Léxico: «Puto»

Houve merda no Puto


      Na sequência do texto que publiquei sobre a provável etimologia do vocábulo «puta», o leitor R. A. recordou-me o uso de Puto como designação coloquial da metrópole portuguesa em Angola, durante a Guerra Colonial. «Tens notícias do Puto?», «Quando vais ao Puto?» ou «Houve merda no Puto!» eram, segundo me escreveu e eu já conhecia, expressões correntes entre muitos militares. A pesquisa que entretanto fiz permitiu-me reunir diversas abonações em memórias de ex-combatentes e outras fontes, o que parece justificar a inclusão desta acepção no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora — antes que a memória viva deste uso desapareça. Algo como Puto HISTÓRIA coloquial designação usada por militares portugueses destacados em Angola durante a Guerra Colonial para se referirem à metrópole portuguesa, isto é, a Portugal continental.

[Texto 23 241]

Etimologia: «biquíni»

Sem esse elo, nada feito


     «Este domingo [ontem] celebra-se o Dia Mundial do Biquíni, data que assinala a apresentação pública da peça criada pelo designer francês Louis Réard, em 1946, na Piscine Molitor, em Paris. Na altura, o modelo foi recebido como uma provocação. Mostrava o que até então era escondido, desafiava regras sociais e colocava o corpo feminino no centro de uma discussão que ia muito além da praia» («E se a guerra puder ser lida pela roupa que os líderes usam? Do bikini ao hijab», Teresa Almeida, Rádio Renascença, 5.07.2026, 8h15). 
      Na etimologia, a Porto Editora não deixa de dizer que vem «de Bikini, topónimo, ilhota do grupo das ilhas Marshall, na zona tropical do oceano Pacífico», mas omite precisamente o motivo por que esse topónimo deu origem ao nome da peça de vestuário. Sem esse elo, a nota fica algo enigmática: por que razão havia um fato de banho de chamar-se biquíni? Assim, proponho ➠ do topónimo Bikini, atol das ilhas Marshall, adoptado pelo estilista francês Louis Réard (1897-1984) para designar a peça por si criada em 1946, em alusão aos ensaios nucleares então aí realizados, evocando o impacto que a nova criação pretendia causar.
[Texto 23 240]

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P. S.: Olha, Porto Editora, aproveita e regista, além do adjectivo e do gentílico, o vocábulo ➠ marshallês LINGUÍSTICA língua austronésia do ramo micronésio, falada nas Ilhas Marshall, de que é língua oficial, a par do inglês. 
Já agora, e antes que alguém repita o disparate recorrente, convém esclarecer que, embora muitas vezes se associe o elemento bi- de «biquíni» ao facto de a peça ser constituída por duas partes, se trata de uma falsa etimologia. O vocábulo deriva integralmente do topónimo Bikini, nome de um atol das ilhas Marshall, sendo bi- apenas a parte inicial desse topónimo. Imagino que todos estejam familiarizados com o conceito de coincidência.

Léxico: «divisa»

Os ambas ou nenhuma


      «Anche il francese Poinsinet de Sivry viene da una famiglia con sette figli, ha 42 anni ed è sacerdote dal 2008. Dal 2022 è Superiore del Distretto della San Pio X del Benelux (Belgio, Paesi Bassi e Lussemburgo). Il suo motto episcopale (cioè la breve frase, generalmente in latino e tratta dalle Scritture, che un vescovo sceglie come programma di vita pastorale) è “Fides vincit mundum”, tratto dalla Prima lettera di San Giovanni: “Tutto ciò che è nato da Dio vince il mondo, e questa è la vittoria che ha vinto il mondo: la nostra fede” («Dal Kansas alla Francia: ecco i nuovi prelati Il sacerdote riminese che guida la Fraternità», Ester Palma, Corriere della Sera, 2.07.2026, p. 2).
      Em português, é divisa [episcopal]. Se se entender que a divisa episcopal já está abrangida pela 2.ª acepção de «divisa» no dicionário da Porto Editora, então também a divisa de um monarca estaria abrangida por essa mesma acepção. No entanto, o dicionário considerou oportuno autonomizar este último uso na 3.ª acepção. Parece, por isso, haver uma assimetria de tratamento: ou ambos os usos devem ser considerados casos particulares da acepção geral, ou ambos justificam uma acepção específica. Para não tirar nada do dicionário, proponho uma definição para esta ➠ divisa RELIGIÃO frase, geralmente em latim e frequentemente retirada da Bíblia, que acompanha o brasão de um bispo e exprime o seu ideal ou programa de vida pastoral; lema episcopal.

