Léxico: «normopata»

Quando já tens «normopatia»


      Porto Editora, queres saber quando foi a última vez que encontrei a palavra «normopata»? Queres pois. Foi ontem, nas legendas do filme No Verão Passado (L’Été dernier), de Catherine Breillart. «Sabes o que penso dos “normopatas”?», diz a personagem Anne, já com os copos, ao marido. «Aborrecem-me. Até se aborrecem a si mesmos. Por favor, não te armes em normopata, não te fica bem.» (A pecha das aspas já vem dos jornais. O erro colossal, porém, só chega ao minuto 47, quando Théo, fingindo, de gravador em riste, entrevistar a madrasta, Anne, a incita a falar: «Vas-y, cause.» («Anda lá, fala.» «Vá, conta.») Pois bem, nas legendas aparecia assim: «Vá lá. Causa.» Sim, erro colossal. E era facílimo comprovar que não batia certo, já que a madrasta responde: «Ce n’est pas toi qui dois poser des questions?» Francamente.)

[Texto 22 707]

Léxico: «prova indirecta»

Mas ausente dos dicionários


      «A magistrada critica a prova indireta, que não foi valorizada. “Não é absolutamente necessário o aparecimento do corpo para se concluir pelo cometimento do crime de homicídio/aborto. Será todavia de se exigir que se alcance uma evidência de morte, ainda que comprovada por provas indiretas ou circunstanciais, sejam elas perícias, testemunhais ou outras, desde que permitam alcançar uma conclusão segura”, lê-se» («“O autor da morte de Mónica foi Fernando Valente”», Nelson Rodrigues e Tânia Laranjo, Correio da Manhã, 26.03.2026, p. 12). 

      Isto é que é forma de escrever... Nada como um jornalista acolitado por outro jornalista para engendrar estes portentos. Tem de ser o pobre leitor — e talvez boa parte dos leitores deste jornal não o saiba fazer — a proceder a esse trabalho de reconstrução. Bem, avancemos propondo, dada a sua presença nos meios de comunicação, a dicionarização de ➜ prova indirecta DIREITO prova que incide sobre factos intermédios ou circunstâncias conexas, a partir dos quais se infere o facto principal a demonstrar; distingue-se da prova directa por exigir um raciocínio inferencial e pode assumir a forma de prova indiciária.

[Texto 22 706]

Léxico: «meruja»

Aqui não chove


      «Porque não é fácil resistir – confirmamos – à chouriça mirandesa, à tabafeia, ao cordeiro da raça churra galego-mirandesa, ao butelo, à posta ou medalhão de vitela. Que ainda para mais se fazem acompanhar de variados e belos vinhos que se produzem na região, além de outras iguarias como o puré de grelos ou (sorte nossa, porque são colhidas apenas entre Janeiro e Março e era época delas) a bonita e saborosa salada de merujas» («Miranda do Douro: bien benidos al reino marabilhoso», Patrícia Carvalho, Público, 28.03.2026, 8h33). 

      Peçam à Porto Editora uma salada de merujas, tentem. Iam ficar com fome. Assim, proponho ➜ meruja BOTÂNICA (Montia fontana) planta herbácea silvestre, aquática ou semiaquática, da família das Portulacáceas, que cresce em águas límpidas e frias (nascentes, ribeiros, lameiros encharcados), formando conjuntos de folhas muito pequenas e tenras, de sabor suave e sem acidez marcada, tradicionalmente consumidas cruas em saladas no Interior Centro e Nordeste de Portugal; produto sazonal, colhido sobretudo entre Janeiro e Março.

[Texto 22 705]

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P. S.: Não confundir com morugem (Stellaria media), planta terrestre diferente. Em certos registos lexicográficos, nomeadamente no dicionário da Porto Editora, a forma «meruge(m)» surge associada, quanto a mim, indevidamente, a essa espécie.

Agora é que vai ser

Ler por receita


      Os médicos, leio nos jornais, vão passar a receitar caminhadas, pilates, trabalhos manuais e aulas de culinária. É um começo, mas o que espero mesmo é que, enquanto não afinam aqueles chips implantáveis no cérebro, passem a receitar o estudo da gramática e a consulta de dicionários, especialmente aos jornalistas; para a restante população, pode ser apenas a frequência de clubes de leitura, por exemplo.

