Arquivo do blogue