Léxico: «pitom/ pitão/ trava»

Então, são três


     «A la mi-temps, Dassler dévissa les crampons pour les remplacer par d’autres, plus longs, qui permirent ensuite aux joueurs allemands de mieux tenir sur la pelouse et de renverser les Hongrois, invaincus depuis trois ans» («1954: l’innovation, mère de toutes les conquêtes», Laurent Favre, Le Temps, 11.06.2026, p. 17). 
      Também usamos o termo crampom/crampão, mas reservámo-lo para o calçado de montanhismo. Nós usamos pitom/pitão, mas a Porto Editora esqueceu-se de registar o primeiro, seguramente o mais usado, além de que define mal o segundo: «peça cónica ou pontiaguda existente na ponta da frente de alguns sapatos desportivos». Muitos pitons modernos não são cónicos nem pontiagudos: existem modelos cilíndricos, laminares, triangulares, elípticos, em forma de seta, etc. Logo, a forma não é o traço distintivo. Por outro lado, os pitons distribuem-se pela sola. Há pitons na parte anterior e na parte posterior da chuteira. Aliás, os do calcanhar são essenciais para a estabilidade e a tracção. Já quanto a ser «de alguns sapatos desportivos», a formulação parece-me demasiado vaga. O uso normal refere-se sobretudo a chuteiras. Além disso, a expressão «sapatos desportivos» faz pensar em ténis de corrida, de basquetebol ou de ténis, nos quais não se usam pitons. Acresce que, não apenas não acolhe, como vimos, «pitom», como também esquece o sinónimo «trava». 
      Assim, tudo visto e ponderado, proponho para esta acepção ➠ pitom/pitão/trava DESPORTO cada uma das saliências fixadas ou moldadas na sola de algumas chuteiras para aumentar a aderência ao terreno.

[Texto 23 153]

Léxico: «pteruges»

O equipamento completo


      Fez muito bem aqui um tradutor, e um dos mais criteriosos, em escrever pteruges, assim mesmo, sem itálico. Porque é usado noutros textos, sobretudo de cariz histórico, em português, porque a sequência inicial pte-, embora rara, não nos é desconhecida, e porque faz falta. No nosso imaginário, e talvez ainda mais no meu, que estudei Latim, tinha os manuais, a gramática, os textos de apoio, há três elementos imediatamente associados ao soldado romano: o capacete, as cáligas e os pteruges. Assim, proponho pteruges nome masculino plural HISTÓRIA conjunto de tiras protectoras, geralmente de couro, suspensas da cintura ou dos ombros da armadura dos soldados da Antiguidade, sobretudo romanos, destinadas a proteger as virilhas, as ancas e a parte superior das coxas sem restringir os movimentos.

[Texto 23 152]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: Porto Editora, agora, para tudo estar bem, tens de levar a nova definição de «almadraba» para o verbete de «almadrava».


Léxico: «fotóstato»

Antes das fotocópias


      «Eram fotóstatos de fraca qualidade. A máquina fora ligada com pouca definição, os originais tinham sido enfiados lá dentro à pressa e tortos.» Pois, Porto Editora, não o tens. Assim, proponho ➠ fotóstato 1. aparelho de reprodução fotográfica de documentos, antecessor das modernas fotocopiadoras; 2. cópia fotográfica de um documento ou desenho obtida por meio desse aparelho.

[Texto 23 151]

Definição: «fasciolose»

Até para se saber do que se trata


      Apareceu-me aqui um carneiro com fasciolose e morreu. Numa tradução, valha-me Deus, não cá em casa. Cá em casa, só tenho o meu gato, prestes a fazer seis anos e agora menos selvagem. Que tem problemas recorrentes na pele, é verdade, mas acaba sempre por se curar. Ora, Porto Editora, se a fasciolose é muito mais frequentemente tratada como problema veterinário do que como problema médico humano, é melhor, até para dizermos mais do que o estrito mínimo, assim ➠ fasciolose MEDICINA, VETERINÁRIA doença parasitária do fígado e das vias biliares causada por tremátodes do género Fasciola.

[Texto 23 150]

Definição: «cepticismo/pirronismo»

