Léxico: «linha»

Alguma vez tínhamos de olhar para isto


      «É, actualmente, um tratamento de segunda linha, aplicado após o tratamento com imunoterapia contra o cancro urotelial metastático. As recomendações publicadas pela equipa de André Mansinho indicam que devem ser aplicados painéis de testes genéticos o mais cedo possível, mas que, dado ser um tratamento de segunda linha, pode ser avaliado após a primeira linha terapêutica, desde que a resposta seja rápida» («Pode um teste genético acelerar o tratamento do cancro da bexiga?», Tiago Ramalho, Público, 27.05.2026, p. 27). 

      Inglês escondido com rabo de fora, mas, como a ouvimos há décadas e as palavras até são portuguesas, ninguém diz nada — nem os dicionários. Veio claramente do inglês (first-line treatment), mas naturalizou-se com tal facilidade, que já poucos lhes estranham a construção. Está no limbo, como tantas outras. Fazemos uma tentativa? Assim ➠ linha MEDICINA em expressões como «tratamento de primeira linha», «de segunda linha», etc., cada um dos níveis sucessivos de uma estratégia terapêutica, definidos segundo a ordem preferencial de utilização dos tratamentos, medicamentos ou abordagens clínicas disponíveis para determinada doença ou situação médica.

[Texto 23 145]

Léxico: «marquesano»

Não compramos o anacronismo


      «En el lecho de la agonía lo cuidaban unas jóvenes polinesias y a su lado estaba uno de los antropófagos llorando desconsolado, quien al verlo ya muerto le mordió una pierna para que su alma volviera al cuerpo, según sus ritos. Los indígenas rodearon la cabaña. Vistieron el cadáver a la manera maorí. Lo untaron con perfumes y lo coronaron de flores. Un obispo misionero rescató los despojos para enterrarlos en un cementerio católico. Bajo el jergón Gauguin había dejado solo doce francos en moneda suelta. Eso sucedió en Atuona, el 8 de mayo de 1903, a sus 54 años» («La gloria entre los cocoteros», Manuel Vicent, El País, 13.06.2026, p. 43). 

      O papel do cronista moderno deveria ser o de iluminar o mito de Gauguin, e não o de baralhar a geografia e a antropologia para o leitor: os habitantes são os Marquesanos, não Maoris. E não creio que se possa invocar a licença poética. Isso era o que se pensava e afirmava no tempo de Gauguin, não no tempo de Vicent, que é o nosso, século XXI.

[Texto 23 144]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Ofereço-to, Porto Editora, com muita amizade ➠ marquesano adjectivo de 2 géneros relativo aos Marquesanos ou às ilhas Marquesas | nome de 2 géneros indivíduo natural das ilhas Marquesas | nome masculino LINGUÍSTICA língua polinésia oriental da família austronésia, falada pelos Marquesanos das ilhas Marquesas, na Polinésia Francesa. | Marquesanos nome masculino plural ETNOLOGIA povo polinésio indígena das ilhas Marquesas, arquipélago da Polinésia Francesa, cuja presença no território remonta a vários séculos antes da chegada dos Europeus. 

      Quanto à etimologia, vem de Marquesas + -iano, sob influência do francês marquisien, «idem».


Léxico: «justiça transicional / de transição»

Não é por falta de abonações


      «Longtemps journaliste (y compris pour Le Temps), Pierre Hazan s’est par la suite forgé un nom dans la médiation des conflits armés. Œuvrant notamment au sein du Centre pour le dialogue humanitaire, basé à Genève, son travail quotidien consiste à essayer si possible de faire taire les armes, ou à tout le moins d’encourager des formes de justice post-conflit. Une justice “transitionnelle” dans le jargon, susceptible de cicatriser au mieux les plaies afin de ramener de nouvelles chances de coexistence dans des contextes meurtris» («Contre “l’effacement” des Juifs arabes», Luis Lema, Le Temps, 13.06.2026, p. 41).
      Não faltam textos em língua portuguesa em que podemos ler a locução, e por isso está na hora de dicionarizar justiça transicional/ de transição DIREITO conjunto de medidas judiciais e extrajudiciais destinadas a lidar com as consequências de conflitos armados, regimes autoritários ou violações graves dos direitos humanos, promovendo o apuramento da verdade, a responsabilização dos responsáveis, a reparação das vítimas e a reconciliação social.

[Texto 23 143]

Léxico: «descartabilidade»

Homenagem ao Papa Francisco


      «O momento, embora breve, parecia carregado de simbolismo político quase mítico. Xi e Putin caminhavam em direção à Praça Tiananmen, o centro cerimonial da superpotência emergente e um lugar associado à repressão brutal da dissidência pelo regime chinês. Em 1989, num breve momento de euforia, pareceu que o comunismo chinês poderia fazer parte do passado, abrindo espaço ao nascimento de uma nova possibilidade democrática. Depois chegaram os tanques, anunciando o poder eterno e indivisível do Estado e a total descartabilidade da vida dos seus súbditos» («Quem quer comprar a eternidade?», Mark O’Connell, tradução de Joana Henriques, «Revista E»/Expresso, 5.06.2026, p. 16).

