Léxico: «calpaque»

Avancemos


      Várias imagens e depois: «Na página anterior, um homem usando o calpaque, chapéu típico quirguiz» («Manas é melhor do que Lenine», Paolo Moiola, Além-Mar, Abril de 2026, p. 35). Ora, vejo a palavra num vocabulário publicado em 1967 e agora que aparece na imprensa, nada, fora dos dicionários. Faz lembrar o caso de «herança indivisa» (menos auto-explicativo do que se julga), que andamos a encontrar nos meios de comunicação vai para três semanas, e que também está fora dos dicionários, ao passo que «herança jacente», que creio jamais ter encontrado no uso vivo (e já li mais textos de natureza jurídica do que a maioria dos meus leitores), tem lugar nos dicionários. Enfim, critérios muito discutíveis.

[Texto 22 683]

Definição: «gilbertês»

Mais do que o estrito, esquelético, básico


      «Kiribati (em gilbertês lê-se Kiribas, porque o “ti” tem som de “s”) compõe-se de três grupos de ilhas, as Gilbert, as Fénix e as Espórades Equatoriais ou ilhas da Linha, espalhadas pelo oceano Pacífico e por quatro hemisférios, caso único no planeta» («Kiribati, o pais-mar: preservar o oceano que lhes corre nas veias», António Rodrigues, Público, 23.03.2026, 21h30). 

      Até pode encontrar-se de quando em quando a referência a «quatro hemisférios», mas isso não legitima o seu uso. Isso daria duas Terras. Claro que percebo a ideia por detrás, mas se se usar o termo «quadrante», não há imprecisões nem desnecessárias extensões de sentido. Quanto a «gilbertês», para evitar uma definição excessivamente esquemática como aquela que encontramos nos nossos dicionários, proponho ➜ gilbertês LINGUÍSTICA língua austronésia do ramo micronésio, falada no Quiribáti, onde é língua oficial a par do inglês; apresenta grande homogeneidade dialectal entre as ilhas, apesar da dispersão geográfica do arquipélago; caracteriza-se por um sistema fonológico relativamente simples e por uma morfologia predominantemente analítica, com uso de partículas para marcar relações gramaticais.

[Texto 22 682]

Definição: «factor»

Sim e não


      No 8.º episódio («As Cidades dos Ferroviários») da excelente série documental Passagem de Nível, que passa na RTP2, falou-se mais de uma vez numa das profissões ferroviárias, a de factor. Não se pode dizer que esteja muito bem definido nos dicionários, longe disso, pelo que proponho ➜ factor FERROVIA antiquado (em Portugal) empregado encarregado da gestão administrativa e comercial do tráfego de mercadorias e encomendas numa estação ferroviária; regista expedições e chegadas, calcula fretes e taxas, emite documentação de transporte e assegura a escrituração associada ao movimento de cargas, sendo frequentemente, em estações de menor movimento, o responsável principal pelo funcionamento da estação. 

      Antiquado, decerto; mas houve factores em Portugal até às portas do século XXI. E continuam a existir em Angola. Portanto, antiquado em Portugal. Aqui, por exemplo, em relação ao Caminho-de-Ferro de Luanda (CFL), vejo a notícia de abertura de um curso para formação de factores de estação que decorreu em 2024.

[Texto 22 681]

Léxico: «gandura | albornoz»

Nossas, e temos de as importar


      «O andaluz José María Cantal Rivas é membro da Sociedade dos Missionários de África, ou dos Padres Brancos, assim chamados, não pela cor da pele, mas pela alvura do hábito inspirado em trajes típicos do Magrebe, composto de uma gandura (túnica) e um albornoz (manto com capuz), símbolos de pureza e simplicidade» («A Igreja “quase invisível” que não esconde a fé», Margarida Santos Lopes, Além-Mar, Abril de 2026, p. 18).

      Temos de importar (está no VOLP da Academia Brasileira de Letras, por exemplo) ➜ gandura ou gandoura peça de vestuário tradicional do Norte de África e de regiões islâmicas, constituída por uma túnica comprida, larga e de corte recto, geralmente sem mangas e confeccionada em tecido leve, usada sobretudo por homens em climas quentes; pode apresentar decote simples ou decorado e ser usada sobre outras peças ou directamente sobre o corpo.

