Léxico: «fraca-chichas»

Fora dos dicionários?!


      «Ainda nesta atitude temos de ver uma forma do compleicional de Camilo: estar sempre pronto a arremeter contra quem se lhe punha pela frente ou lhe lançava a luva. Em artigo de fortaleza, era um fraca-chichas, mas bravura e denodo não lhe faltavam. De ímpeto, para a primeira arrancada, lá estava sempre na dianteira, o contrário do que seria aliás desmentir a sua natureza de comicial» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 226). 

      Tem de figurar em todos os dicionários a par de «fraca-figura» e «fraca-roupa», tanto mais que, quanto a este último, nunca vi que alguém o usasse.

[Texto 22 675]

Léxico: «amazigue»

Segunda passagem


      «A Igreja no Magrebe tem uma história complexa: a fundação, com os primeiros mártires, em finais do século I; a prosperidade entre os séc. II e V, com três papas (Vítor I, Melquíades e Gelásio I), um imperador em Roma (Lício Sétimo Severo) e grandes pensadores, como Tertuliano, todos de origem amazigue; o desaparecimento gradual com a chegada do Islão, entre os séculos VII e VIII; o regresso e a problemática coabitação com o colonialismo francês, a partir de 1830 e durante 132 anos; a perda de património e de influência, o êxodo em massa de fiéis, quando a Argélia conquistou a independência após a revolução de 1954-1962; o brutal impacto da guerra civil de 1992-2002, com numerosos massacres de civis, incluindo o de 19 religiosos de oito congregações» («Argélia: a Igreja «quase invisível» que não esconde a fé», Margarida Santos Lopes, Além-Mar, Abril de 2026, p. 27). 

       Esquecemo-nos na altura desta acepção, que é, em todos os sentidos, a primeira, de ➜ amazigue ETNOLOGIA indivíduo pertencente aos povos indígenas do Norte de África que se denominam a si mesmos imazighen («homens livres»); berbere.

[Texto 22 674]

Definição: «landgrave»

Vão sempre aparecendo


      A definição de «landgrave», palavra que vejo agora aqui usada num texto sobre o compositor alemão Heinrich Schütz, está muito mal-enjorcada nos nossos dicionários. Mas no Houaiss, que não é nosso, mas deles, em certo sentido ainda está pior. Nós é que não nos alegramos com a miséria alheia, temos, isso sim, de fazer melhor. Para começar, Porto Editora, absolutamente nada justifica que o verbete tenha duas acepções, já que não estamos perante dois sentidos distintos, mas antes dois aspectos do mesmo referente histórico: por um lado, o estatuto (título nobiliárquico); por outro, uma das funções que esse estatuto implicava (jurisdição em nome do imperador). Assim, proponho ➜ landgrave HISTÓRIA título nobiliárquico do Sacro Império Romano-Germânico atribuído a certos condes investidos directamente pelo imperador, dotados de jurisdição territorial alargada e de poderes senhoriais próprios — administrativos, judiciais e militares — exercidos sem intermediação de outros senhores; distinguia-se do conde comum pelo estatuto elevado e pela autonomia política, aproximando-se em vários casos da dignidade ducal.

[Texto 22 673]

Definição e etimologia: «eczema»

Sobretudo a etimologia


      «L’eczéma ou dermatite atopique, la plus fréquente des maladies inflammatoires de la peau, touche environ 20% des enfants en Suisse et 5% des adultes. Elle se caractérise par l’apparition sur la peau de plaques rouges et de lésions, de démangeaisons et de sécheresse de l’épiderme. Il s’agit d’une pathologie chronique, qui se manifeste par des pics de symptômes, entrecoupés de périodes de rémission» («Comment le stress exacerbe l’eczéma», Pascaline Minet, Le Temps, 20.03.2026, p. 10). 

      Os nossos dicionários definem muito mal «eczema», e a etimologia que indicam tem ampla margem para melhorar. Assim, proponho ➜ eczema MEDICINA designação genérica de dermatoses inflamatórias, de evolução aguda ou crónica, caracterizadas por eritema, prurido e lesões cutâneas variáveis, incluindo vesículas, crostas e descamação, frequentemente associadas a causas alérgicas, irritativas ou a predisposição atópica; dermatite. 

      Quanto à etimologia, vem do grego ékzema, «erupção cutânea», de ekzéō, «ferver, irromper», de ek, «fora» + zéō, «ferver».

