Definição: «caça-gralhas»

Não me revejo


      Pois bem, «caça-gralhas» já está onde deve estar: no dicionário. Não sei é se deve ficar com a definição actual. É coloquial, isso de certeza, mas, como eu a vejo ser usada, pelas pessoas do meio, não é o revisor pleno, que mexe, altera, sugere (por vezes fazendo as vezes do editor, ora pois). Não: o caça-gralhas é isso, e dentro da sua limitada competência (já conheci telefonistas que, nos intervalos, tinham de fazer revisão), um caça-gralhas, alguém alfabetizado que apanha gralhas, no que até pode ser proficientíssimo. Quanto ao que as pessoas fora do meio entendem, pouco importa: bem sei que, para algumas, é tudo o mesmo. Em apoio do meu entendimento, cito a seguinte carta que Luiz Pacheco mandou, a acolitar umas provas, a Luís Amaro, poeta, jornalista, revisor, editor, crítico literário, fundador da revista Árvore e colaborador durante mais de cinquenta anos em iniciativas de âmbito literário: «Creio ter cumprido, para além da função caça-gralhas, e o melhor possível, a minha tarefa de revisor: esta terceira versão (mantendo os erros de estrutura que, a emendarem-se, obrigavam a um livro novo) está quase decente. B. B. é inteligente e tem talento: o que é, é precipitado, um tudo-nada alifante num jardim...» Estoutra citação vai no mesmo sentido: «Tarquínio tinha o culto do belo curvo e modelado apolíneo e, vindo de um publicismo nocturno e caça-gralhas, revisor embora não geral, incomodou-se com as brutalidades marujas da revolução» (A Manobra de Valsalva, Artur Portela. Lisboa: Quetzal Editores, 2002, p. 59).

[Texto 22 851]

Pero se entiende, ¿no?

Tudo na mesma


      «“Pero se entiende, ¿no?”, suelen alegar los sorprendidos en pecado que creen que el contexto resuelve cualquier desaguisado. Ya Sancho le pedía a don Quijote que no le enmendase los vocablos si entendía lo que quería decir. Seguimos en las mismas» («Hablar con propiedad», Francisco Ríos, La Voz de Galicia, 18.04.2026, p. 12). Pascácios da Península Ibérica, uni-vos e dizei sempre isto, que o que interessa é que se perceba.

[Texto 22 850]

Definição: «autismo»

Dá que pensar


      «Misdiagnosis may have affected half the cases of children with autism, experts claim. This is because signs of the developmental disorder, such as poor eye contact, do not always mean a child is autistic and could simply be caused by social anxiety» («Half of autism diagnoses in children may be wrong», Ciaran Foreman, Irish Daily Mail, 14.04.2026, p. 18). 

      O que significa que, com azar, podem rotular-nos de autistas quando a realidade é outra. Metade dos diagnosticados... Bem, façamos nós alguma coisa, não pelos médicos, que não consultam dicionários da língua para fazerem diagnósticos, mas pelo cidadão comum propondo uma nova definição de ➜ autismo MEDICINA perturbação do neurodesenvolvimento, de início no período do desenvolvimento, caracterizada por défices persistentes na comunicação e interacção social e por padrões restritos, repetitivos e inflexíveis de comportamento, interesses ou actividades; integra um espectro de manifestações clínicas de intensidade e expressão variáveis, podendo, sobretudo em idades precoces, ser confundido com outras perturbações do desenvolvimento ou da saúde mental.

[Texto 22 849]

Léxico: «interindustrial»

Com citação extensa


      «Em cada um destes seminários esteve institucionalmente presente o responsável máximo de cada uma das escolas, e participaram investigadores daquele projeto, estudiosos das matérias em debate, assim como economistas que trabalharam diretamente com João Cravinho no GEBEI – Grupo de Estudos Básicos de Economia Industrial, por ele criado no âmbito da Secretaria de Estado da Indústria logo nos inícios dos anos de 1970, e que é justamente reconhecido como uma das mais relevantes instâncias de desenvolvimento entre nós de um pensamento económico inovador, assente no estudo minucioso do muito que era necessário conhecer para que se compreendesse como uma economia periférica e frágil como a portuguesa funcionava: da matriz de relações interindustriais (as matrizes input-output) aos multiplicadores, aos consumos energéticos, à pauta aduaneira (a proteção efetiva da produção nacional), à função consumo, aos stocks de capital, aos níveis tecnológicos, às contas de rendimento das regiões» («João Cravinho: uma obra imensa», José Reis [professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e investigador do Centro de Estudos Sociais], Público, 20.04.2026, 6h00).

[Texto 22 848]

Léxico: «casaco-robe»

Gosto de ver


      «Calças direitas, saias rodadas, polos descontraídos, casacos-robe, vestidos retos, camisolas de gola alta — estas são algumas das peças favoritas da estação, em tricôs mais ou menos grossos, consoante a necessidade de calor extra» («No ponto», Gabriela Pinheiro, «Revista E»/Expresso, 30.01.2026, p. 77). 

      Ou seja, temos de o entesourar, assim ➜ casaco-robe casaco feminino de corte amplo e solto, inspirado no roupão (robe), geralmente sem estrutura rígida, com abertura frontal simples e, por vezes, cinto, caracterizado por linhas fluidas e uso como peça de sobreposição em contexto informal ou de meia-estação.

[Texto 22 847

Léxico: «francofonização»

Também existe, sim


      «Desde 2016, o país é assolado por dois sangrentos conflitos armados. O primeiro é uma verdadeira guerra civil nas duas regiões ocidentais anglófonas, North West (Noroeste) e South West (Sudoeste), que começou com uma série de protestos pacíficos contra a crescente francofonização dos sistemas judicial e educativo» («Camarões: denunciar a corrupção, encorajar a esperança», Margarida Santos Lopes, Além-Mar, Maio de 2026, p. 23).

[Texto 22 846]

Léxico: «pilão»

Ratas e pilões


      Estou aqui a ver uma edição especial de um relógio comemorativo do Instituto dos Pupilos do Exército, e leio na descrição que é possível gravar no mostrador o nome do pilão. A formulação é reveladora: o termo surge ali com plena naturalidade, como designação identitária de quem frequenta ou frequentou a instituição, sinal claro de que estamos perante um uso consolidado, e, contudo, ainda ausente dos dicionários, onde já encontramos, por sugestão minha, os ratas do Colégio Militar. Assim, proponho ➜ pilão gíria aluno ou antigo aluno do Instituto dos Pupilos do Exército (IPE), estabelecimento de ensino militar não superior.

[Texto 22 845]

Léxico: «missa votiva»

Talvez evite outros disparates


      Como é que a Porto Editora não regista «missa votiva», como? São estas ausências que explicarão, em parte, que os jornalistas, como uma aqui, se espalhem escrevendo «missa vocativa». Assim, e antes que mais gente mande semelhantes bojardas, proponho ➜ missa votiva RELIGIÃO (catolicismo) missa celebrada, nos termos das normas litúrgicas, em honra de um mistério do Senhor, da Virgem Maria, dos Anjos, de um santo ou por uma intenção particular, não correspondendo ao ofício próprio do dia no calendário litúrgico.

[Texto 22 844]

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