Léxico: «estação-base»

Um ano depois do apagão


      «“O envio de SMS foi iniciado às 17h15, com difusão efetiva apenas a partir das 20h00, quando parte significativa das estações-base já operava sem energia de rede; a taxa de entrega ficou abaixo dos 50%, tendo a rádio desempenhado um papel supletivo relevante”, pode ler-se no relatório» («Apagão: Relatório elaborado pelo PSD aponta falhas “graves na comunicação” e pede 72 horas de autonomia para infraestruturas críticas», Manuela Pires, Rádio Renascença, 26.04.2026, 6h00 ). 

      Dada a sua ausência dos dicionários, proponho ➜ estação-base TELECOMUNICAÇÕES instalação fixa de radiocomunicações, constituída por equipamentos emissores e receptores (nomeadamente antenas), que estabelece a ligação entre terminais móveis (como telemóveis) e a rede de telecomunicações, assegurando a cobertura de uma determinada área geográfica («célula») e o encaminhamento de chamadas ou dados.

[Texto 22 883]

Léxico: «papel manila»

O costume


      A tradutora achou que seria «manilha», o que me leva a propor, antes que vejam a luz mais disparates (e porque até o tens em bilingues, Porto Editora), proponho ➜ papel manila tipo de papel espesso, resistente e geralmente de cor amarelada ou acastanhada, usado sobretudo no fabrico de envelopes e pastas de arquivo; deve o nome à antiga utilização de fibras provenientes de Manila, nas Filipinas, embora hoje seja produzido com outras matérias-primas.

[Texto 22 882]

Léxico: «esqueletizado»

A beleza do mecanismo


      Só tenho um relógio esqueletizado, um Hruodland Pilot, um excelente relógio mecânico chinês com uma reserva de marcha de 72 horas. O que vejo é que esta acepção tão específica do termo não está nos nossos dicionários, pelo que proponho ➜ esqueletizado RELOJOARIA diz-se de relógio, ou do respectivo movimento, cujas placas e pontes foram recortadas ou vazadas, de modo a tornar visíveis os componentes internos (rodas, molas, balanço, etc.), através do mostrador, do fundo ou de ambos, sem comprometer o funcionamento.

[Texto 22 881]

Como se traduz por aí

Falsos amigos para falsos tradutores


      «He picked up his service pistol, a 9 mm Walther P38, from the dressing table, checked the action, and slotted it into his holster.» Para o tradutor, é «verificou a acção», sem dedicar meio segundo a pensar se isso fazia sentido.

[Texto 22 880]

Definição e etimologia: «Eleutérias»

Ainda bem que isto apareceu


      «“Eleutéria”, que em grego – eleuthería – significa “liberdade” estará exposta no cruzamento da Avenida da Liberdade com a Rua Barata Salgueiro. A peça foi desenvolvida em parceria com o designer Nuno Lacerda e representa, de forma simbólica, a instabilidade de regimes autoritários» («“Eleutéria”: a cadeira que “nasceu para cair” marca o 25 de Abril em Lisboa», Teresa Almeida, Rádio Renascença, 25.04.2026, 10h20, itálico meu).

      É como a jornalista diz, o grego ἐλευθερία (transliterado eleuthería) é o substantivo que designa «liberdade», «condição de ser livre», tanto no plano político como pessoal. Deriva do adjectivo ἐλεύθερος (eleútheros), «livre». Não temos o nome comum, mas a Porto Editora regista Eleutérias, as «festas em honra de Júpiter libertador, para comemorar uma vitória ou a expulsão de um tirano», mas não é bem, bem assim, porque não se restringiam ao contexto romano; porque não eram sempre para comemorar uma vitória ou a expulsão de um tirano, eram antes celebrações da liberdade, frequentemente associadas a vitórias, sim, mas não redutíveis a essa fórmula; porque a referência a Júpiter libertador é enganadora. Assim, proponho ➜ Eleutérias festividades da Grécia antiga, especialmente as de Plateias, celebradas em honra de Zeus Eleutérios («Libertador») para assinalar a vitória sobre os Persas (479 a. C.) e a consequente libertação, com carácter comemorativo e agonístico. 

