Léxico contrastivo: «carroçável»

Carroças do século XXI

      «Genilson de Sena Monteiro, 10, acorda por volta das 5 horas da manhã e às 6 horas já está na estrada com o irmão Gerson, 14, esperando o transporte escolar que vai levá-los à Escola Municipal Raul Barbosa, no distrito de Itapeim, em Beberibe. A escola fica a cerca de 20 quilômetros de distância da localidade onde os meninos moram, Lagoa Achada, e o percurso é feito em carro que tem tração porque a estrada é carroçável» («Professores sem instrumentos pedagógicos nas salas de aula», Fátima Guimarães, O Povo, 24.10.2007, p. 10). 
      Não estou a imaginar um jornalista português usar tal termo. No entanto, «carroçável» — «próprio para o tráfego de carros, carroças e outros veículos (estrada carroçável)», na definição do Aulete Digital — é um vocábulo de fácil compreensão. E, trate-se de uma charrete ou de um BMW X5 Security, tem rodas e anda nas estradas. Sim, claro, a jornalista também podia ter usado os vocábulos «praticável», «transitável» ou «viável». E até, se quisesse aborrecer a maioria dos leitores, «pérvio». O Brasil é o último reduto do bom léxico português.

Uma palavra por dia: «soslayar»

Eludir

      «Los socialistas no quieren abrir flancos conflictivos con compromisos cuya rentabilidad electoral es, cuando menos, dudosa y sostienen que la despenalización de la eutanasia “no es una demanda mayoritaria de la sociedad”» («El PSOE soslayará en su programa la eutanasia», G. López Alba, Público, 16.10.2007, p. 25). Soslayar: «Pasar por alto o de largo, dejando de lado alguna dificultad.» Traduzir-se-á, então, por «eludir», «contornar», «evitar».

Léxico contrastivo: «premier»

Primus inter pares

      Decerto devido ao facto de o Brasil ter um regime presidencialista, não se vê sempre, referido a outros países, o vocábulo «primeiro-ministro». Não raro, é premier, vocábulo francês, que é usado. Por vezes, mascarado: «premiê».
      «Os poloneses puseram fim aos dois anos de governo dos gêmeos conservadores Kaczynsky, o presidente Lech e o premier Jaroslaw, período marcado por divisões internas e desacordos com a União Européia, ao votarem massivamente domingo na oposição liberal. Com a apuração de 90,8% dos votos, o partido liberal Plataforma Cívica (PO) obtinha 41,64% das preferências, conforme a comissão eleitoral» («Polônia muda», O Povo, 23.10.2007, p. 27). Se em Portugal se dissesse o mesmo, o nosso interlocutor perguntaria: «Está a desconversar? Eu estou a falar de José Sócrates e você fala-me de palmiers?»

Uma palavra por dia: «restar»

O resto não presta

      «El líder del PP resta importancia al cambio climático mientras el rey recuerda que es uno de los “grandes desafíos”» («Rajoy cree a su primo y no a Gore», M. J. Güemes, Público, 23.10.2007, p. 2). Restar: do latim restāre, significa, no contexto, «diminuir, rebaixar, cercear».

Apostila ao Ciberdúvidas: «relojão»

Relojão, relojão, relojão…

      Londrina, no Norte do Paraná, a terceira maior cidade do Sul do Brasil, tem no topo de um edifício, o Edifício América, um relógio grande, muito grande — tão grande que é chamado o Relojão. O consultor A. Tavares Louro, do Ciberdúvidas, acha que o aumentativo de «relógio» «não tem uso porque não há relógios mecânicos maiores do que aqueles que vemos nas catedrais», opinião que acho absurda, pois, como sabemos, a língua não apresenta esta lógica interna. Os Londrinenses não estão enganados: podem continuar a usar o termo «relojão» para um dos ex-líbris da sua cidade. Se algum dos meus leitores brasileiros conhecer Aline Silva, estudante de Natal, transmita-lhe o recado.
      Duas citações, para mostrar que o termo tem uso no Brasil: «Cheio de gás e louco para arrasar com as gatas, tropeça na malandragem: manga arregaçada em cima do blazer (ele usa, mas ele é Rei), camisa aberta no peito (pior, só se for transparente), relojão de ouro, calça balão, metal no sapato. Descontração elegante pede roupas, cores e acessórios que resultem em uma silhueta bem definida» («Calça, camisa, gravata e ambição», Lizia Bydlowski, Veja, edição n.º 1548, 27.5.1998). «Para compor o cenário da breguice típica das novelas e os núcleos de pobres e ricos, “O Proxeneta” recorre ao repertório kitsch, com destaque para a estética cafajeste: carrão vermelho conversível, cabeleira de galã, blazers, relojão e óculos escuros, cigarro apagado no copo de uísque, merchandising disfarçado em cenas, diálogos em tom teatral» («“O Proxeneta” expõe esgotamento de “Hermes & Renato”», Sérgio Ripardo, A Folha, 12.10.2006).
      O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa em linha regista «relojão». Como regista igualmente «dedão», mas não «feriadão».

