Léxico: «drone vagante»

Estamos salvos


      «O anúncio surge no dia em que o Exército testou, pela primeira vez, um drone de ataque – também conhecido como “loitering munition” – num exercício multinacional com Espanha e França, num momento considerado inédito na força terrestre portuguesa» («Exército estreia drone de ataque “com sucesso”», Rádio Renascença, 25.03.2026, 21h12, itálicos meus). 

      Por vezes também chamado «drone suicida» ou «drone kamikaze», ainda mais ao gosto jornalístico, mas a designação mais adequada que se encontra é «drone vagante». Veremos como se desenrola isto.

[Texto 22 691]

Definição: «juiz social»

Não coadjuvam, não


      «Dois juízes sociais. O menor será julgado por um tribunal coletivo: uma juíza de carreira (a titular do processo) e dois juízes sociais (cidadãos, sem formação jurídica específica, nomeados para auxiliar os juízes de direito em tribunais de família e menores)» («Menor que matou mãe a tiro arrisca três anos fechado», Tânia Laranjo, Correio da Manhã, 25.03.2026, p. 8). 

      Não encomendei a notícia, mas vem mesmo a calhar para corrigir e melhorar a definição de «juiz social», Porto Editora, já que na tua definição há três aspectos a rever: primeiro, a temporalidade não é constitutiva da figura, e tanto assim é que a duração rígida nem sequer é universalmente aplicável a todos os casos; segundo, afirmar-se que está lá para «coadjuvar os juízes de direito» é uma formulação equívoca, já que nos tribunais colectivos onde intervêm juízes sociais estes não são meros auxiliares, participam na decisão, com direito de voto, ainda que não exerçam funções técnicas de direcção do processo; terceiro, não são seleccionados, mas sorteados. 

      Tudo visto, proponho ➜ juiz social DIREITO cidadão sem formação jurídica específica, inscrito em listas oficiais e chamado por sorteio para integrar tribunais colectivos em determinadas matérias, nomeadamente em processos de família e menores e em certas áreas laborais, participando na apreciação dos factos e na decisão, com direito de voto igual ao dos juízes de carreira.

[Texto 22 690]

Erros de sempre e para sempre

Só veneno


      Fiquei com alguma vontade de ir ver a peça Veneno ao Teatro Aberto. Lê-se na página do teatro na internet: «Num diálogo de grande intensidade emocional, a peça Veneno (2009), da autora neerlandesa Lot Vekemans, revela os mistérios da alma humana e os modos complexos, muito diversos, como cada pessoa procura manter a esperança ao lidar com os revezes da vida.» Só espero que a autora, que vem cá assistir à estreia, não saiba português. Ou, vá, que saiba ainda menos do que o autor do texto. Vezes não são revezes, como se costuma dizer. Mentira: não diz nada. O que eu queria dizer é que não vou contar nada à autora. Ou será que vou mesmo? Of ga ik het toch doen?

[Texto 22 689]

Léxico: «detentivo»

Esperem um pouco


      Não sei quê e tal e «que, como não tinham carácter detentivo, levaram o juiz de instrução a libertar os quatro detidos no domingo passado», dizia o Público, mas depois o texto desapareceu, mas já se sabe, nothing ever truly disappears from the Internet. Como viram que a Porto Editora assegura que detentivo estará «brevemente disponível», recuaram.

[Texto 22 688]

Definição: «intersexualidade»

Mais comum do que se pensa


      Num artigo recente no La Razón sobre um documentário dedicado à intersexualidade, lê-se que se trata de indivíduos «que nascem com características biológicas que não encaixam nas categorias tradicionais de masculino ou feminino», formulação que corresponde ao entendimento científico actual da questão e contrasta — chega a chocar, na verdade — com a definição de «intersexualidade» do dicionário da Porto Editora. No mesmo artigo, estima-se que cerca de 1 em cada 2000 nascimentos apresente variações das características sexuais, o que evidencia que não se trata de um fenómeno marginal, mas de uma realidade biológica com expressão mensurável. A definição da Porto Editora divide-se em duas acepções, ambas problemáticas. A primeira descreve a «qualidade do indivíduo de um sexo com características […] que o faz parecer do outro», o que reduz o fenómeno a uma questão de aparência ou de percepção externa, ignorando a sua base biológica. A segunda afirma que o indivíduo «inicia o seu desenvolvimento com um sexo e termina com outro», ideia que não encontra apoio na biologia contemporânea e reflecte antes concepções antigas, entretanto abandonadas e denunciadas no documentário (The Secret of Me) realizado por Grace Hughes-Hallett. Não há aqui duas acepções legítimas, mas duas tentativas de apreender um mesmo fenómeno. A própria estrutura da definição parece ainda ecoar concepções hoje ultrapassadas, associadas a uma visão desenvolvimentista e normalizadora do sexo — como a que foi defendida pelo psicólogo neozelandês John Money —, e que esteve na origem de práticas médicas hoje amplamente criticadas. 

