Ortografia: «Bombaim»

Saltos e amendoins

      «O local escolhido é o Shivadji Park, um dos poucos espaços verdes de Bombaím (Mumbai), e lá praticam-se estranhos desportos, como o Mallakhamb, que desafia a gravidade» («Índia. Desporto tradicional», Diário de Notícias, 13.11.2012, p. 11).
      Muito interessante, mas dois reparos: quando o i (e o u) é seguido de consoante diferente de s que com ele forme sílaba (-im), não é acentuado. Logo, Bombaim. Como «amendoim». E em todo o lado apenas encontro a grafia Shivaji.
[Texto 2320]

«Democrato-social»

Nunca antes vista

      Sabiam que no início de 1961 o Directório Democrato-Social, a grande organização da oposição ao Estado Novo, lançou o Programa para a Democratização da República? Não vamos aqui adiantar nada quanto ao que esse documento propunha, mas antes reflectir sobre o vocábulo «democrato-social». Só conhecíamos o adjectivo uniforme «democrata» e o adjectivo biforme «democrático». Assim, «democrato» só pode ser a forma truncada de «democrático».
[Texto 2319]

Léxico: «saial»

O homem tinha razão

      Debaixo do saial, há al. Conhecem este provérbio? Ah, não conhecem... O que sei é que o antiquário disse que aquela mesa de encostar de pau-santo tinha saial talhado. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora no verbete «saial» só regista uma acepção: «Antiga vestimenta grosseira para os dois sexos.» Entretanto, podem anotar na margem da página.
      «O saial em talha vazada é decorado com motivos em S e em gancho, terminando por bilros» (O Paço Ducal de Vila Viçosa, Sua Arquitectura e Suas Colecções, José Teixeira. Lisboa: Fundação Casa de Bragança, 1983, p. 199).
[Texto 2318]

É um facto

O AOLP explicado aos maluquinhos

      «Qual será a razão para um escrevente, falante de português europeu e utilizador, por imitação, por gosto ou por imposição, do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90) não grafar o C de facto? Por exemplo: “união de fato”. Sim, de fato. Quem diz “união de fato”, poderá também dizer “pressupostos de fato e de direito”, “alterações de fato e de direito”, “razões de fato e de direito”, “fundamentos de fato e de direito” ou “situações de fato...”. E de direito. De fato e de direito. Até mesmo “fatos imputáveis”» («Contra fatos: os argumentos», Francisco Miguel Valada, Público, 13.11.2012, p. 55).
      Há muito que alertei para esta estupidez. No texto de Francisco Miguel Valada, só não percebo a enumeração — que o autor parecia querer, para nosso desespero, exaustiva — de expressões em que o termo «facto» figura. É concebível que o «escrevente, falante de português europeu e utilizador, por imitação, por gosto ou por imposição, do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)» umas vezes escreva «fato» e outras «facto» para exprimir a mesma ideia? O que me parece é que isto é tudo tão absurdo, que não precisamos de caricaturas ou especulações crípticas.

[Texto 2317]

Ortografia: «craniofacial»

Não lhes liguem...

      «Ronaldo foi dispensado da viagem ao Gabão por causa dum [sic] traumatismo cranio-facial», lia-se na legenda da respectiva notícia no Telejornal de ontem, às 20h42. Errado. Escreve-se craniofacial.

[Texto 2316]

Borbom

Vai sendo tradição

      «Mas uma pequena falha de comunicação entre os serviços jurídicos da Casa Real e os assessores da infanta fez que a irmã de Felipe de Borbom tivesse, agora, o fisco à perna. Enquanto a Casa Real espanhola esperava que os assessores jurídicos de Elena declarassem o fim da atividade da empresa, o mesmo se passou com os funcionários da Infanta. “A sociedade nunca foi liquidada”, confirmou um porta-voz da Casa Real ao jornal espanhol, admitindo: “Cometemos um erro.”» («Infanta Elena deve 510 euros às Finanças», Márcia Gurgel, Diário de Notícias, 13.11.2012, p. 53).
[Texto 2315]

Léxico: «padieira»

Dia de vistoria da obra

      Dia de vistoria da obra. Sou (não me gabo...) um dos louvados. Tenho a impressão de que o engenheiro não sabia o que era a padieira da porta. «Onde? Onde? Ah, no topo.» Topo... É triste, mas é assim.
      «Esta casa, por exemplo, com a data de 1784 na padieira da porta, esta casa viu-a Camilo deste mesmo sítio onde o viajante põe os pés, o mesmo espaço ocupado por ambos, em tempos diferentes, com o mesmo Sol por cima da cabeça e o mesmo recorte dos montes» (Viagem a Portugal, José Saramago. Lisboa: Editorial Caminho, 1997, p. 44).
[Texto 2314]

Erros em todas as línguas

Enfeites de Natal

      «Em setembro último, um vasto artigo do El País intitulado “Angela fue una chica divertida” revelava o que tinha mudado na vida de Angela Merkel e a transformação de uma jovem que trabalhou como barmade numa discoteca e que chegou a ser “ocupa” numa casa de Berlim em plena Alemanha comunista, até à cancheler [sic] austera de hoje» («Os sete fatos de Angela», Lília Bernardes, Diário de Notícias, 12.11.2012, p. 30).
      Então mas não é barmaid — «a woman who serves liquor at a bar» — que se escreve? E «ocupa» tem aspas para quê, pode saber-se, cara Lília Bernardes? Devem ser já os enfeites de Natal. Nunca precisou delas, e agora até já está dicionarizado. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo: «pessoa que se apodera de coisa ou lugar abandonado ou ainda não apropriado sem ser o seu legítimo proprietário».
[Texto 2313]

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