Definição: «electrocromismo | electrocrómico»

Não é tanto a cor, não


      Ontem vi o filme Dias Perfeitos, de Wim Wenders. O protagonista, Hirayama, sai todos os dias de casa com um sorriso nos lábios, e isto quando é mero empregado de limpeza de casas de banho públicas em Tóquio. Até parece leitor do nosso José Tolentino Mendonça: «Chegará o momento em que compreenderemos que sabedoria é amar tudo. É saudar os dias sem esquecer a importância das horas» (in Para os Caminhantes Tudo É Caminho, Lisboa: Paulinas, 2026). Ora, algumas daquelas casas de banho são totalmente de vidro. Fazem parte de um projecto em Tóquio, mais concretamente em Shibuya, promovido pela Nippon Foundation, para tornar os sanitários públicos mais transparentes, literalmente, quanto à limpeza e segurança. Ao entrar, o utilizador gira o fecho interior e os vidros tornam-se opacos no mesmo instante. A este vidro inteligente dá-se o nome de electrocrómico, ou PDLC (de polymer dispersed liquid crystal). Como funciona isto, quase magia? O vidro tem uma camada interna com cristais líquidos dispersos. Quando não há corrente eléctrica, esses cristais estão desorganizados → a luz espalha-se → o vidro parece opaco (leitoso). Quando se aplica corrente, os cristais alinham-se → a luz passa directamente → o vidro fica transparente. 

      Agora a definição de «electrocrómico» no dicionário da Porto Editora: «que sofre mudança reversível de cor em resposta a estímulo eléctrico». Pois, não é verdade. Em causa estão alterações das propriedades ópticas — cor, transparência, opacidade, absorção de luz — em resposta a um estímulo eléctrico. Há logo aqui um problema, prévio, que se repete em inúmeros verbetes: se o núcleo conceptual está em «electrocromismo», que é o fenómeno, para que estamos a carregar a definição do adjectivo relacional correspondente? Não faz sentido. Assim, proponho ➜ electrocromismo FÍSICA, QUÍMICA fenómeno pelo qual certos materiais apresentam variação reversível das propriedades ópticas sob acção de um estímulo eléctrico, geralmente por efeito de processos electroquímicos internos | ➜ electrocrómico FÍSICA, QUÍMICA relativo a electrocromismo; que manifesta electrocromismo.

[Texto 22 859]

Definição: «síndrome de Tourette»

Nem oito nem oitenta


      «Los tics se agravaron y a los 14 años le diagnosticaron síndrome de Tourette, trastorno neurológico crónico caracterizado por tics motores y vocales involuntarios, rápidos y repetitivos, que se inician antes de los 18 años» («Un marcapasos cerebral para liberar a Josep de sus insultos descontrolados», Esther Armora, ABC, 22.04.2026, p. 58).   

      Este sofria de coprolalia. Como eu argumentei, se apenas 10 % dos que sofrem desta síndrome têm coprolalia, não pode ficar na definição, como fazia a Porto Editora. Porque isso, afinal, não sendo definidor, é o mais estigmatizante. A Porto Editora acedeu, concordou, mas reduziu-a demasiado. É esse mesmo, aliás, o problema de muitas definições dicionarísticas, que, ao quererem ser demasiado genéricas, acabam por perder precisamente estes traços distintivos que a jornalista não omitiu. Assim, proponho ➜ síndrome de Tourette MEDICINA perturbação neurológica crónica caracterizada pela presença de tiques motores múltiplos e de pelo menos um tique vocal, involuntários, rápidos e repetitivos, com início na infância ou adolescência (antes dos 18 anos), podendo variar em intensidade e associar-se a outros distúrbios comportamentais ou neuropsiquiátricos.

[Texto 22 858]

Oh diabo!

Assim começamos


      «Mazouco é uma aldeia portuguesa, mas parece espanhola. O habitante liga para o 112 e atendem do país vizinho. O regulador diz que não há incumprimento das operadoras. Ó diabo...» («Sobe & Desce», Correio da Manhã, 21.04.2026, p. 3). 

      Falam muito, mas interjeccionam mal. Na verdade, e ao contrário do que se lê num dicionário de certa academia, é de uma locução que se trata — oh diabo —, ocorre mesmo esta fusão para a expressão de um significado único, usada perante um acto de certa gravidade, exprimindo espanto, censura, recordação súbita de um acto a realizar, etc. Logo, sem vírgula. A Porto Editora não se quis comprometer e nada diz sobre isto. «— Oh diabo! Ao futebol não costumo ir, não. Mas, se fazes muito empenho em ir, arranjo-te um bilhete, se me prometeres ir lá co’uma rapariga séria, claro» (Futebol, Hugo Rocha. Lello & Irmão Editores, 1957, pp. 245-46).

