Léxico: «varano-malaio»

Falta-te este varanídeo


      «Se por instantes parece que os dinossauros estão de regresso à Terra não é por acaso. Afinal, é isso mesmo que a palavra dinossauro quer dizer: lagarto terrível (do grego ‘deinos’ + ‘sauros’. Este varano-malaio [Varanus salvator] – uma espécie que pode atingir os dois metros de comprimento e pesar 20 quilos – estava com fome e decidiu atacar um caixote do lixo em regime de self-service» («Indonésia. Dinossauro dos tempos modernos», «Versa»/Nascer do Sol, 6.02.2026, p. 10).

[Texto 22 659]

Léxico: «sadu | vixnuíta»

Verdades de Sacatrapo


      Este aqui não sabe que se escreve «sadu» em português. No blá-blá-blá é que eles são bons. «Falar é fácil porque não há palavra que não se deixe dizer», já sentenciava Sacatrapo. O pior é escrever. Paciência. O dicionário da Porto Editora afiança-nos que é a «designação de um asceta mendicante na Índia». Estranha definição, diga-se, a começar por «designação». Assim, proponho ➜ sadu RELIGIÃO asceta hindu que renuncia à vida material e aos vínculos sociais para se dedicar à prática espiritual, à meditação e à libertação (moksha), vivendo frequentemente de esmolas; pode pertencer a diferentes tradições devocionais (como as vixnuítas ou as xivaítas) e caracteriza-se por um modo de vida itinerante e austero.

[Texto 22 658]

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P. S.: Parece-me ocioso argumentar por que razão se deve preferir «vixnuíta» a «vixnuísta», mas o caso nem sequer é esse, Porto Editora: é que, como outros dicionários, acolhes «xivaíta» e «xivaísta». Logo...


Definição: «rede social»

Pois, não me parece


      Redes sociais. Ora bem, nos dicionários de outras línguas há, em geral, duas tendências claras: separação explícita entre o conceito sociológico e o uso digital e maior precisão terminológica. A Porto Editora, neste caso (e em muitos outros, como já aqui vimos), opta por uma via que traz muitos inconvenientes, que é a de autonomizar o verbete. Contudo, encontramos no verbete «rede», por exemplo, «rede de dados». Era nesta boa companhia, e onde 99 % dos falantes a vão procurar, que eu poria a expressão. 

      Quanto ao conceito em si: vejamos, há redes sociais há séculos e séculos, não nasceram com a informática ou a internet. Tendo em vista tudo isso, proponho ➜ rede social 1. SOCIOLOGIA conjunto estruturado de relações entre indivíduos, grupos ou organizações, estabelecidas com base em interacções, interesses ou vínculos comuns; 2. INFORMÁTICA plataforma digital que permite criar, manter e tornar visíveis redes sociais, mediante a partilha de conteúdos e a interacção entre utilizadores.

[Texto 22 657]

Miguel Ângelo, pois claro

Aleluia!


      «Das 391 figuras do fresco, muitas estão nuas ou seminuas, o que causou escândalo na época, levando a que fossem cobertas com panos pintados sobre a obra original, após a morte de Miguel Ângelo» («“Juízo Final” volta a ganhar brilho», Jornal de Notícias, 1.03.2026, p. 32). 

      Vá lá. São o reduto, os jornais, porque já há editoras a «aconselharem» a escrevê-lo sempre em italiano. Que estupidez... Até em Itália estarão a comentar: «Ma che cazzo, pare che alla fine i portoghesi sappiano scrivere in portoghese.»

[Texto 22 656]

Léxico: «sessão-relâmpago»

Mais relâmpagos


      Foi a tempo para o dicionário como segundo elemento invariável. «A votação na CCJ não estava prevista na pauta e foi realizada em poucos minutos, em um momento de reunião já esvaziada. O método motivou protestos da oposição» («CCJ do Senado aprova fim da escala 6x1 em sessão-relâmpago sem combinar com o governo», Caio Spechoto e Mariana Brasil, Folha de S. Paulo, 11.12.2025, p. A22).

[Texto 22 655]

Tradução: «pediment»

Despublica!


