Definição: «som»

Ora, ora


      «The real hero behind whatever we hear is something most of us take for granted: air. Sounds are waves – disturbances that move by pushing and pulling air molecules» («On zoos and magnets: the physics behind sounds», Adhip Agarwala [professor auxiliar de Física no Instituto Indiano de Tecnologia de Kanpur], The Hindu, 9.12.2025, p. 37).

      Não é preciso um doutoramento em Física nem cátedra no IIT de Kanpur para saber que o som existe mesmo quando não está ninguém a ouvi-lo. E, no entanto, a Porto Editora define som como a «sensação auditiva produzida por vibrações mecânicas». É certo que depois, noutra acepção, acrescenta «fenómeno vibratório que produz essa sensação», mas o mal está feito, porque a ordem conta, não há hierarquia lógica e a formulação da segunda acepção é vaga. Assim, proponho ➔ som 1. FÍSICA vibração mecânica que se propaga num meio material sob a forma de onda longitudinal e que, no caso da espécie humana, pode ser percepcionada pelo ouvido quando tem frequência compreendida entre cerca de 20 Hz e 20 000 Hz; 2. sensação auditiva produzida pela recepção dessas vibrações no ouvido e pela sua interpretação pelo cérebro.

[Texto 22 474]

Etimologia: «bisonte»

Não começou com o latim


      «Avec les départs vers les stations de ski, Bison futé reprend du service. Le mot vient du germanique wisund et désigne un bœuf sauvage» («Bison», Étienne de Montety, Le Figaro, 16.02.2026, p. 35). 

      A Porto Editora, contudo, afirma que vem do latim. Tem razão Étienne de Montety, que se refere à origem remota da palavra. Um dicionário tem a obrigação de não cortar a cadeia etimológica demasiado cedo e omitir a origem germânica do vocábulo, que, de facto, se pode reconstruir como wisund ou *wisundaz, que designava precisamente o auroque ou um grande bovino selvagem. Foi este étimo germânico que passou ao latim tardio sob a forma bison, bisontis, e daí às línguas românicas.

[Texto 22 473]

Léxico: «laje de transição»

Vamos para as obras


      «Para que esta solução seja possível, teve de se garantir a integridade do aterro, que, devido ao elevado débito de água, acabou por ceder após o rebentamento do dique fluvial. Como explicou ao CM, na altura, o especialista Francisco Branco, o débito de água levou a que o aterro cedesse, partindo depois a laje de transição (uma peça de betão colocada entre o topo do aterro e o tabuleiro da autoestrada)» («Obras na A1 terminadas em duas semanas», Rui Miguel Godinho, Correio da Manhã, 19.02.2026, p. 6). 

      Sendo assim, e porque estou a topar com ela todos os dias, resta-nos dicionarizar ➔ laje de transição ENGENHARIA CIVIL laje de betão armado executada na zona de encontro entre um pavimento ou terrapleno e uma estrutura mais rígida, como uma ponte ou viaduto, destinada a assegurar a passagem gradual de cargas e deformações entre ambos, reduzindo assentamentos diferenciais e descontinuidades no pavimento.

[Texto 22 472]

Léxico: «antitérmico»

Era nisto que devia ter pensado


      «A médica Michelle Wright alertou ao [sic] website HealthFirst para alguns dos riscos da toma excessiva de paracetamol. “O paracetamol é amplamente utilizado como analgésico e antitérmico. No entanto, existe uma linha entre uma dose terapêutica e uma dose tóxica. Ao contrário de alguns outros medicamentos, a sobredosagem de paracetamol nem sempre causa sintomas imediatos”, começa por dizer» («Desafio do Paracetamol: coloca jovens em risco e leva-os para o hospital», Nascer do Sol, 17.02.2026, 8h44, itálico meu).

      Neste sentido, como sinónimo de «antipirético», «antitérmico» é de uso raríssimo. Não é por acaso que em todos os dicionários é a segunda acepção do termo.