      Quanto à etimologia completa, passa por explicar que vem do grego Ἐλευθέρια (Eleuthéria), plural substantivado de ἐλευθερία (eleuthería) «liberdade», termo que designa, por extensão, festividades associadas à libertação; passou ao latim como Eleutheria, -orum, nome de festas comemorativas, donde o português erudito «Eleutérias». 

[Texto 22 879]

Sobre «palestino»

Princípio de Muphry, é isso 


      «Causou polémica a afirmação da comentadora da SIC, Maria João Tomás, de que Jesus era “palestino”. Na língua portuguesa, dizer que um palestiniano é “palestino” equivale a designar um francês como ‘franço’, ou um português como ‘portuga’. Mas não se pode exigir que uma professora universitária domine a própria língua. Sobretudo quando domina algo muito mais importante: a solução dos problemas mundiais» («Jesus até foi islâmico – e votaria em Seguro», João Cerqueira [escritor], Nascer do Sol, 30.01.2026, p. 41). 

      Eu não sei como não cai o céu quando se fazem afirmações tão estúpidas. Só ali as vírgulas a isolarem o nome da comentadora da SIC já dizem muito sobre o domínio da língua. Vamos lá ver: não se tem de ter sempre um cuidado acrescido quando estamos a fazer uma crítica? Então e não havia a porra de um dicionário, de um vocabulário, de uma enciclopédia, a internet? Veja se não encontra «palestino»/«Palestinos» imediatamente a seguir a «palestiniano»/«Palestinianos» na página 746 do Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves. Em todos os dicionários, aliás. Também não deixa de me espantar que nos jornais se publiquem textos deste jaez. Há-de dizer-se que decorre da mera liberdade, mas no caso parece mais que é dar corda para alguém se enforcar. Em última instância, no entanto, quem se lixa sempre são os leitores, que pagaram e têm de ler estes disparates e que, em alguns casos, por falta de preparação, por falta de discernimento, os vão repetir. 

[Texto 22 878]

Léxico: «barquinha»

Não só as dos aeróstatos


      Na semana passada, uma empresa de arboricultura em meio urbano, escalada e poda selectiva de árvores ornamentais, árvores de grande porte e árvores monumentais, a Árvores & Pessoas, andou aqui na avenida a tratar de todas as árvores. Entre os diversos equipamentos, usavam aquelas plataformas chamadas ➜ barquinha designação corrente de dispositivo elevatório instalado sobre viatura, constituído por braço articulado ou telescópico que sustenta uma pequena plataforma ou cesta destinada a elevar pessoas para trabalhos em altura (manutenção eléctrica, poda, telecomunicações, etc.), podendo atingir vários metros de elevação; no uso técnico, a designação refere-se mais estritamente à própria cesta.

[Texto 22 877]

Definição: «optoelectrónica»

Weniger Licht!


      Viram bem: a a optoelectrónica não é só a «disciplina que estuda e desenvolve tecnologia eletrónica capaz de interagir com luz». Demasiado vaga. E mal orientada: «interagir com luz» diz muito pouco e pode abranger praticamente tudo, do sensor mais rudimentar a um simples interruptor fotoeléctrico. Não pode ser. Falta-lhe o núcleo conceptual da área. Assim, proponho ➜ optoelectrónica TECNOLOGIA ramo da ciência e da engenharia que estuda e desenvolve dispositivos e sistemas que convertem radiação luminosa em sinais eléctricos, e vice-versa, incluindo a sua detecção, emissão e modulação, com aplicações em comunicação, medição, imagem e controlo. 

      O caso obriga-nos a dizer o contrário de Goethe: não mais luz, mas menos luz. Que foram, bem sei que sabem, as derradeiras palavras de Goethe; mas esperemos que não venham a ser as nossas últimas: ainda fazemos falta a muita gente. Muita não; alguma.

[Texto 22 876]

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