Ortografia: cardeal-patriarca

Não é bem assim

      No caso, cara Luísa Pinto, não estamos de acordo: o caso parece-me abrangido pelo que estabelece a Base XXVIII do Acordo Ortográfico de 1945. E não, não «é coisa dos últimos anos». Aposto que tenho muitos leitores nascidos depois de 1979, ano de que data a obra de onde extraio a seguinte citação: «João Gilberto vê a Isabel a um canto, sentada a ler o jornal, vai ter com ela (vê-se a ir ter com ela). “O pároco de Belém removido das suas funções por decreto assinado pelo cardeal-patriarca de Lisboa”» (Sem Tecto, entre Ruínas, Augusto Abelaira. Lisboa: Livraria Bertrand, 1979, p. 230).

Ortografia

Como se escreve?...

É o segundo vídeo aqui no Assim Mesmo, e tão interessante, por outros motivos, como o primeiro. E tem alguma relação com aquele: foi-me também enviado por Amélia Pais, a quem agradeço. Ainda está para vir o acordo ortográfico que simplifique de facto a maneira como escrevemos.


«Pirilampo»

Divagações entomológicas

      É verdade que há pessoas que não sabem (apesar da campanha!) o que são pirilampos, como pude comprovar recentemente, confundindo-os com gambozinos. (Estou a falar a sério.) Acredito, porém, que é uma minoria. Agora, interessante é ver que «pirilampo» é um composto erudito, grecizante, cunhado nas Conferências Discretas e Eruditas do 4.º conde da Ericeira, D. Francisco Xavier de Menezes (1673-1743), justamente para substituir o popular «caga-lume» (he nome que naõ póde usarse em papeis sérios, justificou o padre Rafael Bluteau). E pirilampo (propozse Pirilampo; achouse affectado) vingou, como se vê pela sobrevivência da palavra.

«Desapontar»?


Aponta e desaponta

Paula Dias, na TSF, 15.30: «A Casa Branca já se mostrou desapontada com estes resultados, mas sublinhou que esta não é uma situação inesperada, dados os problemas que têm afectado a economia dos Estados Unidos.» Cada vez que leio ou ouço a palavra, lembro-me sempre da anedota do indivíduo que, depois de saber que afinal não lhe saíra o Totobola, manda desassar os frangos que mandara assar para festejar… Só não percebo porque é que Rodrigo de Sá Nogueira, no verbete «Desapontamento», manda conferir o verbete «Desinfeliz».

«To estimate»

A esmo

É claro (calma!) que estimar também é avaliar, fazer um cálculo aproximado, mas actualmente, a maioria dos tradutores do inglês quase sempre traduz o verbo inglês estimate por estimar. Já não se calcula nada? Estimo as suas melhoras…

O Opus Dei


Boas obras


      A doutrina divide-se, neste caso. Continuo (opus non est diei unius vel duorum: vide), contudo, a defender a opinião de que se deve dizer o Opus Dei. Apraz-me, pois, que alguns jornais e revistas, como é o caso da Sábado, na edição desta semana, assim escrevam.

Artigo em nomes de localidades

Aguardemos

      «Aí está a Azambuja», escreve Almeida Garrett na obra Viagens na Minha Terra, «pequena mas não triste povoação, com visíveis sinais de vida, asseadas e com ar de conforto as suas casas. É a primeira povoação que dá indício de estarmos nas férteis margens do Nilo português.» Das vinte e uma ocorrências do topónimo, só numa delas (e não será, neste caso, erro, pois que vi numa edição moderna?) o autor não o faz anteceder do artigo definido. Ontem, porém, na Antena 1, o repórter João Rosário omitiu sempre o artigo. Não tenho aqui à mão um azambujense fiável que nos informe de como se diz, mas já aparecerá alguém.

Posição dos clíticos

Ora vejamos

Que influência tem a expressão enfática «é que» na posição dos pronomes clíticos? Um consulente do Ciberdúvidas, Orlando Vedor, que também se me dirigiu, quis saber se é correcto fazer a ênclise (ou seja, pospor o pronome átono à forma verbal) na seguinte frase: «Mas talvez saibas (é da tua área, em sentido lato) porquê essa mistura de fiambre e presunto. É que trata-se do mesmo produto, só em duas modalidades: a cozida e a defumada.»
O consultor, depois de uma divagação e usando de analogia, foi claro: «Neste caso, o pronome átono (ou clítico) fica em posição enclítica, isto é, segue-se ao predicado da oração que começa por “é que”.»
Analogia por analogia, vejamos então com outra frase. A Ana fez o jantar, mas a empregada comeu-o. Está certa, não é? E se introduzirmos a expressão enfática «é que», como fica? «A Ana fez o jantar, mas a empregada é que o comeu» ou «A Ana fez o jantar, mas a empregada é que comeu-o»?
A frase não é minha, mas de Lígia Arruda, na página 102 da Gramática de Português para Estrangeiros, publicada pela Porto Editora, e já aqui recomendada neste blogue. A autora dá-a como exemplo de oração em que ocorre próclise. Assim, esta expressão enfática é, pela presença de «que», sempre proclisadora ou dependerá da natureza do verbo? Em ambas as orações, repare-se, o verbo está flexionado.

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