[Texto 23 142]

O desgraçado verbo «evacuar»

Por exemplo


      O correspondente do Linguagista na cidade do Porto teve de ir ao Hospital de Santo António. Numa sala de espera (ou seria de subespera, que os dicionaristas continuam a ignorar?), reparou que num aviso afixado numa parede com instruções em caso de incêndio usavam erradamente o verbo «evacuar». Lembrou-se de que o assunto já aqui foi tratado várias vezes — mas não as suficientes. Os responsáveis do hospital devem ter seguido os exemplos errados que a Porto Editora indica no respectivo verbete: «Evacuaram da frente os feridos./ Evacuaram-nos para a retaguarda.» Não se evacuam pessoas (embora os prepotentes, os arrogantes que nos querem comer, se o conseguissem, se deixássemos, tivessem de nos evacuar), evacuam-se espaços. O que podemos fazer com as pessoas é transferi-las, mandá-las para outro lado. No caso dos arrogantes, dos prepotentes, mandá-los prò caralho dar uma volta ao bilhar grande.

[Texto 23 141]

Definição: «bilionário» Léxico: «dongue»

O segredo está na equivalência


      «Elon Musk, el fundador y presidente de Tesla, se convertirá hoy en la primera persona en la historia moderna en acumular un patrimonio superior al billón de dólares gracias al debut en Bolsa de SpaceX» («La salida a Bolsa de SpaceX convierte a Elon Musk en el primer billonario», Jesús Sérvulo González, El País, 12.06.3036, p. 26). 
      Só depois de lermos duas vezes a definição da Porto Editora é que percebemos onde está o erro. Mas erro há. Ora vejamos: «que ou aquele que tem fortuna na ordem dos biliões (de euros, dólares ou outra unidade monetária)». Não resiste à análise. À primeira vista, parece uma definição irrepreensível. Mas basta aplicá-la a uma moeda de grande circulação para surgirem os problemas. Um japonês com um bilião de ienes possui, efectivamente, uma fortuna «na ordem dos biliões» da sua unidade monetária. No entanto, esse montante corresponde apenas a cerca de seis milhões de euros. Ninguém classificaria tal pessoa como bilionária. E o problema torna-se ainda mais evidente se recorrermos ao dongue, a unidade monetária oficial do Vietname. Um bilião de dongues corresponde actualmente a cerca de 33 000 euros. Pela definição da Porto Editora, uma pessoa com um montante equivalente ao preço de um automóvel familiar novo seria bilionária, uma vez que possuiria uma fortuna «na ordem dos biliões» da sua unidade monetária. Absurdo. Logo, a definição é demasiado ampla. 
      Assim, proponho bilionário ECONOMIA que ou aquele cuja fortuna é avaliada em valor equivalente a pelo menos um bilião de euros ou dólares.

[Texto 23 140]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: Ah, sim, vamos precisar do dongue ECONOMIA unidade monetária oficial da República Socialista do Vietname desde 1978, representada pelo símbolo ₫.

Léxico: «dambo | manganja | Manganjas»

Até é mais nosso


      «“Os cientistas não se deixaram abalar pelos atrasos – sempre que ficávamos presos, aproveitavam a oportunidade para pesquisar dambos (campos sazonalmente alagados), florestas pantanosas e zonas húmidas nas proximidades” [Rob Taylor, coordenador da expedição]» («Esta aranha brilha azul e ninguém parece saber porquê (e há mais espécies incríveis para conhecer)», Tom Page, CNN Portugal, 3.06.2026, 10h01). 
      Temos de o acolher, assim dambo GEOGRAFIA depressão pouco profunda, geralmente coberta por gramíneas, juncos e ciperáceas, sujeita a encharcamento ou inundação sazonal, característica de regiões da África Central e Austral, frequentemente situada nas cabeceiras de linhas de drenagem ou em fundos de vale, desempenhando importante papel na alimentação de cursos de água e na conservação da biodiversidade. 
      Quanto à etimologia, vem do inglês dambo, de origem banta, provavelmente do manganja dambo, «zona húmida sazonal; depressão alagadiça».

[Texto 23 139]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: Exactamente, Porto Editora, do manganja LINGUÍSTICA dialecto do nianja falado pelos Manganjas ETNOLOGIA povo banto da África Austral, estabelecido tradicionalmente no actual Maláui e em regiões vizinhas de Moçambique, Zâmbia e Zimbabué, historicamente ligado às rotas comerciais do vale do Zambeze e cuja língua pertence ao grupo nianja-cheua.


Léxico: «joyciano | dantiano | tainiano»

Calmex


      «O humor do joyciano Beckett nunca renegou a vulgaridade, a escatologia, nem o vaudeville, como aquelas calças que caem sem cinto, em “Godot”, mesmo que o cinto tinha sido tirado por razões trágicas» («Oldman Krapp», Pedro Mexia, «Revista E»/Expresso, 5.06.2026, p. 68). 
      Muito curioso... Alguns dicionários, entre os quais o da Porto Editora, prometem dicionarizar brevemente o termo. É uma informação sempre actual: ainda que outro leitor a encontre daqui a seis meses ou a tenha encontrado há três meses. O que estamos habituados a encontrar, e quase todos os dicionários registam, é a variante «joyceano». Mas não temos nós, por exemplo, de Dante «dantiano», e de Comte «comtiano», e de Shakespeare «shakespeariano», e de Taine «tainiano», e de Sade «sadiano»? Pois é. Então, fiquem com esta: o criteriosíssimo VOLP da Academia Brasileira de Letras apenas regista «joyciano».

[Texto 23 138]

Arquivo do blogue