Uma palavra por dia: «guinda»

Imagem: http://ginjadobidos.blogspot.com/
Toque de mestre

      «La presidenta de Madrid [Esperanza Aguirre] subió el 11 de octubre otro peldaño en la escalada verbal del PP: “Una norma impuesta por un gobierno es un síntoma de totalitarismo como no se ha visto jamás. Es intolerable”. Para Aguirre, la ley es la “guinda de la legislatura”» («“Es un síntoma de totalitarismo como nunca se ha visto”», Público, 18.10.2007, p. 2). 
      Guinda vem, provavelmente, do germânico *wīksĭna. No contexto, é termo coloquial e significa «cosa que remata o culmina algo». Poderá traduzir-se por «toque final» — o toque dado por uma cereja (na verdade, a guinda corresponde à nossa ginja, Prunus cerasus) no cimo de um bolo. O léxico português também regista o vocábulo «guinda» com o significado de «ginja», embora tenha entrado em desuso. Actualmente, as únicas guindas conhecidas são as cordas para guindar, içar, e a altura dos mastaréus, ambos termos náuticos, do alemão Winde.

Léxico contrastivo: «fraudador»

Baptizar leite

      Em rigor, não há aqui contraste, mas leia-se. «As empresas de laticínios Parmalat e a Cooperativa Agropecuária Ltda. de Uberlândia (Calu) estariam entre os compradores de leite das cooperativas dos Produtores de Leite do Vale do Rio Grande (Coopervale) e Agropecuária do Sudoeste Mineiro (Casmil), segundo a Polícia Federal (PF). As duas cooperativas são acusadas de “batizar” o leite longa vida com substâncias que aumentavam seu volume e disfarçavam suas más condições de conservação» («Presos 26 fraudadores de leite», O Povo, 23.10.2007, p. 11). Directamente do latim fraudator,oris, em Portugal não usamos o vocábulo com a mesma frequência*. Mais facilmente falaríamos em «adulteração» e, eventualmente, «adulterador». (Aliás, o Globo de ontem titulava, sobre o mesmo facto: «Cooperativas são suspeitas de adulterar leite em MG».) Quanto a «ba(p)tizar», dois reparos: não é necessário ser grafado entre aspas, pois é uma das acepções do vocábulo, e não é, como regista o Aulete Digital, um brasileirismo: «Bras. Pop. Adulterar (bebida, combustível, etc.), adicionando água ou outro líquido. [td.: Batizaram o leite, que ficou aguado.]» Entre nós, o Dicionário da Academia dá-o como termo familiar. Neste caso, e ainda segundo O Povo, os adulteradores são suspeitos de ter adicionado ao leite peróxido de hidrogénio (água oxigenada), soda cáustica, ácido cítrico, citrato de sódio, sal e açúcar.

* Há um estudo, dissertação de mestrado, que aborda estes termos: Derivação Nominal em -dor/a e em -deiro/a no Português Europeu Contemporâneo, de Nuno Neves Renca.

Uma palavra por dia: «chabola»

Barracas que são prisões

      «El juzgado de lo Contencioso Administrativo número 20 de Madrid dio ayer la razón a siete familias de rumanos que viven en chabolas de la Cañada Real Galiana: paralizó el derribo de siete viviendas amparándose en el derecho constitucional a una vivienda y que el Ayuntamiento no ha respetado los plazos de alegación» («El juzgado paraliza la demolición de siete chabolas de rumanos», Ramiro Varea, Público, 20.10.2007, p. 2). 
      Chabola vem do basco txabola (o Diccionario de la Real Academia regista 95 vocábulos com etimologia basca) e este do francês geôle (este, por sua vez, provém do baixo latim caveola, diminutivo de cavea). É uma cabana rústica ou uma casa de escassas proporções e pobre de construção, que costuma ser edificada nos subúrbios das grandes cidades. É a típica habitação de bairro-de-lata, construída com tábuas, plásticos e chapas de ferro — e este último material deu nome aos bairros-de-lata também na língua francesa: bidonville (vocábulo que surgiu pela primeira vez no jornal Le Monde, de 9 de Setembro de 1953). Curiosamente, o léxico espanhol também regista o termo «favela», já incluído como americanismo no Diccionario de la Real Academia, mas usado também em Espanha. Titulava em parangonas, na primeira página, o diário espanhol Público: «Explota la favela de Madrid». Em toda a edição, o vocábulo ocorre quatro vezes. Vale a pena transcrever o respectivo verbete do Aulete Digital: «Favela. sf. 1. Bras. Comunidade de habitações modestas, construídas principalmente nas encostas dos morros das áreas urbanas e ger. desprovida de infra-estrutura de urbanização [Esta acp. deriva do top. Morro da Favela, local do morro do Santo Cristo, na cidade do Rio de Janeiro, onde se instalaram, em barracos toscos, soldados retornados da Guerra do Paraguai.].»

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