Léxico: «rebatedor»

Há, nas lojas


      «A proposta também busca desmistificar o acesso ao cinema, enfatizando a possibilidade de produção com recursos simples. “Às vezes, a gente associa cinema com produções muito caras e o objetivo desse projeto é mostrar que, com tanta tecnologia e boas ideias, conseguimos fazer um bom filme com os recursos que temos: um abajur para a luz, um pedaço de pano branco para o rebatedor, coisas que vão estar acessíveis para depois os alunos criarem seus próprios filmes”» («De operário ao audiovisual: brasileiro recomeça carreira artística em Braga», Sérgio Nascimento, Público, 6.04.2026, 7h45). 

      Podemos encontrá-los, e com este nome, numa FNAC, mas não nos nossos dicionários. Assim, proponho ➜ rebatedor FOTOGRAFIA, CINEMA objecto ou superfície (frequentemente clara, metálica ou translúcida) usado para reflectir e redireccionar a luz de uma fonte sobre o motivo fotografado ou filmado, com o fim de melhorar a iluminação, atenuar sombras ou produzir efeitos de contraste e modelação luminosa.

[Texto 22 753]

Definição: «carteirista»

Se fosse isso, a mim não me acontecia


      Ontem à noite, vi uma reportagem na CMTV sobre os carteiristas que actuam na Baixa de Lisboa. Trabalham em grupos de três ou quatro e são sobretudo romenos. Alvo preferencial: turistas orientais, que transportam por vezes milhares de euros em dinheiro. A equipa de reportagem acompanhou, tudo para nosso benefício, durante vários dias agentes à paisana de uma unidade especial da PSP, a F3C, que desde 2018 já deteve 600 carteiristas. Agora a definição nos dicionários. Carteirista, diz a Porto Editora, é o «ladrão ou gatuno de carteiras». Pois, como em quase todos os dicionários, fracote. Assim, proponho ➜ carteirista indivíduo que furta, com destreza e sem que a vítima se dê conta, objectos pessoais retirando-os dos bolsos ou de pertences por ela transportados, como malas ou mochilas, geralmente em locais movimentados.

[Texto 22 752]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Para ajudar a perceber o título: se um carteirista furtasse apenas carteiras, eu seria infurtável. Nunca ando com carteira. Sim, isso mesmo, também nunca andei nem ando com documentos de identificação de nenhuma espécie. Catch me if you can.


Definição: «Espírito Santo»

Tentemos nós


      No último episódio do programa As Histórias da Bíblia, na Rádio Observador, os padres Francisco Martins e João Basto tentaram definir Espírito Santo. Tentaram, mas, naquele momento concreto, não terão sido recipiendários directos do influxo do dito. Isto para me exprimir tão claramente como me é permitido e sói fazer-se nestas alturas. Bem, não foi muito pior (nem melhor) do que o faz a Porto Editora: «RELIGIÃO terceira pessoa da Santíssima Trindade». Só que nós já somos crescidos, podemos conhecer toda a verdade. Nós aguentamos. Assim, proponho ➜ Espírito Santo RELIGIÃO (Cristianismo) terceira pessoa da Santíssima Trindade, distinta do Pai e do Filho e com eles consubstancial, que procede do Pai (e, na teologia latina, também do Filho) e é entendida como princípio divino de vida, santificação e comunhão, actuando no mundo e nos fiéis como presença activa de Deus; por extensão, inspiração ou impulso interior de natureza espiritual atribuído a origem divina.

[Texto 22 751]

Léxico: «injecção translunar»

Estas não fazem doer


      «No segundo dia de viagem da missão Ártemis II, a NASA confirmou que foi concluída com sucesso a “injecção translunar”, manobra propulsiva que gerou o impulso necessário para que a cápsula Órion e os seus quatro tripulantes sigam em direcção à Lua, abandonando a órbita da Terra» («NASA confirma sucesso da manobra que lançou Órion rumo à Lua», Francisco José Costa, Público, 4.04.2026, p. 47). 

      Ah, sim, pelo menos o Grande Guégués da Língua Portuguesa acolheria ➜ injecção translunar manobra propulsiva pela qual uma nave espacial, a partir de órbita terrestre, aumenta a sua velocidade de modo a transitar para uma trajectória de transferência em direcção à Lua, devidamente orientada e temporizada para interceptar a sua órbita.