      Vem do árabe magrebino gandūra, forma do árabe dialectal do Norte de África, relacionada com vocábulos árabes que designam túnicas ou vestes amplas, com possível influência de substratos berberes.

      Assim como temos de corrigir a definir de «albornoz» e esquecer isso de ser árabe ou ser muçulmana, porque não é nem uma coisa nem outra. Assim, proponho ➜ albornoz peça de vestuário tradicional do Magrebe (Norte de África) que consiste num manto comprido de lã, amplo, com capuz pontiagudo e sem abertura frontal, usado sobre o corpo ou sobre outras vestes como protecção contra o frio e as intempéries; por extensão, casaco comprido com capuz ou gola alta e envolvente, de inspiração semelhante.

      Vem do árabe hispânico alburnúz, e este do árabe clássico al-burnus, por sua vez do grego tardio birros (ou birrus), «manto curto com capuz», vocábulo de provável origem latina (birrus), designando uma capa de lã com capuz difundida no mundo romano e bizantino, de onde passou ao árabe e, por via deste, às línguas românicas peninsulares.

[Texto 22 680]

Léxico: «ecossistema»

Tenho dois


      Vou tendo dois ecossistemas aqui em casa: um da Apple e outro, em crescimento, da Huawei. Apesar de banida do Ocidente pelos EUA, porque temiam a crescente qualidade — não por qualquer outro motivo — dos produtos e serviços desta empresa chinesa, a Huawei continuou a inovar e a fazer produtos com que supera, em alguns casos, toda a concorrência. Bem, «ecossistema», nesta acepção, não está em nenhum dicionário e, contudo, encontramo-la a cada passo. Assim, proponho ➜ ecossistema INFORMÁTICA, ECONOMIA conjunto articulado e interdependente de dispositivos, programas, serviços, plataformas e utilizadores organizados em torno de uma mesma empresa, tecnologia ou ambiente digital, funcionando de modo integrado.

[Texto 22 679]

Definição: «antiteatro | teatro do absurdo»

Um erro absurdo


      No domingo, vi na RTP2 um filme italiano, Obrigado, Rapazes, do cineasta Riccardo Milani, de que gostei molto e tanto. Do que já não gostei nem um pouco foi dos erros na tradução. Ah, già, e come posso astrarre da ciò che sono, dalla mia natura e attività? Antonio Cerami, um actor na casa dos 60, não pisa o palco há mais de três anos. Vive do seu trabalho de locução de filmes porno. («Te piace, porcellona.») Um amigo da onça convida-o para ir dar uma oficina de teatro a uma penitenciária (Casa Circondariale – Nuovo Complesso – Velletri). E ele aceita. Aquilo corre bem, pelo que se oferece para dar uma formação mais longa e muito mais ambiciosa: escolhe À Espera de Godot, que fora precisamente a primeira peça em que ele entrara quando se tornou actor e na qual contracenara com o tal amigo. Ao apresentar a peça ao grupo de reclusos, diz, segundo as legendas: «À Espera de Godot é uma obra-prima do teatro absurdista.» E isto repete-se, outra personagem, um dos reclusos, fala também em «teatro absurdista». Que está errado em português, porque é teatro do absurdo, e em italiano, língua em que se diz teatro dell’assurdo. O termo «absurdista» existe em português, sim senhor, mas pertence ao domínio da Filosofia. Desta vez nem sabemos o nome do legendador/tradutor.

      Na Infopédia, encontramos «teatro do absurdo», mas logo por azar com um erro ortográfico («anti-teatro») e outro, mais grave, conceptual, que é o de apresentar o teatro do absurdo como sinónimo de antiteatro, quando aquele é somente uma das formas de antiteatro. Eu definiria assim ➜ antiteatro TEATRO conjunto de práticas e propostas cénicas que rejeitam ou subvertem deliberadamente as convenções estruturais e estéticas do teatro tradicional, como a intriga coerente, a progressão narrativa, a construção psicológica das personagens ou a ilusão de realidade, privilegiando formas fragmentárias, repetitivas ou não lineares e uma relação crítica com o próprio acto teatral; inclui diversas correntes e experiências do século XX, entre as quais o chamado teatro do absurdo.