[Texto 22 704]

Definição: «arcebispa»

Pois, mas na prática


      «Durante siglos, Canterbury ha sido sinónimo de peregrinación. Pero la multitud no acudió ayer en busca de redención, sino de historia. Bajo las bóvedas góticas de la catedral, la Iglesia de Inglaterra escenificó un cambio de era al entronizar públicamente a Sarah Mullally como arzobispo de Canterbury, la primera mujer en ocupar el cargo en 1.400 años. A sus 64 años, madre de dos hijos y exjefa de enfermería del sistema público británico, se convierte en la máxima autoridad espiritual de los anglicanos en todo el mundo» («La Iglesia anglicana rompe su último techo de cristal con la entronización de una mujer», Celia Maza, La Razón, 26.03.2026, p. 32). 

      Dizes, Porto Editora, que é a «mulher que chefia um arcebispado em certas religiões cristãs não católicas», mas bem sabemos que apenas o caso da Comunhão Anglicana tem relevância, pelo que eu o definiria assim ➜ arcebispa RELIGIÃO mulher investida no cargo de arcebispo, isto é, responsável por uma província eclesiástica ou por uma diocese de especial relevância; termo de uso recente, com projecção sobretudo na Comunhão Anglicana, decorrente da ordenação de mulheres, inexistente na tradição católica.

[Texto 22 703]

Extras! Extras! Extras!

Não se esqueçam


      «O ex-diretor executivo do SNS António Gandra d’Almeida afirmou ontem que o INEM “só funcionava com muitas horas extras e prestação de serviços, tal como o resto do SNS”» («INEM só funciona com horas extras», E. N., Correio da Manhã, 27.03.2026, p. 19).

[Texto 22 702]

Definição: «subdimensionamento»

Abstrai, mulher


      «Com esse objectivo em mente, a associação pede também ao metro que reveja aquela que vem sendo a prática de fazer terminar no Campo Grande parte das composições da Linha Amarela que partem da estação do Rato, intercaladas com outras que fazem o percurso completo até Odivelas. Uma frequência que se faz sentir nos dias úteis, entre as 10h e as 16h45, e que leva a Zero a falar num “grave subdimensionamento” da oferta neste troço» («Porque não circula o metro da capital mais cedo? Associação Zero quer abertura de portas às 5h30», Samuel Alemão, Público, 27.03.2026, p. 19). 
      O dicionário da Porto Editora define muito mal «subdimensionamento»: «atribuição de dimensões insuficientes a algo». E porquê? Pois porque fica presa à ideia de dimensões no sentido físico ou geométrico e não capta o uso efectivo da palavra, que é muito mais amplo e frequentemente abstracto, como é o caso do artigo que cito. Assim, proponho ➜ subdimensionamento acto ou efeito de dimensionar, planear ou conceber algo abaixo das necessidades reais, resultando em insuficiência de capacidade, escala ou meios.
[Texto 22 701]

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P. S.: Muito me apraz verificar que no Público já sabem fazer perguntas gramaticalmente correctas: Porque é que...? A satisfação, porém, só seria completa se não soubesse que apenas acertam quando se enganam. Satisfação efémera, pois. Orgasmo.

Confusões: «à vontade» e «à-vontade»

Pese embora a nódoa


      «“Este é um clube de leitura dedicado ao teatro, mas igual a todos os outros. Não é uma aula”, sublinha Isabel Milhanas Machado. “O objectivo é fazer com que qualquer pessoa se sinta à-vontade, sem medo de falar, fazer perguntas, propor uma interpretação ou partilhar a sua experiência. Mas, se quiser, também pode car só a ouvir”» («Um pouco por todo o país, há leitores de teatro à procura de uma peça atrás da outra», Luís Ricardo Duarte, Público, 27.03.2026, p. 30). 

      O jornalista aqui borrou um pouco a pintura (Luís Ricardo Duarte, aprenda urgentemente a distinguir e a usar «à vontade» e «à-vontade»), mas o artigo é interessante, fala de clubes de leitura em Lisboa e no Porto. O resto é paisagem. Em Lisboa, é o Clube de Leitura do Teatro Variedades; no Porto, as Leituras no Mosteiro são uma iniciativa do Centro de Documentação do Teatro Nacional São João. São ambos clubes de leitura de peças de teatro, e os textos são lidos na íntegra.

[Texto 22 700]

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