Definição: «latifundismo | minifundismo»

Isso é inaplicável


      A definição de minifundismo da Porto Editora («modelo de organização territorial assente no predomínio dos minifúndios») parece-me inadequada, o mesmo sucedendo com a de latifundismo. A razão é simples: ambas sugerem que estes conceitos se aplicam ao território de um país na sua globalidade, quando, na realidade, designam uma determinada estrutura da propriedade e da exploração agrícola, que pode caracterizar apenas uma região. Portugal constitui um bom exemplo disso. Desde há séculos coexistem no mesmo país dois sistemas fundiários distintos: no Norte e em grande parte do Centro predomina o minifundismo, enquanto no Alentejo predomina o latifundismo. Se seguíssemos as definições da Porto Editora, teríamos de concluir que Portugal possui ao mesmo tempo dois «modelos de organização territorial», o que evidentemente não faz sentido. O que existe são duas estruturas fundiárias diferentes, cada uma predominante em determinadas regiões. Esta distinção é confirmada pelo uso especializado. Num artigo de página inteira publicado no La Voz de Galicia no dia 28 do passado mês de Junho, por ocasião do centenário da lei que acelerou a remição dos foros, fala-se repetidamente do minifundismo galego como uma característica da estrutura agrária da Galiza. Em nenhum momento o termo é utilizado para designar um modelo de organização territorial, mas sim uma forma de repartição da propriedade rural. Creio, por isso, que ambos os verbetes ganhariam em rigor se fossem definidos em função da estrutura fundiária e não da organização do território. Assim, proponho latifundismo sistema (ou regime) de propriedade e exploração agrícola caracterizado pelo predomínio dos latifúndios; minifundismo sistema (ou regime) de propriedade e exploração agrícola caracterizado pelo predomínio dos minifúndios. 

[Texto 23 249]

Definição: «garça-boeira-ocidental»

Só meia linha?


      «Il flotte comme un petit air de Camargue, voire d’Afrique sur le parc Bourget de Lausanne. Non pas en raison de la chaleur caniculaire qui y règne malgré l’ombre bienvenue de ses arbres, mais de par la présence d’une colonie de hérons garde-bœufs (Bubulcus ibis), découverte mercredi soir à Vidy. Une première en Suisse romande que l’on doit à Franck Lehmans et Lionel Maumary, tous deux membres du Cercle ornithologique de Lausanne. Le garde-bœufs, c’est ce petit échassier blanc (90 centimètres d’envergure et 50cm de longueur), trapu, à l’allure voûtée, au cou à la fois court et épais et au bec jaune et robuste qu’on se représente volontiers perché sur le dos d’un buffle africain ou d’un taureau camarguais» («Des hérons garde-bœufs s’installent à Vidy», Frédéric Ravussin, 24 heures, 27.06.2026, p. 7). 
      É a nossa garça-boieira-ocidental, mas que a Porto Editora define insuficientemente: «ORNITOLOGIA (Bubulcus ibis) ave da família dos Ardeídeos». Conseguimos melhor, assim ➠ garça-boieira-ocidental ORNITOLOGIA (Bubulcus ibis) ave pernalta da família dos Ardeídeos, com cerca de 45 a 55 cm de comprimento e 88 a 96 cm de envergadura, de plumagem predominantemente branca, bico amarelo e patas relativamente curtas, frequenta campos, prados, zonas húmidas e áreas agrícolas, alimentando-se sobretudo de insectos e outros pequenos animais, muitas vezes junto de bovinos e outros grandes mamíferos, dos quais aproveita as presas afugentadas pelos seus movimentos.