      Quanto a ➜ teatro do absurdo TEATRO corrente dramática do século XX que, partindo de uma visão da existência humana como desprovida de sentido ou finalidade, recorre a estruturas não lineares, situações repetitivas, diálogos ilógicos ou circulares e personagens despojadas de profundidade psicológica, frequentemente colocadas em contextos estáticos ou absurdos; desenvolveu-se sobretudo na Europa do pós-guerra, em autores como Samuel Beckett, Eugène Ionesco ou Jean Genet, podendo ser entendido como uma das formas de antiteatro, mas não se confundindo com este.

[Texto 22 678]

Léxico: «pilau | pulau | pilaf(e)»

Prefiro «pilaf(e)»


      «Some of the dishes served here reappear, in simpler form, on Eid tables. A pulao often anchors the meal – sometimes an Afghani-style preparation – served with green chicken rizala (with coriander dominating the dish), mutton korma, kebabs and vegetables. There is no singular “Bhopali biryani”; recipes tend to remain familial, shaped over time» («Proof is in the pulao», Barry Rodgers, The Hindu, 21.03.2026, p. 2). 

      Há dicionários que acolhem as três variantes: pulau, pilaf(e), pilau. A Porto Editora só regista esta última, com esta definição: «CULINÁRIA prato de origem oriental feito com arroz salteado em gordura, a que se acrescenta um caldo bem temperado, legumes, carne, peixe ou marisco». 

     Nunca fiz, mas já vi fazerem arroz pulau, e por indianos, não por alentejanos ou minhotos. A impressão que tenho é que pode haver (não há de tudo?) quem o confunda com arroz chau-chau. Proponho assim ➜ pilau, pulau, pilaf(e) CULINÁRIA prato de origem persa e centro-asiática, amplamente difundido pelo mundo islâmico e além, que consiste em cozinhar arroz previamente envolvido em gordura (manteiga, ghee ou azeite) num caldo temperado, totalmente absorvido durante a cozedura; pode incluir carne, peixe, marisco, legumes, frutos secos e especiarias, variando significativamente conforme a tradição regional.

      Quanto à etimologia, pode e deve dizer-se alguma coisa mais, como isto ➜ do persa pilāu / pulāu, provavelmente por via do turco pilav; remotamente relacionado com o sânscrito pulāka, «bola de arroz cozido».

[Texto 22 677]

Definição: «totalitarismo»

Mas ainda assim


      «Des décennies durant, un terme est parvenu à englober les trois grands régimes de terreur et d’oppression qu’a engendrés le XXe siècle: le totalitarisme. Adossés aux analyses de Hannah Arendt, le fascisme, le nazisme et le communisme s’associaient dans ce terme condensant leur ambition présumée de tenir en coupe réglée les populations à travers un contrôle bureaucratique systématique et doté d’instruments de violence sophistiqués. Ces mouvements furent appelés “totalitaires”, dans la mesure où ils étaient considérés comme mus par la volonté de “posséder” l’individu dans sa “totalité”, dans son comportement et dans sa sphère privée» («Le “totalitarisme”, un concept à oublier?», Olivier Meuwly [jurista e historiador especializado na Suíça do século XIX e nos partidos políticos suíços], Le Temps, 23.03.2026, p. 7). 

      Não é um conceito para esquecer, não senhor, antes para definir melhor nos dicionários. Mas vamos lá com calma, o mundo ainda não acabou e os exemplos só podem ser isso, exemplos, já que o conceito não se esgota neles. Há larga margem para melhorar as definições nos dicionários, mas, apesar de tudo, está mais bem definida nos nossos do que nos dicionários brasileiros. Assim, proponho ➜ totalitarismo POLÍTICA sistema de organização política caracterizado pela concentração absoluta do poder no Estado, geralmente sob a direcção de um partido único e de uma ideologia oficial, que visa controlar e mobilizar a totalidade da vida social — política, económica, cultural e privada — mediante propaganda, vigilância e repressão, exigindo a subordinação integral dos indivíduos e das instituições; historicamente associado a regimes como o fascismo italiano, o nazismo alemão e o estalinismo soviético.

[Texto 22 676]

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