[Texto 23 239]

Etimologia: «puta»

Ninguém o defende


      A Porto Editora está claramente a navegar na maionese ao indicar «puto» como étimo de «puta». Não conheço um único estudo etimológico de referência que sustente essa derivação. E não faltam estudos: trata-se de uma palavra comum a várias línguas românicas — português, espanhol, catalão, francês, italiano, entre outras —, com uma longa história e uma forte carga social e cultural, que há muito suscita o interesse de linguistas, filólogos e historiadores da língua. A hipótese mais geralmente aceite faz remontar o vocábulo ao latim vulgar *putta («rapariga; moça»), embora a etimologia continue a ser discutida.

[Texto 23 238]

Léxico: «cardeal-prefeito»

Aproveitemos a oportunidade


      Retomando a mesma notícia, reparem que o jornalista escreveu, e bem, «cardeal-prefeito», como também se pode ler no portal da Santa Sé. Como não se trata de uma combinação ocasional de palavras, mas uma designação oficial de um cargo na Cúria Romana, pois designa o cardeal que exerce as funções de prefeito de um dicastério, deve dicionarizar-se assim cardeal-prefeito RELIGIÃO cardeal que exerce o cargo de prefeito de um dicastério ou de outro organismo da Cúria Romana.

[Texto 23 237]

Léxico: «sagrante | co-sagrante»

Agora é que se fica a saber


      «Os bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, Alfonso de Galareta e Bernard Fellay – respectivamente, sagrante principal e co-sagrante – bem como os bispos recém-consagrados Pascal Schreiber, Michael Goldade, Michel Poinsinet de Sivry e Marc Hanappier, incorreram “ipso facto” na excomunhão latae sententiae reservada à Sé Apostólica, por terem realizado “um ato de natureza cismática”» («Vaticano decreta excomunhão de bispos lefrebvrianos», Henrique Cunha, Rádio Renascença, 2.07.2026, 8h47). 
      O dicionário da Porto Editora até regista «sagrante» (que remete sem mais para «sagrador»), mas, como não acolhe nenhuma acepção específica, proponho sagrante RELIGIÃO diz-se do bispo que preside à sagração de outro bispo, impondo-lhe as mãos e pronunciando a oração consecratória.

[Texto 23 236]

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P. S.: Embora a designação tradicional seja sagração episcopal (e daí bispo sagrante), a Igreja Católica prefere actualmente a expressão ordenação episcopal, por considerar que o episcopado constitui o grau supremo do sacramento da Ordem. Dado que não é mero espectador, convém também dicionarizar ➠ co-sagrante RELIGIÃO diz-se do bispo que, juntamente com o bispo sagrante, participa na sagração de outro bispo.


Léxico: «campeoníssimo»

Mais uma do baú das promessas


      «Ninguém tirará a Ajla Tomljanovic o orgulho de ter derrotado Serena Williams na terceira ronda do US Open de 2022, em três sets, três horas e perante uma plateia de 24 mil pessoas. Contudo, o feito da australiana já não irá figurar na história do ténis como o último da carreira de Serena. A campeoníssima está de volta ao circuito profissional e, após uma breve experiência em pares, regressa aos torneios de singulares pela porta grande, no Torneio de Wimbledon, que amanhã começa no sudoeste [sic] de Londres» («Serena Williams está de volta a Wimbledon», Pedro Keul, Público, 28.06.2026, p. 28).

[Texto 23 235]

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P. S.: É então «no sudoeste de Londres»... E depois também escrevem «a Sudoeste de Londres». Nada que não se veja também nos dicionários, diga-se, e até em livros revistos por curiosos. Quando não se conhecem as regras, só se pode acertar por acaso.


Léxico: «lumeeira | mosca-de-fogo»

Temos de ir para o Brasil


      «Se no final do seminário, algum governante de passagem para telejornais viesse ao chamamento dos holofotes, o repórter não quereria dele senão um testemunho sobre noctiluzes, uma memória de infância sobre lumeeiras, lampírides, moscas de fogo. Será um ministro capaz de cagar lume, como um poeta?» («Noctiluzes, flechas loiras», Fernando Alves, TSF, 1.07.2026, 8h55). 

      Só registas, Porto Editora «lumieira», mas dicionários e vocabulários brasileiros acolhem também «lumeeira». E não se esquecem do sinónimo, por sinal bem criativo, «mosca-de-fogo».

[Texto 23 234]

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