[Texto 23 248]

Definição: «bidé»

Para evitar confusões


      «We should take a moment to differentiate between the types of bidets you may encounter in the wild. The bidets you’ll see on a trip to Europe are often stand-alone fixtures separate from the toilet seat and look like tiny bathtubs. Those that would involve a bigger plumbing renovation are typically not what we have in the United States. But I see how it is confusing when this is the picture that pops into your mind when we talk about bidets. Instead, in the U.S., the more common variations are a separate handheld nozzle attachment that may rest to the side of your toilet, or a full bidet attachment that rests within the toilet seat. You could also level up and replace the entire seat (or toilet) with a built-in bidet that carries extra features such as a heated seat or air dryer» («From a gastroenterologist, the straight poop on the benefits of using a bidet», Trisha Pasricha, The Washington Post, 6.07.2026, p. D5).
      Pois, o típico bidé norte-americano não é, na definição do dicionário da Porto Editora, a «peça sanitária destinada à higiene íntima e também usada para lavar outras partes do corpo, como os pés». Podíamos discutir se ainda merece, se se adequa a designação «bidé», mas a questão é que nos EUA (e em parte do Canadá) a palavra bidet passou a designar também, e talvez predominantemente, um dispositivo incorporado na sanita (bidet seat, bidet attachment, washlet), devido ao reduzido número de casas equipadas com bidés tradicionais. Sobretudo no que diz respeito à tradução, importava muito dar-se a conhecer isto nos dicionários. Assim, sugiro uma simples nota de uso Em inglês, especialmente no inglês norte-americano, bidet designa frequentemente um dispositivo de lavagem instalado na sanita, e não uma peça sanitária independente, como é habitual na Europa continental.

[Texto 23 247]

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P. S.: Com cara de enterro, mas não a chorar, o primeiro-ministro lá teve de falar da derrota da selecção, que remédio, e, caindo num erro lamentável, afirmou que «agora temos de levantar a nossa moral».


Definição: «excomunhão “latae sententiae”»

Isso não é de certeza


      «Ayer se consumó un cisma anunciado en la Iglesia católica romana, cuando el pequeño grupo ultraconservador de los lefebvrianos, la Fraternidad Sacerdotal San Pío X, ordenó cuatro obispos sin permiso del Papa en una misa celebrada al aire libre en un descampado alpino de Ecône, Suiza. Al hacerlo, tal como les había advertido el Vaticano y el mismo Papa, han caído en la excomunión automática, latae sententiae, es decir, que no necesita de un pronunciamiento explícito» («Los lefebvrianos ordenan a cuatro obispos sin permiso del Papa», Iñigo Domínguez, El País, 2.07.2026, p. 30). 
      É verdade que a registas, Porto Editora, não podes é dizer que a excomunhão latae sententiae é «aquela que é inerente à prática de determinado acto previamente condenado», porque a excomunhão latae sententiae não é uma propriedade do acto, mas um efeito jurídico que decorre automaticamente da sua prática, desde que estejam reunidas as condições previstas pelo direito. É mais assim ➠ excomunhão latae sententiae RELIGIÃO (catolicismo) excomunhão em que se incorre automaticamente pela prática de determinado delito previsto pelo direito canónico, sem necessidade de sentença ou declaração de juiz ou superior eclesiástico.

[Texto 23 246]

Léxico: «líbex»

Um símbolo e é tudo


      «While the world’s coffee drinkers favour Arabica or Robusta, a newly identified hybrid called Coffea x libex (the X denotes its hybrid status) – or just Libex – could be their brew of choice in future» («This hardy coffee hybrid may be your morning cup of the future», Meena Menon, The Hindu, 28.06.2026, p. 10). 
      Assim, além da arábica, da robusta e da (muito menos conhecida) libérica, temos agora líbex adjectivo invariável, nome masculino BOTÂNICA diz-se de ou híbrido de cafeeiro (Coffea × libex), resultante do cruzamento entre Coffea liberica e Coffea dewevrei, que combina características de ambas as espécies, distinguindo-se pela maior resistência ao calor e à seca, pela boa produtividade e pelo potencial para o cultivo em regiões mais quentes.