[Texto 22 672]

Definição: «angioedema»

Nem sempre; portanto, não


      «El caso de una paciente de 18 años de Lleida que sufrió una misteriosa sucesión de episodios de inflamación súbita de la piel —un angioedema, parecido a la urticaria pero más profundo— de origen desconocido ha permitido descubrir el primer caso en el mundo de transmisión de una rara enfermedad hereditaria a través del semen de un donante anónimo» («Un donante de semen transmitió una enfermedad rara en Cataluña», Oriol Güell, El País, 21.03.2026, p. 32).

      A definição de «angioedema» da Porto Editora peca, antes de mais, por indicar que é recidivante, o que, pelo que vejo em fontes especializadas, não corresponde à realidade clínica: embora possa apresentar episódios recorrentes, também ocorre sob a forma de episódio isolado. Mais: omite o mecanismo fisiopatológico essencial, o aumento da permeabilidade vascular, não distingue as principais origens (alérgica, medicamentosa, hereditária) e não explicita a potencial gravidade do quadro, nomeadamente quando há compromisso das vias aéreas. Assim, proponho ➜ angioedema MEDICINA edema súbito e circunscrito das camadas profundas da pele e/ou das mucosas, resultante de aumento da permeabilidade vascular, que se manifesta por tumefacção não depressível; pode afectar a face, lábios, pálpebras, língua, laringe, extremidades ou o tracto gastrointestinal; de origem alérgica, medicamentosa ou hereditária, sendo potencialmente grave quando compromete as vias aéreas ou se associa a choque anafiláctico.

[Texto 22 671]

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P. S.: Estive vai-não-vai para usar na proposta de definição o termo «patência», mas depois vi que ainda não o tens, Porto Editora.



Um possível parentesco: «ṣirāṭ» e «strata»

Realmente...


      Na quinta-feira, vi o filme Sirât (2025), de Oliver Laxe, cujo título remete para a ideia islâmica de travessia e prova, funcionando como chave simbólica para o percurso das personagens, entre caminho físico e limiar existencial, como se anuncia logo no início: «Há uma ponte chamada Sirat que liga o inferno ao paraíso, e o seu caminho é mais estreito do que um fio de cabelo.» É curioso notar, como por vezes sucede em percursos etimológicos deste tipo, a semelhança fonética entre sirāt e strata (estrada), ainda que essa aproximação, por si só, não constitua prova. Alguns estudiosos da filologia semítica e do léxico alcorânico, como Arthur Jeffery e Toshihiko Izutsu, admitiram a hipótese de ṣirāṭ não ser de origem árabe, propondo antes uma derivação do latim strata («estrada pavimentada»), eventualmente por via do grego ou do aramaico. Esta proposta, embora discutida e não consensual, insere-se no estudo mais amplo dos possíveis empréstimos no vocabulário alcorânico. No próprio Alcorão, a palavra surge 45 vezes, frequentemente na expressão «ṣirāṭ al-mustaqīm» («o caminho recto»), com forte valor ético e espiritual. Vejam o filme, uma autêntica experiência sensorial.

[Texto 22 670]

Como se traduz por aí

Não chegam ao céu


      E quando o original diz algo tão banal como «Then he called up» e o tradutor resolve a coisa com esta elegância: «Vozeou»? Quantas vezes não encontro estas tretas? E sempre me vêm à mente vozes de animais. Como zorrar. Não façam isto.
[Texto 22 669]

Interjeições «oh» e «ó»: a confusão perpétua

Tu já estás morta


      Elias Santana é apenas polícia, chefe de brigada responsável pela investigação do homicídio do ex-major do Exército Luís Dantas Castro, encontrado morto na praia do Mastro, não tem de saber particularmente de ortografia e gramática. Sim, estou a falar da Balada da Praia dos Cães (1982), de José Cardoso Pires. Quando o chefe Elias vai, acompanhado do agente Roque, a caminho do Forte da Graça, a certa a altura põe-se a cantar: «Oh Elvas, oh Elvas, Badajoz à vista». Havia de cantar bem, mas escrevia mal — e a editora, na 16.ª edição e com três reimpressões (Relógio D’Água, Novembro de 2025), não o ajudou. Não ajudou o autor, que nesta matéria não era propriamente uma sumidade, nem os leitores. E deturparam o cancioneiro: «Ó Elvas, ó Elvas,/ Badajoz à vista, /Já não faz milagres/ S. João Baptista.» Oh sim, senhores revisores (Anabela Prates Carvalho e João Carlos Alvim), a interjeição é mesmo ó, de chamamento ou invocação, que se repete: «Ó Elvas, tu já estás morta,/ Vives muito encolhidinha./ Já se lá foram os tempos/ Em que semeavas sardinha.» Mas não é preciso sair da mesma página para encontrar mais erros.

[Texto 22 668]

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