[Texto 22 857]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Poderão ser muito diferentes em tudo o resto, mas Andrea Neves, Eduarda Maio e José Carlos Trindade, da Antena 1, mostraram hoje de manhã ser exactamente iguais numa coisa: ignoram que nem todos os nomes de países são antecedidos de artigo, e entre estes está Chipre. Assim, Andrea Neves, Eduarda Maio e José Carlos Trindade, os chefes de Estado e de governo da União Europeia iniciam hoje em Chipre uma cimeira informal de dois dias, que dirigirá essencialmente a atenção para a guerra no Médio Oriente e incluirá um encontro com parceiros na região. Agora só para Eduarda Maio: não diga que a sua colega está a falar «a partir de Nicósia», mas «de Nicósia». Agora só para José Carlos Trindade: devia preferir, por vários motivos, «trovejar» a «trovoar».


Léxico: «emagrecedor»

Despeço-me com amizade até ao próximo programa


      «Anvisa restringe importação de emagrecedores do Paraguai em meio a pressão política», Mateus Vargas, Folha de S. Paulo, 21.04.2026, p. A28).

[Texto 22 856]

Sorbona, pois claro. Léxico: «igualizador»

Sejamos minoria


      Por vezes, o nome esconde a origem: estava escrito que um dia (que por acaso é hoje) saberiam que o nome Sorbonne (ou Sorbona, aportuguesado) para designar a célebre universidade de Paris era inicialmente o nome de um colégio (collegium) fundado em 1250 pelo teólogo Robert de Sorbon (1201-1274). Desde o século XIV este veio a ser a sede da faculdade de Teologia. Só no início do século XIX o nome se estendeu a toda a universidade. 

      Se puderem, se a mamã deixar, escrevam sempre Sorbona, só para contrariar a imparável vaga igualizadora: «Contra os ataques da Sorbona, Francisco I abriga os humanistas do Collége Royal, e a própria universidade é atingida pelo vírus: em 1533 o seu reitor Nicolau Cop, amigo de Calvino, pronuncia um discurso inaugural em que defende teses heterodoxas, com tal escândalo que teve de abandonar o cargo e refugiar-se em Basileia» (O Humanismo em Portugal, António José Saraiva. Lisboa: Edição do Jornal do Foro, 1954, p. 37).

[Texto 22 855]

Definição: «metabolito»

Não satisfaz ninguém


      «Segundo Jack Brand, da Universidade Sueca de Ciências Agrícolas, “foi realmente o metabolito, que sabemos ocorrer em concentrações mais elevadas na natureza, que teve um efeito muito mais profundo no comportamento e na movimentação dos peixes”, alertando que a ausência destes compostos nas avaliações de risco pode levar a uma subestimação significativa do impacto ambiental» («Cocaína nos rios está a deixar salmões mais ativos (e com comportamentos estranhos)», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 21.04.2026, 16h05). 

      Não bastavam os mocados que por aí vemos, agora também os salmões andam na ganza. Bem, olhemos ali para metabolito, que a Porto Editora define assim: «BIOQUÍMICA qualquer substância resultante do processo de metabolismo». Para o leigo, é potencialmente enganadora, porque sugere apenas o produto final. Para o especialista, é insatisfatória, porque omite aspectos estruturais do conceito (intermediários, vias metabólicas, actividade biológica). Não fiquem tristes: a definição do Houaiss, apesar de o dar como «qualquer composto intermediário das reações enzimáticas do metabolismo», está longe de ser perfeita, já que pode levar a entender-se que exclui os produtos finais, quando, em uso científico, estes também são metabolitos. Apenas a conjugação das duas resolve o problema, o que fazemos propondo ➜ metabolito BIOQUÍMICA molécula resultante da transformação de uma substância no metabolismo, incluindo produtos finais e compostos intermédios das vias metabólicas; pode conservar, alterar ou perder a actividade biológica da substância de origem.

[Texto 22 854]

Duala, Camarões

Parece mentira


      Então, c’um caraças, até no portal da Air France aparece Duala e os nossos jornalistas, apesar de advertidos mais de uma vez, insistem em escrever Douala?!

[Texto 22 853]

Tradução: «guardien de la paix»

Espetanços contra o espectador


      No filme Os Novos Vizinhos (Les Gens d’à côté, André Téchiné, 2024), Lucie (Isabelle Huppert) resume assim a Yann (Nahuel Pérez Biscayart) o seu percurso inicial na polícia: «Comecei como guardien de la paix aos 24 anos. Depois estive 3 anos na polícia administrativa e depois trabalhei com sem-abrigo, nas estações da Gare du Nord e da Gare de L’Est.» Isto, claro, nas legendas, et le spectateur qui ne comprend pas le français, tant pis pour lui. Não é isso, não é SÓ por estar ali aquele pedacinho em francês: está mal traduzido. Mas o que é isso de «polícia administrativa»? Bem, terão de perguntar à tradutora, Cláudia Brito. Vamos ao que a personagem diz, vamos ao áudio: «J’ai commencé gardien de la paix à 24 ans. Plus tard, j’ai fait police-secours à Paris pendant trois ans, puis je me suis occupée des sans-abris dans les gares. Gare du Nord, gare de l’Est.» Transpondo — não é o que se deve fazer na tradução? —, tanto quanto possível, para a realidade portuguesa, seria mais ou menos assim: «Comecei como polícia aos 24 anos. Mais tarde, estive três anos na intervenção rápida em Paris e, depois, ocupei-me de sem-abrigo nas estações: Gare du Nord e Gare de l’Est.»

[Texto 22 852]

Arquivo do blogue