Definição: «sisão»

O verdadeiro


      «Sete organizações ambientalistas alertaram para o risco de extinção a curto prazo do sisão, cuja população em Portugal diminuiu 90% nos últimos 20 anos. [...] A espécie, que já foi abundante nas planícies alentejanas, é hoje cada vez mais rara e difícil de observar, sublinharam» («Sisão está em risco de extinção em Portugal», Jornal de Notícias, 26.06.2026, 20h46). 
      É a primeira acepção no dicionário da Porto Editora, o Tetrax tetrax. O risco de a polissemia poder induzir em erro só seria atenuado se se acrescentasse na 2.ª acepção uma marca de uso, por exemplo, «regionalismo», «popular» ou «menos frequente» — porque o verdadeiro sisão é o da 1.ª acepção, que está, aliás, insuficientemente definido. Assim, proponho ➠ sisão ORNITOLOGIA (Tetrax tetrax) ave estepária da família dos Otídideos, presente em Portugal, sobretudo nas planícies cerealíferas do Alentejo, de plumagem pardacenta, pescoço longo e voo rápido, cujo macho apresenta, na época da reprodução, um característico colar branco e preto; encontra-se criticamente ameaçada em Portugal, devido sobretudo à perda e degradação do habitat agrícola tradicional, à intensificação da agricultura e à expansão de infra-estruturas em meio rural; abetardinha, abetarda-pequena, betarda-pequena.

[Texto 23 233]

Definição: «interoperabilidade»

Quase desmente o conceito


      «Para proceder à certificação de uma linha férrea, a IP tem de recorrer a entidades privadas que atestem a interoperabilidade da infra-estrutura (que nela possam circular vários tipos de comboios, portugueses ou estrangeiros) e a sua segurança. Isso implica analisar não só as várias componentes, como o carril, as travessas, a sinalização, mas também todo o sistema, para ver se está assegurada a interoperabilidade. Para a segurança, é necessário um relatório de uma entidade que faça a análise de risco» («Obra de 460 milhões está parada à espera de certificação», Carlos Cipriano, Público, 30.06.2026, p. 24). 
      Está no dicionário da Porto Editora, mas tem de ser revisto: «1. qualida de interoperável; condição do que pode funcionar em conjunto com outro(s); 2. INFORMÁTICA característica que possibilita a ligação e o funcionamento em conjunto de vários computadores». Tem vários problemas, e o menor deles até é a gralha. O conceito de interoperabilidade é transversal a inúmeros domínios: informática, telecomunicações, saúde, caminhos-de-ferro, defesa, administração pública, etc. Não é cada área que tem uma interoperabilidade diferente; é a mesma propriedade, aplicada a objectos diferentes (sistemas, equipamentos, redes, organizações, aplicações...). A definição tem pelo menos duas fragilidades, que são a circularidade da definição e reduzir a interoperabilidade ao funcionamento em conjunto, quando também implica comunicar, trocar dados e utilizar mutuamente essa informação, preservando a funcionalidade.
      Tudo visto, proponho, numa só acepção, ➠ interoperabilidade capacidade de sistemas, dispositivos, aplicações, redes ou outros elementos distintos comunicarem entre si, trocarem informação e utilizarem-na de forma a funcionarem conjuntamente.

[Texto 23 232]

Atractores da próclise

Ou como se escreve por aí


      «Se o nome de Emuna Mia era já conhecido – até porque foi exposta, em abril, numa reportagem da SIC –, a investigação da Polícia Judiciária revelou o eventual envolvimento dos médicos Pedro Barreira e João Vasco Barreira, gémeos, conhecidos nas redes sociais como ‘Twin Docs’, cujo envolvimento resume-se a nove casos» («Fraude nas reformas beneficiou 182 pessoas», Carlos Rodrigues Lima, Correio da Manhã, 2.07.2026, p. 12). 
      Se falta intuição, dada pelas leituras, se falta estudo, estamos muito mal. É patente que o jornalista nunca ouviu falar em atractores da próclise. Na frase, a presença do determinante relativo «cujo» atrai o pronome «se» para antes do verbo: «cujo envolvimento se resume a nove casos».

[Texto 23 231]

«Quer-la», de novo

Há sempre quem saiba


      «A chave do autocarro está no meu bolso. (Bate no bolso com fúria.) Aqui, aqui mesmo, no meu bolso! Quer-la? Experimenta tirá-la, meu gorducho!» (A Noite da Iguana, Tennessee Williams. Tradução de Idalina S. N. Pina Amaro. Colecção «Os livros das três abelhas». Lisboa: Publicações Europa-América, 1965, p. 79).

[Texto 23 230]

Léxico: «formiga-fantasma»

Também hóspede recente


      A mesma empresa refere igualmente a ➠ formiga-fantasma ZOOLOGIA (Tapinoma melanocephalum), formiga exótica, muito pequena, de cabeça escura e patas e abdómen pálidos ou translúcidos, frequente em ambientes húmidos no interior de edifícios. A espécie foi registada recentemente em Portugal.

[Texto 23 229]

Léxico: «aranha-reclusa-chilena»

Tem cuidado, Porto Editora


      «A aranha-reclusa-chilena, cientificamente designada Loxosceles laeta, foi identificada na cidade do Porto, tornando-se a primeira ocorrência conhecida desta espécie na Península Ibérica. [...] A primeira observação ocorreu de forma casual a 10 de setembro de 2025, quando um macho foi encontrado numa parede no Campo dos Mártires da Pátria, no Porto» («Descoberta nova espécie de aranha venenosa em Portugal», Fábio Monteiro, Rádio Renascença, 1.07.2026, 18h26). 
      Claro que o título está errado, já que não se trata de uma espécie nova. Assim, proponho ➠ aranha-reclusa-chilena ZOOLOGIA (Loxosceles laeta) aranha nativa da região ocidental da América do Sul, de coloração castanha, pernas longas e finas e hábitos nocturnos, que se abriga habitualmente em fendas e recantos de habitações e cuja mordedura, embora pouco frequente, pode provocar necrose dos tecidos e outros efeitos graves; aranha-violinista-chilena.

[Texto 23 228]

Léxico: «formiga-do-fogo | desformigar | desformigação»

Cidade e formiga invictas


      Porto Editora, se precisares de uma empresa que preste serviços de desformigação, tens aí em Vila Nova de Gaia a Desipest. A primeira espécie que a empresa menciona na sua página na internet é a ➠ formiga-do-fogo ZOOLOGIA formiga de espécies do género Solenopsis, de coloração geralmente acobreada ou avermelhada, que vive em colónias numerosas, constrói ninhos em montículos de terra e pode reagir agressivamente quando perturbada, infligindo ferroadas dolorosas que causam sensação de queimadura.

[Texto 23 227]

Definição: «bilionário»

Mas é preciso mais?


      Não seria necessária, mas eis mais uma prova de que a definição de «bilionário» da Porto Editora está errada: «O Relatório Global da Riqueza, que contabiliza anualmente os indivíduos com mais de 1 milhão de dólares (878 mil euros) em 56 mercados, concluiu que a riqueza média por adulto se fixou em Portugal, no ano passado, em 195 761 dólares (cerca de 172 mil euros)» («Portugal tem 181 mil milionários», Raquel Oliveira, Correio da Manhã, 1.07.2026, p. 8).

[Texto 23 226]

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