Léxico: «enfermeira circulante»

Anda por ali


      «Do outro lado da mesa estão Emily, a [enfermeira] instrumentista, Joan, a enfermeira circulante, e Rodney, que parece um homem prestes a ser torturado» (Sábado, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2005, p. 291).
      Em inglês diz-se circulating nurse, e é provável que seja a origem da designação em português. Para saberem mais sobre as funções e atribuições das enfermeiras circulantes, vejam aqui.

[Post 3427]

Léxico: «ambu»

É bom saber


      «Para monitorizar essa transferência, Strauss segura com a palma da mão um pequeno saco, o ambu, através do qual a respiração de Baxter irá passar» (Sábado, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2005, p. 302).
      O ambu é um reanimador ventilatório manual como o da imagem, muito usado em ambiente pré-hospitalar e hospitalar. Alguns dicionários acolhem o vocábulo, mas com outras acepções: fruta silvestre do Brasil e árvore que dá esse fruto. Foi por derivação imprópria que se chegou ao vocábulo, pois inicialmente era somente uma marca, Ambu.

[Post 3426]

«Ser preciso»

É igual


      «É precisa uma raça de adultos extraterrestres para desfazer a desordem geral e depois mandar toda a gente cedo para a cama» (Sábado, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2005, p. 148).
      Aproveito para exemplificar com esta tradução, pois ainda anteontem me perguntaram: nas expressões ser preciso e ser necessário, o verbo fica na 3.ª pessoa do singular e o adjectivo no masculino singular ou, como se vê na citação, a concordar com o sujeito posposto? É indiferente.

[Post 3425]

O Opus Dei

Muito bem


      «“Os cristãos seguem o Papa com um tipo de seguimento que pode confundir ou desiludir a mentalidade moderna”, aponta Pedro Gil, director do gabinete de imprensa do Opus Dei, erigido por João Paulo II como prelatura pessoal, ou seja, que depende directamente do Papa» («Católicos conservadores na linha da frente do apoio ao Papa», Bárbara Wong, Público, 5.5.2010, p. 8).
      Ao contrário do que fazem no Diário de Notícias, no Público optam pelo género masculino, como tenho defendido.

[Post 3424]

Léxico: «fone»

Trabalham pouco


      «Os dois chineses que vão a andar na rua de mão dada estão ligados por um equipamento digital, tendo cada um um fone no ouvido para ouvir o discman» (Sábado, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2005, p. 98).
       É mais uma redução, usada todos os dias, e ainda não chegou aos dicionários. Mesmo a acepção do Dicionário Houaiss é relativa somente ao telefone: «a peça do telefone que se leva ao ouvido; auscultador, auricular». Não sei se os Brasileiros usam o termo, mas já alguém nos dirá. Andamos numa fona de dicionário para dicionário e não encontramos nada. Esperem! O Dicionário Inglês-Português da Porto Editora regista fone como tradução de earphone. Mais um erro: como é que o vocábulo é usado aqui e não está registado no Dicionário da Língua Portuguesa da mesma editora?

[Post 3423]

Léxico: «maiores»

Vai-se ouvindo


      «Vai buscar o correio e os jornais à porta da frente e lê as maiores a caminho da cozinha» (Sábado, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2005, p. 87).
      Não é um adjectivo, não: é um substantivo feminino plural (a par de maiores, substantivo masculino plural, a significar «ancestrais, antepassados; ascendência»), a significar o que toda a gente sabe. Não está, porém, registado em nenhum dicionário, e não será o seu uso informal, aqui trazido para a literatura por uma tradutora, que justifica tal ausência.

[Post 3422]

Dano-chinês ou dinamarco-chinês?

Estranhezas


      Escreve-me um leitor: «A minha dúvida de hoje é: como devo designar uma aliança entre a Dinamarca e a China? Dano-chinesa ou dinamarco-chinesa?»
      Ambas estão correctas. Contudo, para evitar a estranheza por parte do leitor, eu sugeria que não se usasse, embora correcta e registada em alguns dicionários, a forma truncada do adjectivo «dinamarquês». Logo, dinamarco-chinesa. E melhor ainda, tanto mais que a precedência verbal não indicia, não sugere nem cria precedência no mundo dos factos, o que no caso nem se aplica, pois trata-se de uma aliança, e também por ser mais eufónico, sino-dinamarquês. Tudo menos, como já vi, duas formas truncadas.

[Post 3421]

Ainda sobre «ebonite»

O mesmo material


      «Fez uma pequena incisão transversal na parte inferior do abdómen de Rosalind e, com duas tesouras cirúrgicas, retirou um pouco de gordura subcutânea que colocou numa ebonite» (Sábado, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2005, p. 59).
      A tradutora e a revisora são as mesmas, só a época em que a história se passa é diferente: na década de 1930 aqui, em 2003 nesta. Continuo a crer que há aqui um problema lexicográfico, que talvez se pudesse contornar escrevendo «recipiente de ebonite». De qualquer modo, problema já do original, talvez o próprio material, como o leitor Paulo Araujo sugeriu, já nem sequer se use.

[Post 3420]

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