[Texto 22 750]

Trump, o palavrão e a jornalista

Prudente, mas ingénua


      «“Terça-feira será o Dia da Central Elétrica e o Dia da Ponte, tudo junto, no Irão. Não haverá nada igual!”, exclamou, deixando antever que os alvos serão, como já tinha referido anteriormente, as infraestruturas do país. De forma mais drásticas e usando vocabulário menos próprio (que não vamos reproduzir), foi mais longe: “Abram o raio do Estreito, seus sacanas loucos, ou vão viver para o inferno”, ameaçou» («Trump usa palavrão para exigir abertura do Estreito de Ormuz», Daniela Espírito Santo, Renascença, 5.04.2026, 13h18).  

      É ver a jornalista toda deliciada por poder escrever que Trump usou um palavrão. Que não vão reproduzir, mas deixando bem à vista o texto original — «Open the Fuckin’ Strait, you crazy bastards, or you’ll be living in Hell – JUST WATCH!» Parece que não sabe que os Portugueses — incluindo, pois claro, os jornalistas — conhecem melhor o inglês do que a sua própria língua. Caralho.

[Texto 22 749]

Léxico: «extrusor»

Vamos lá vencer essa inércia


      «Os assistentes e um conjunto de ceramistas continuam a trabalhar. Utilizam ferramentas, mas também as mãos. Acrescentam e retiram, moldam. Um rapaz tira um bloco de argila que passará por um extrusor, pequena máquina que permite tirar desse bloco a forma de um rolo» («Anna Maria Maiolino: “O desenho ainda é um suspiro neste mundo”», José Marmeleira, Público, 3.04.2026, 7h01). 

      A Porto Editora não regista «extrusor», e pela simples consulta do verbete «extrusora» não ficamos logo habilitados a compreender o que é: «MECÂNICA máquina em que se realiza a extrusão». E depois temos dicionários, como o Houaiss, que, neste ponto, parou no tempo, porque se fixou numa formulação demasiado estreita, ligada a um uso técnico específico, quando o termo já circula com valor mais geral, como se pode ver. Assim, proponho ➜ extrusor/extrusora MECÂNICA 1. máquina que realiza a extrusão de materiais, nomeadamente em contexto industrial, forçando-os a passar através de uma matriz para lhes conferir forma contínua e determinada; 2. aparelho ou dispositivo, de menor dimensão ou uso artesanal, que permite moldar materiais (como argila) por extrusão, obtendo perfis, fios ou rolos.

[Texto 22 748]

As aspas servem para tudo

O recurso mais económico


      «Quanto ao nome escolhido é de salientar que “Sr. Engenheiro” é propositadamente colocado entre aspas pela organização depois de um pedido da Ordem dos Engenheiros. “Recebemos um pedido da Ordem dos Engenheiros por razões que as pessoas penso que conhecem: ‘Por favor, não lhe chamem engenheiro.’ E nós atendemos. Pusemos engenheiro entre aspas” [diz Rui Melo, o encenador]» («“Já só nos resta rir”. Musical sobre Sócrates estreia no Tivoli», João Maldonado, Rádio Renascença, 31.03.2026, 6h30). As aspas servem para tudo. Basta o Homem querer e a Mulher deixar.

[Texto 22 747]

Definição e etimologia: «loft»

Que espaço comum é esse?


      «Ce samedi seront célébrées les obsèques de Loana, qui fut la première vedette de l’émission de téléréalité “Le Loft”. Le mot vient directement de l’anglais et désigne un atelier, un grenier. Avec lui, on est conscient de flirter avec le franglais contemporain : ainsi un loft est un appartement trendy, cosy, aménagé dans un atelier haut perché; et son accès peut aller jusqu’à nécessiter le service d’un liftier» («Loft», Étienne de Montety, Le Figaro, 3.04.2026, p. 33). 

      É a nossa oportunidade de corrigir a definição de loft no dicionário da Porto Editora, que fala num «espaço comum» — comum a quem ou a quê? —, além de que na etimologia não adianta nada. Assim, proponho ➜ loft 1. habitação ou estúdio instalado num espaço amplo, geralmente situado em piso superior e originalmente destinado a uso industrial ou comercial, caracterizado pela ausência de divisórias internas e organização em plano aberto, com frequência com pé-direito elevado; 2. [por extensão] qualquer apartamento concebido segundo esse modelo espacial. 

      Quanto à etimologia, no mínimo tem de se indicar que vem do inglês loft, «sótão; piso superior de edifício». É o mínimo, mas já suficiente, porque o Houaiss diz assim: «ing. loft (sXIII) ‘sótão; galeria elevada (em igreja); um dos andares superiores de um galpão ou estabelecimento de negócio, esp. quando não dividido; esse espaço adaptado para moradia ou estúdio’».

[Texto 22 746]

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