      «– É pequena para a idade. – Não era verdade, mas ninguém o contradisse. – Terá de crescer. Aproxima-te – disse Roberval, e parei diante dele, tão perto que podia tocar no armário. Como queria fazê-lo! As pequenas gavetas eram perfeitas para as minhas mãos. Quem me dera que o meu guardião me desse aquele brinquedo! Ele, que era o guardião de todas as coisas. O armário imitava um palácio em miniatura. Na fachada, estavam gravados pedimentos e pilares, ladeando as gavetas com embutidos de marfim. O que teria o meu guardião lá dentro? Joias? Papéis? Relíquias sagradas?» (excerto do romance histórico Isola, de Allegra Goodman, pré-publicado no Público, «Dois capítulos do romance histórico Isola, da norte-americana Allegra Goodman», 18.03.2026, 12h01).

      Um termo estranho — temo-lo, sim senhor, mas que até eu desconhecia — devia logo fazer disparar alarmes, quando não na tradutora, no revisor. Pois, mas não. No original, lê-se isto: «Its façade was carved with pediments and pillars framing drawers inlaid with ivory.» Ou seja: «A fachada estava esculpida com frontões e pilares que enquadravam gavetas incrustadas de marfim.» Em português, «pedimento» é sinónimo (completamente obscuro, esquecido, arcaico) de «pedir; petição» e, segundo a Porto Editora, também termo geológico. O vocábulo inglês pediment (séc. XVII) «frontão, remate triangular de fachada» ← alteração de formas anteriores periment, peremint (séc. XVI), é de origem incerta; provavelmente deformação dialectal de pyramid («pirâmide»), por associação à forma triangular; posteriormente reinterpretado por influência erudita de ped-, «pé» (latim pes, pedis), o que levou a aproximações secundárias ao latim pedamentum, «apoio, escora», e ao italiano pedamento, «base, fundamento», embora estas ligações não sejam etimologicamente seguras. Seguro é que é um erro monumental de tradução.

[Texto 22 654]

Etimologia: «filatelia»

Já fui coleccionador


      «Filatelia» vem do francês, Porto Editora? Está certo! Mas incompleto. Essa pecha de não reconhecer autorias é muito portuguesa. Então a ideia não foi, aí por 1864, do francês Georges Herpin, que pretendia substituir o menos feliz «timbre-mania»? Monsieur Herpin, je peux vous recommander un excellent cabinet d’avocats pour engager votre action en indemnisation.  Assim, proponho ➜ do francês philatélie, termo criado em 1864 por Georges Herpin (1842-1895), a partir do grego phílos, «amigo, amante», e atéleia, «isenção de taxa, franquia postal paga», significando literalmente «amor pela isenção (de porte)», isto é, pelo porte previamente pago nos selos. 

      (O grego atéleia significa propriamente «isenção de taxa ou imposto»; no contexto postal, remete para a dispensa de pagamento de porte no destino, uma vez que este já foi pago antecipadamente pelo remetente e assinalado pelo selo. E só passou a ser assim desde a reforma postal britânica de Penny Post, em 1840.)

[Texto 22 653]

Erros de sempre e para sempre

Tu quoque, Ioannes Lupe!


      «O extraordinário filme de Andres Veiel sobre a alemã Leni Riefenstahl (1902-2003), a partir de amanhã nas salas de cinema, tem um título austero: Riefenstahl. Dir-se-ia que o seu nome próprio deixou de lhe pertencer por inteiro, até porque “Leni” é uma abreviatura de Helene – sendo Helene Bertha Amalie o seu nome completo» («O cinema revisita a herança trágica de Leni Riefenstahl», João Lopes, Diário de Notícias, 18.03.2026, p. 26).

      João Lopes, reveja-me isto com urgência. Calha eu ter cá em casa uma Lena, por vezes ou para alguns, Leninha, mas valha-me Deus, a isso chama-se diminutivo, ou hipocorístico. E já viu que, no caso de Leninha, não reduz nem abrevia nada, uma vez que tem mais um carácter (e não, c’um caraças, «caractere», como escreve o pessoal da bonecada) do que o nome pleno?

[Texto 22 652]

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