[Texto 22 471]

Erros de sempre e para sempre

Mudemos de estratégia


      «A sugestão da Brisa passa por colocar o tráfego do lado da autoestrada que não abateu (Norte-Sul), circulando um sentido em cada via de trânsito entre os quilómetros 189 e 191 (percurso onde a circulação foi cortada, entre os nós de Coimbra Norte e Coimbra Sul)» («Obras na A1 terminadas em duas semanas», Rui Miguel Godinho, Correio da Manhã, 19.02.2026, p. 6). 

      Talvez se nos dirigirmos a cada um deles de forma individualizada aprendam. Caro Rui Miguel Godinho, então não se usa a inicial minúscula nos pontos cardeais nos casos, como este, em que designam direcções? Não, homem, isto nada tem que ver com o Acordo Ortográfico de 1990, já era assim antes, diacho.

[Texto 22 470]

Léxico: «semitorrencial»

É a oportunidade


      «Devido à precipitação, vários rios tiveram mediáticas grandes inundações, nomeadamente o Mondego, o Tejo e o Sado. O rio Mondego, como exemplo, devido às condições climáticas mediterrânicas e à grande altitude do sector proximal da sua bacia hidrográfica, é um rio semitorrencial com grande irregularidade nos caudais anuais e interanuais. Em tempos históricos, estão documentadas muitas grandes cheias; algumas delas atingiram o limite exterior das planícies de inundação (ex. onde foi construída a Igreja de Santa Cruz)» («Porque aconteceu a rotura do dique do Mondego e colapso da A1?», P. Proença Cunha [professor catedrático de Geologia Sedimentar da Universidade de Coimbra e investigador], Público, 18.02.2026, 12h58). 

      Os rios, quanto a este aspecto, podem ser torrenciais, semitorrenciais ou regulares. Ora, o termo nem sequer está dicionarizado, pelo que proponho ➔ semitorrencial HIDROLOGIA diz-se do rio ou curso de água que apresenta regime irregular, com acentuada diferença entre caudais de estiagem e de cheia, respondendo de forma relativamente rápida e intensa aos episódios de precipitação, mas mantendo escoamento permanente ao longo do ano; intermédio entre o regime regular e o torrencial.

[Texto 22 469]

Léxico: «barragem-bateria»

Mais água


      «Este ano foi posta à prova uma novidade no sistema hidroelétrico português que foi usada favor do controlo de cheias: o sistema de bombagem do complexo hidroelétrico do Alto Tâmega, a super barragem-bateria da Iberdrola que está em plena operação desde 2024» («A cota mais baixa na Aguieira que salvou Coimbra, a ajuda de Espanha e a bomba que fez voltar a água para trás. Como foram geridas as cheias», Ana Suspiro, Observador, 19.02.2026, 11h31).  (Vamos por ora fingir que aquele «super» pode andar ali à solta qual passarinho num bosque. Nos cursos de Jornalismo não devem ensinar nada isto.) 

      Embora se use mais a designação «barragem com bombagem», de quando em quando aparece, e é bem-vinda, a ➔ barragem-bateria ENGENHARIA HIDRÁULICA barragem (ou conjunto de barragens) com bombagem reversível, que armazena energia elevando água para um reservatório superior e a devolve à produção eléctrica quando necessário, funcionando como «bateria» do sistema eléctrico.

[Texto 22 468]

Léxico: «forçagem»

Até na agricultura


      «Ainda segundo o GPIAFF [Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários], a “quase totalidade” destes casos “resultou de má utilização por parte das pessoas envolvidas, nomeadamente por entrada ou saída indevidas quando já estava ativo o anúncio de fecho de portas ou por forçagem da abertura da porta”» («Idoso arrastado pelo Metro em Gaia. “Mão não tem espessura” para ativar sistema de segurança», Miguel Marques Ribeiro, Rádio Renascença, 19.02.2026, 10h00).

      Está certo, pois claro, mas, nos dicionários, nada, isto quando até na agricultura se fala no chamado regime de ➔ forçagem AGRICULTURA prática cultural que consiste em provocar artificialmente o desenvolvimento ou a frutificação de plantas fora da sua época normal, mediante controlo de factores como temperatura, luz ou humidade; cultivo protegido ou estimulado em estufa, túnel ou abrigo, com o objectivo de antecipar ou prolongar a produção.

[Texto 22 467]

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