[Texto 23 245]

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P. S.: Aproveito para chamar também a atenção para um aspecto relacionado com a nomenclatura dos híbridos. Na literatura científica é frequente encontrar-se a grafia Coffea x libex (ou mesmo Coffea X libex), mas, de acordo com a nomenclatura biológica, o sinal correcto é × (símbolo de multiplicação), que indica que o táxon é de origem híbrida. Assim, a forma rigorosa é Coffea × libex. Embora o símbolo × seja o correcto, é muito comum ser substituído, por razões tipográficas ou de comodidade, mas a que o desmazelo não é alheio, pela letra x, uso que se observa inclusivamente em publicações científicas. Por isso, julgo que faria sentido acrescentar ao verbete x uma acepção como esta ➠ BIOLOGIA usado frequentemente em lugar do símbolo ×, que, na nomenclatura científica, indica que um táxon é de origem híbrida. 
Parece-me uma solução preferível à criação de um verbete autónomo para ×, não só porque o consulente procurará naturalmente a letra x, mas também porque o símbolo × não figura na maioria dos teclados, sendo pouco provável que alguém o introduza na caixa de pesquisa do dicionário. Desta forma, o dicionário registaria um uso efectivo e, ao mesmo tempo, ensinaria que a representação tipograficamente correcta é o símbolo ×.

Léxico: «dezasseis-avos-de-final»

Mas é alguma excepção?


      «Portugal empatou (0-0) e vai jogar com a Croácia nos 16-avos-de-final do Mundial 2026. Diogo Costa foi o homem do jogo e Renato Veiga fez uma grande segunda parte» («As coisas boas do jogo com a Colômbia ainda são poucas para quem quer fazer o que ainda não foi feito», Isaura Almeida, Diário de Notícias, 28.06.2026, 4h19). 
      Depois de citar este excerto do artigo, perguntou-me o leitor R. A. se não há ali hífenes a mais. Bem, estão todos a mais, já que aquele jornal foi o primeiro a adoptar a negregada nova ortografia, que prescinde deles nestes casos. Por coincidência, logo de manhã já eu tinha dedicado um momento a reflectir sobre a grafia «16-avos», lida algures. Não aprofundei muito a questão, mas ficou cá o embrião. A pergunta do leitor só veio antecipar o que um dia eu diria. E o que diria é tão-só que é incoerente não escrever o numeral por extenso, como desavisado não levar o termo para os dicionários, assim  dezasseis-avos-de-final DESPORTO numa prova disputada por eliminatórias, fase em que se disputam dezasseis partidas entre trinta e dois jogadores ou equipas.

[Texto 23 244]

Léxico: «santa (de) roca»

Estamos sempre a tempo


      Entrei num antiquário que tinha duas belas santas rocas na montra, mas, como se mostrou claramente um escroque desavergonhado, deixei-lhas lá. Os dicionários deste país católico ignoram totalmente a designação santa (de) roca ARTE RELIGIOSA imagem escultórica de uma santa cuja cabeça e mãos, e por vezes também os pés, são esculpidos, sendo o restante constituído por uma armação de madeira destinada a ser revestida com vestes de tecido e outros adornos.

[Texto 23 243]

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P. S.: Originalmente destinadas sobretudo ao culto público, nomeadamente a procissões e outras cerimónias religiosas, as santas (de) roca vieram também a ser utilizadas em capelas, conventos e oratórios particulares. As vestes, amovíveis, podiam variar conforme a invocação, a festividade ou o tempo litúrgico.


Definição: «geofone»

Tratemos já deste


        «A equipa portuguesa, que integra, entre os 62 elementos, 15 bombeiros, levou para o teatro de operações vários instrumentos de deteção. Neste caso, foi através de um sonar, uma espécie de “raio-x”, que foi possível identificar a presença de Hernán Flores» («Portugueses ajudam a resgatar sobrevivente dos sismos na Venezuela: Hernán esteve soterrado mais de 188 horas», Cláudia Alves Mendes, TSF, 2.07.2026, 14h26). 
      Um sonar... Mais uma simplificação jornalística que só contribui para confundir tudo. Como poderia ser um sonar, se este é um sistema de detecção por ondas sonoras destinado sobretudo ao meio aquático? É algum tipo de detector de sinais vitais. Estas equipas USAR (Urban Search and Rescue) usam muito é geofones, cuja definição a Porto Editora deixou parada no tempo. Actualmente, é mais isto ➠ geofone instrumento ou sensor que detecta e converte em sinais eléctricos as vibrações do solo ou de outras estruturas, utilizado, nomeadamente, em prospecção sísmica, monitorização e operações de busca e salvamento.

[Texto 23 242]

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