Qualquer assunto não, caramba


      «El primer gran escéptico fue Pirrón de Elis o Élide, que planteó las dificultades del conocimiento, el problema del juicio y muchas otras cosas más de forma pionera. Fundador de esta corriente de larga duración, es una figura fundamental para la escuela escéptica, que pone en duda el criterio y el juicio, y llega a suspenderlo para llegar a la tranquilidad o ataraxia, de manera semejante al estoicismo y al epicureísmo. A lo que anima el escéptico Pirrón es a carecer de turbación y pasiones en un legado que luego reivindicará Sexto Empírico en la edad romana» («Pirrón: que la vida te sea indiferente», David Hernández de la Fuente, La Razón, 15.06.2026, p. 46).
      Tão fundamental, de facto, que «cepticismo» é sinónimo de «pirronismo». Sinónimos, mas se consultarmos os verbetes no dicionário da Porto Editora, vemos que não dizem o mesmo, e a diferença não é formal, mas substancial: em «pirronismo», não encontramos a estranha referência às duas teses opostas. Um pirrónico não diria que duas teses opostas são ambas verdadeiras; diria antes que dispomos de razões de força equivalente para sustentar uma e outra, precisamente o que conduz à suspensão do juízo. A formulação da Porto Editora simplifica excessivamente a doutrina. O núcleo do pirronismo, segundo os especialistas, é a equipolência dos argumentos e a consequente suspensão do juízo, pelo que tem de estar explícito na definição. Mais: não é «sobre qualquer assunto», demasiado absoluto, o que os faria parecer mais totós do que filósofos. Os pirrónicos suspendiam o juízo sobretudo sobre questões não evidentes. 
      Tudo visto, proponho, com remissões mútuas no corpo da definição, ➠ cepticismo/pirronismo FILOSOFIA doutrina do filósofo grego Pírron de Élis (c. 365-275 a. C.), que preconizava a suspensão das opiniões e dos julgamentos perante a dificuldade de alcançar um conhecimento seguro da realidade; fundamenta-se na ideia de que, relativamente a uma mesma questão, podem ser apresentados argumentos de força equivalente em defesa de posições opostas, o que impede uma decisão definitiva sobre a verdade das coisas.

[Texto 23 149]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: Também recomendo vivamente que no verbete de «pirrónico» apareça alguma referência ao cepticismo, para o leitor não ter de tentar adivinhar. Podia ser assim: ➠ pirrónico FILOSOFIA relativo a Pírron de Élis (c. 365-275 a. C.), filósofo grego, ou à sua doutrina, o pirronismo ou cepticismo.


Léxico: «agnático»

Temos de fazer o mesmo


      «Tal como acontece noutras monarquias, o Japão ainda tem a chamada sucessão agnática (que exclui as mulheres do trono). O enredo complica-se porque o país já teve imperatrizes reinantes no passado: oito mulheres soberanas ocuparam o trono até que surgisse um herdeiro masculino, e duas delas repetiram a proeza. Isso foi, porém, entre os séculos VI e XVIII, ou seja, o Japão nunca teve uma imperatriz moderna, nomeadamente nos 79 anos em que a atual Constituição esteve em vigor» («Princesa para sempre», Mara Tribuna, «Revista E»/Expresso, 5.06.2026, p. 33). 
      Se nos ficássemos pela consulta do dicionário da Porto Editora, concluiríamos que estava errado: «relativo a agnatia (ausência congénita do maxilar inferior)». E, efectivamente, dantes não se dizia senão «sucessão agnatícia». Agora, porém, já não é assim, e nos dicionários brasileiros uma das acepções de «agnático» remete para «agnatício». Temos de fazer o mesmo.

[Texto 23 148]

Léxico: «polvo-comum»

Se é comum, não temos


      «A espécie em causa é o polvo-comum (Octopus vulgaris), nativa das águas britânicas, embora habitualmente observada em números reduzidos. Os especialistas explicam que a conjugação de invernos mais amenos e primaveras mais quentes favorece a sua reprodução, tendência que se tem intensificado devido às alterações climáticas» («Explosão de polvos nas águas do Reino Unido chega à Escócia e preocupa cientistas», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 11.06.2026, 12h51). 
      É verdade que no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora podemos ver um verbete de polvo-vulgar (tradução directa do nome científico), que também está correcto, mas temos de acolher todos os nomes comuns.

[Texto 23 147]

Definição: «pedra seca»

Chegou a ocasião propícia


      «A arte da construção dos muros de pedra seca, tradicional no Maciço de Sicó, já faz parte do Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial (INPCI). De acordo com despacho publicado em Diário da República, a inscrição desta técnica foi aprovada pelo Património Cultural, Instituto Público» («Muros de pedra seca no património nacional», Diário de Coimbra, 7.06.2026, 14h01). 
      Como veremos de seguida, «pedra seca» designa duas coisas distintas mas relacionadas, mas na sua definição no dicionário da Porto Editora não se acerta em nenhuma delas: «pedaço de matéria rochosa aplicada sem argamassa na construção de muro, parede, etc.». O nome designa quer a técnica quer o resultado, não o elemento construtivo utilizado. Assim, proponho  pedra seca técnica construtiva que consiste na justaposição e no encaixe de pedras, sem recurso a argamassa ou outro material de ligação, utilizada sobretudo na construção de muros, paredes e estruturas de suporte; construção assim realizada.

[Texto 23 146]

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