      Impõe-se, por isso, uma reformulação que tenha em conta o conhecimento científico actual. Assim, proponho ➜ intersexualidade BIOLOGIA, MEDICINA condição caracterizada pela presença de variações nas características sexuais (cromossómicas, gonadais, hormonais ou anatómicas) que não correspondem às definições típicas de masculino ou feminino, podendo manifestar-se de diversas formas ao nascimento ou ao longo do desenvolvimento. 

      A questão é referida na literatura médica e em dicionários recentes com diferentes formulações («variações», «diferenças» ou «perturbações do desenvolvimento sexual»), correspondendo, em geral, ao inglês differences/disorders of sex development (DSD), e nunca aí se fala em aparência.

[Texto 22 687]

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P. S.: Já se deixa adivinhar que também a definição de «intersexo» padece dos mesmos problemas. E a solução é simples: alinhar a sua definição com a de «intersexualidade», descrevendo-a em termos de variações das características sexuais, e não como mera combinação de traços masculinos e femininos.


Definição: «secretário-geral»

Dá-me lúmen


      «As medidas de coação da Operação “Lúmen” foram conhecidas esta terça-feira. O secretário-geral da Câmara de Lisboa, Laplaine Guimarães, fica suspenso de funções, determinou o Tribunal de Instrução Criminal (TIC) do Porto» («Laplaine Guimarães suspenso de funções na Câmara de Lisboa», Ricardo Vieira, Rádio Renascença, 24.03.2026, 16h58).

      Numa rádio, uma comentadora, jurista, e dessas mais espevitadas, confessou que não sabia que existia este cargo na Câmara Municipal de Lisboa. Os dicionários até sabem, mas deviam caracterizá-lo melhor, ninguém iria sentir-se triste ou ofendido. Assim, proponho ➜ secretário-geral cargo de direcção superior, em instituições públicas ou privadas, exercido por quem assegura a coordenação e o funcionamento dos serviços, promovendo a articulação entre unidades orgânicas e o cumprimento das orientações definidas pelos órgãos dirigentes, podendo incluir funções de apoio directo à direcção e de supervisão administrativa e organizacional.

[Texto 22 686]

Léxico: «sala de guerra»

Pode ser a mais importante


      Até aparece nos meios de comunicação social — «Taiwan assiste à COP30 numa “sala de guerra”…» (Salomé Fernandes, Expresso, 12.11.2025, 13h30) —, mas vou citar o filme Dr. Estranhoamor, que vi ontem. Quando o general Buck Turgidson se envolve à pancada com o embaixador russo, diz o presidente: «Gentlemen, you can’t fight in here! This is the War Room!» Comédia é comédia, ainda que negra. Então temos tantas salas nos dicionários e não encontramos lá esta? Assim, proponho ➜ sala de guerra MILITAR, POLÍTICA espaço físico ou virtual onde se centralizam e expõem informações relativas a um ou mais teatros de operações ou a uma situação crítica, e no qual se reúnem os elementos de comando (nomeadamente o estado-maior) para analisar dados, planear, decidir e acompanhar a execução de acções; por extensão, estrutura de coordenação intensiva usada em contextos não militares para gerir crises ou projectos complexos.

[Texto 22 685]

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P. S.: Estranho, lamentável, é que se encontre de quando em quando a forma «Dr. Estranho-amor», com hífen, como se se tratasse de uma simples combinação adjectivo + substantivo. Ora, no filme Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, o nome é apresentado como uma unidade lexical, tradução directa (e já de si humorística) do pseudo-alemão Merkwürdigliebe, forjado para imitar a composição germânica. Tal como em inglês se fixou Strangelove e não Strange Love, também em português a forma coerente é Estranhoamor, aglutinada e assumida como apelido, não «Estranho-amor».


Definição: «arsenopirite»

Nem que fosse apenas pela fórmula


      «Em 2019, investigadores da Universidade do Porto avaliaram os riscos do consumo de água contaminada por arsénio na região, documentando o despejo de centenas de toneladas de arsenopirita decorrentes da extracção de volfrâmio em décadas anteriores» («Minas da Panasqueira: Quercus denuncia risco de contaminação tóxica no rio Zêzere», Andrea Cunha Freitas, Público, 24.03.2026, 8h17). 

      A jornalista falha — falham sempre em alguma coisa — é em adoptar a variante brasileira: em Portugal diz-se «arsenopirite». Falha também a Porto Editora, que, entre outros aspectos, não indica a fórmula deste mineral. Assim, proponho ➜ arsenopirite MINERALOGIA (FeAsS) mineral de ferro e arsénio do grupo dos sulfuretos, cristalizando no sistema monoclínico, frequentemente com hábito pseudo-ortorrômbico; ao ser quebrado pode exalar odor a alho; constitui o principal minério de arsénio.

[Texto 22 684]

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