As aspas servem para tudo

O recurso mais económico


      «Quanto ao nome escolhido é de salientar que “Sr. Engenheiro” é propositadamente colocado entre aspas pela organização depois de um pedido da Ordem dos Engenheiros. “Recebemos um pedido da Ordem dos Engenheiros por razões que as pessoas penso que conhecem: ‘Por favor, não lhe chamem engenheiro.’ E nós atendemos. Pusemos engenheiro entre aspas” [diz Rui Melo, o encenador]» («“Já só nos resta rir”. Musical sobre Sócrates estreia no Tivoli», João Maldonado, Rádio Renascença, 31.03.2026, 6h30). As aspas servem para tudo. Basta o Homem querer e a Mulher deixar.

[Texto 22 747]

Definição e etimologia: «loft»

Que espaço comum é esse?


      «Ce samedi seront célébrées les obsèques de Loana, qui fut la première vedette de l’émission de téléréalité “Le Loft”. Le mot vient directement de l’anglais et désigne un atelier, un grenier. Avec lui, on est conscient de flirter avec le franglais contemporain : ainsi un loft est un appartement trendy, cosy, aménagé dans un atelier haut perché; et son accès peut aller jusqu’à nécessiter le service d’un liftier» («Loft», Étienne de Montety, Le Figaro, 3.04.2026, p. 33). 

      É a nossa oportunidade de corrigir a definição de loft no dicionário da Porto Editora, que fala num «espaço comum» — comum a quem ou a quê? —, além de que na etimologia não adianta nada. Assim, proponho ➜ loft 1. habitação ou estúdio instalado num espaço amplo, geralmente situado em piso superior e originalmente destinado a uso industrial ou comercial, caracterizado pela ausência de divisórias internas e organização em plano aberto, com frequência com pé-direito elevado; 2. [por extensão] qualquer apartamento concebido segundo esse modelo espacial. 

      Quanto à etimologia, no mínimo tem de se indicar que vem do inglês loft, «sótão; piso superior de edifício». É o mínimo, mas já suficiente, porque o Houaiss diz assim: «ing. loft (sXIII) ‘sótão; galeria elevada (em igreja); um dos andares superiores de um galpão ou estabelecimento de negócio, esp. quando não dividido; esse espaço adaptado para moradia ou estúdio’».

[Texto 22 746]

«Pousar» e «posar», de novo

Passados uns anos


      «De regresso à Sala das Sessões, já depois do fim da cerimónia, para a fotografia dos constituintes, Marcelo cumprimentou várias pessoas, incluindo Jerónimo de Sousa, pousando a seu lado na imagem de grupo» («Marcelo assistiu sozinho na tribuna à sessão solene dos 50 anos da Constituição», Rádio Renascença, 2.04.2026, 12h38). 

      Como alguns sabem, já por aqui passou quem defendesse que era este o verbo para significar ficar imóvel numa determinada posição para ser fotografado ou para que lhe façam um retrato ou lhe modelem um busto, uma estátua, etc. Era e é uma voz isolada. O verbo certo é, sem dúvida alguma, posar. De Elvas até, sei lá, Mâncio Lima, é a opinião unânime. Vá, tirando uma pessoa, se é que ainda é viva, porque a pandemia ceifou muitas. Os que se enganam não contam.

[Texto 22 745]

Léxico: «androlepsia»

Tudo vai desaparecendo


      Andou durante séculos em manuais de Direito, dicionários e enciclopédias, agora desapareceu, excepto dos manuais de História do Direto, claro, refiro-me a ➜ androlepsia DIREITO (Grécia antiga) acção de represália admitida no direito ateniense, pela qual os parentes da vítima de homicídio podiam capturar até três homens na cidade para onde o homicida tivesse fugido, a fim de compelir essa comunidade a entregar o culpado ou a prestar satisfação pelo crime. 

      Vem do grego ἀνδροληψία (androlēpsía), de ἀνήρ, ἀνδρός (anḗr, andrós, «homem») e λῆψις (lêpsis, «apreensão, captura»).

[Texto 22 744]

Léxico: «herança indivisa»

As coisas como elas são


      Continuo a encontrar quase todos os dias herança indivisa. Foi pena o Governo proibir a Porto Editora de a levar para os dicionários. Pena não: é inadmissível num Estado de Direito. Estamos a caminho de uma ditadura, os sinais disso vão-se acumulando. Não proibiu? Ah, pensei... Entretanto, continua lá, imóvel e morta, como o próprio nome o indica, a herança jacente, que nenhum lexicógrafo até hoje teve a fortuna de encontrar num texto.

[Texto 22 743]

Léxico: «terreola»

Mais nim que sim


      Hesitei ali atrás, mas sim: temos as variantes terriola (única que Rebelo Gonçalves acolhe no seu Vocabulário da Língua Portuguesa, p. 997) e terreola. A Porto Editora, como tantas outras vezes, está numa posição dúbia: regista apenas «terriola» no Dicionário da Língua Portuguesa, mas não deixa de acolher «terreola» num bilingue. Apenas num. E na quinta-feira usou-o no verbete de «patarrega». São falhas destas que tem de ir corrigindo. 

[Texto 22 742]

Léxico: «policriminal»

A nova criminalidade


      «As polícias portuguesas detetaram em 2025 um fenómeno novo que saltou à vista após um aumento dos furtos de viaturas de aluguer. Segundo o RASI, “grupos policriminais” recorrem a testas de ferro (muitas vezes toxicodependentes) para efetuar os contratos de aluguer. Depois usam as viaturas para cometer outros crimes (tráfico de droga, roubos, etc.) e a seguir ‘despacham’ os veículos para outros países da Europa, “com especial incidência na Bélgica, no porto de Antuérpia ou imediações, onde várias viaturas foram recuperadas quando já estavam preparadas para serem embarcadas para Dakar”, no Senegal» («Rumo a Dakar, via Antuérpia», Correio da Manhã, 2.04.2026, p. 5).

[Texto 22 741]

Léxico: «caboclinho-do-pantanal | surubim-pintado»

Antes que seja tarde


      «Foram incluídas nas listas da CMS (sigla em inglês para Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres) 16 espécies que ocorrem no Brasil. O caboclinho-do-pantanal (Sporophila iberaensis), passarinho que migra pelo continente americano, e o surubim-pintado (Pseudoplatystoma corruscans), peixe típico de grandes bacias sul-americanas, passaram a integrar o Anexo 2 da CMS, voltado a espécies que precisam de ação internacional coordenada» («Após uma semana, cúpula da ONU amplia proteção a 40 espécies migratórias», Jéssica Maes, Folha de S. Paulo, 31.03.2026, p. A36).  

      Muito me admira que grafem os nomes científicos em itálico, já que nestas coisas são claramente trapalhões, meia bola e força. (Isso mesmo, Porto Editora, entesoura também esta expressão.) Nisto, digo bem, porque em geral entre nós há mais erros descabelados nos jornais.

[Texto 22 740]

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