Regência do verbo «atender»

Vejamos


      «Atendendo o desinteresse dos jornais portugueses pela ebulição de um país do Magrebe, adianto sugestões para que satisfaçam os desejos da plebe e, ao mesmo tempo, encaixem uma notícia sobre a Tunísia. Título: “Filha de Djaló e Luciana Abreu não se chama Bizerta”; texto: “O bebé do ano, a filha do sportinguista e da ex-Floribella não vai chamar-se Bizerta, nome de cidade da Tunísia. Por coincidência, o presidente da Tunísia acaba de fugir do país...”» («Sugestões para fugir à distracção», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 16.01.2011, p. 72).
      Parafraseando, «levando em conta o desinteresse dos jornais portugueses, etc.». Qual a regência do verbo atender neste sentido? No Ciberdúvidas, Edite Prada afirma isto: «O verbo atender pode ser transitivo oblíquo, sendo seguido da preposição a  atender a com sentido de considerar, levar em conta, prestar apoio, etc., ou pode ser transitivo directo, no sentido de acolher, receber, etc.» Não é o que concluo da leitura de Francisco Fernandes (Dicionário de Verbos e Regimes. São Paulo: Editora Globo, 36.ª ed., 1989, pp. 106-7). Montexto, pode dizer-nos o que registam a Enciclopédia Portuguesa e Brasileira e Mário Barreto nos Fatos da Língua Portuguesa, esses tesouros inexauríveis?

[Post 4353]

Ortografia: «cor de ferrugem»

Perdulários


      «Um vasto manto de lama, cor-de-ferrugem, engolia casas, árvores, caros» («Tupã: o supercomputador para prevenir tragédias», Vanessa Rodrigues, Diário de Notícias, 24.01.2011, p. 41).
      Poupe os hífenes, senhora jornalista, podem vir a fazer-lhe falta noutra ocasião. Já noutros textos foquei esta questão.

[Post 4352]

Sobre «pdf/pdfs»

Vai ter imitadores


      «O formato da Amazon é simples e leve, pelo que quarenta livros ocupam tanto espaço como um livro em pdf. A grande vantagem deste novo Kindle sobre o anterior é ser fácil carregá-lo de pdfs e lê-los com maior nitidez do que outros leitores de e-books. O meu velho BeBook, lamento dizer, morreu de vez. Bem feito» («Aleluia, Kindle», Miguel Esteves Cardoso, Público, 19.01.2011, p. 35).
       Assim, pdfs, toda grafada em minúsculas, disfarça muito bem o s... Mas trata-se de uma sigla, e as siglas são habitualmente escritas em maiúsculas e sem marca de plural.

[Post 4351]

Linguagem

Boicote original


      Mário Rui Cardoso, no noticiário das 11, na Antena 1, depois de ter ouvido um entrevistado: «Joaquim Ventura, presidente da Junta de Freguesia de Granho, Salvaterra de Magos, uma localidade onde decorre um apelo à abstenção, tal como em Gralheira, concelho de Cinfães, onde a mesa de voto abriu, mas com um boi e uma vaca à porta, o boi e a cote, e o protesto é pela falta de rede de telemóvel.» Talvez nem todos os ouvintes tenham percebido a piada.

[Post 4350]

«Ex-números um»?

Noves fora


      «O nível de ténis exibido ontem na sua estreia no Open da Austrália foi bom, mas faltou qualquer coisa à ex-número um mundial para dar uma alegria aos inúmeros fãs que tem naquela região do globo» («Ex-números um expatriadas do Open», Pedro Keul, Público, 19.01.2011, p. 31).
      Um leitor é que me comunicou a estranheza, e fiquei a pensar. «Ex-números um»? Dizemos mesmo «números um»? Ou diremos antes «números uns»? Não pluralizamos os números?

[Post 4349]

Léxico: «bipé»

Metralhadora MG34 montada no bipé.
Imagem tirada daqui

Não só


      «Ainda de acordo com aquela força policial, a referida metralhadora apreendida encontra-se em estado novo e dispunha de um bipé. Em termos históricos, a MG34 foi usada na Segunda Guerra Mundial como arma de defesa contra tanques e aviões» («Metralhadora rara apreendida em bairro», Público, 19.01.2011, p. 22).
      Nunca tinha visto esta palavra fora dos dicionários. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora está registada: «MILITAR órgão de apoio para o tiro de certas armas de infantaria, constituído por duas pernas em ângulo, que, por meio de uma braçadeira, se ligam à parte anterior do cano.» Mas não está correcto: é especialmente este apoio de certas armas, mas não só: aplica-se a todo o tipo de apoio semelhante.
      Tripé, bipé... Unipé? Não, por acaso não: se precisarmos de o dizer, só temos o vocábulo unípede. É pena.

[Post 4348]

Sobre «imolar-se»

E outros amolam-se


      Vítor Rodrigues Oliveira, no noticiário das 3 da tarde na Antena 1: «Mais duas pessoas imolaram-se em fogo no Norte de África. Uma pessoa no Centro de Marrocos e outra no Saara Ocidental, onde se reivindica a separação do Estado marroquino.» Como quem diz «afogado em leite». Para os Romanos, imolar-se (immolāre) era sacrificar-se a qualquer divindade. O sentido moderno e o que se infere do texto é o de pôr termo à vida, como expiação ou protesto. Podemos imolar-nos pelo fogo, ou seja, podemos sacrificar-nos por meio do fogo, recorrendo ao fogo.

[Post 4347]

Sobre «reporte»

Dispensamos


      A EPAL julgava estar acima da lei. Hoje, José Manuel Zenha, secretário-geral da empresa, veio explicar: «Dos restantes, ao nível das chefias hierárquicas, nomeadamente, e é isso que de certa maneira a comissão de trabalhadores refere, ao nível das chefias hierárquicas, apenas foram abrangidas duas chefias hierárquicas, e nenhuma delas de 1.º nível de reporte. Foi uma do 2.º nível de reporte e outra do 3.º nível de reporte.»
      Pode ser apenas um derivado regressivo do verbo reportar, e por isso sem qualquer influência do inglês, mas ainda não está dicionarizado nesta acepção. Aliás, o verbo reportar também anda mal definido nos dicionários. Pelo menos no excerto das declarações daquele responsável da EPAL, não faz falta nenhuma.

[Post 4346]

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