Tampas e alçapões

E o rés-do-chão?

      «Segundo os herdeiros do escritor, Valle nunca viu inconveniente em dividir o edifício com Ernesto e a respectiva família. E quem diz edifício diz até o telefone. Não raras vezes, os convidados eram surpreendidos por um homenzinho que abria uma tampa e aparecia de auscultador em riste a anunciar que a chamada era para “os de cima”» («Ernesto Sabato. Santos Lugares de livros, astrologia e chocolate quente para os amigos», Maria Ramos Silva, «Liv»/i, 29.06.2013, p. 19).
      Já um dia andámos aqui às voltas com a tradução de bulkhead door. Neste caso, a tampa é mesmo rente ao chão, porque se trata de um alçapão. Claro que Maria Ramos Silva podia usar a palavra «alçapão», que significa simultaneamente a abertura no soalho com tampa levadiça e a própria tampa. No intertítulo do texto, lê-se: «Entre a cave e o primeiro andar». Ora, por cima da cave temos o rés-do-chão, não o primeiro andar. Não me digam que também há dúvidas sobre isto.
[Texto 3033]

«Endereço»?

Parecido, e por isso

      «A alma de reminescências como esta mora entre paredes. Uma das curiosidades é comprovar a obsessiva organização de Sabato, bastando para isso seguir as etiquetas dos caixotes dispersos pelo endereço, como “Cartas e documentos sobre a minha conduta e os meus fundos monetários”» («Ernesto Sabato. Santos Lugares de livros, astrologia e chocolate quente para os amigos», Maria Ramos Silva, «Liv»/i, 29.06.2013, p. 18).
      Hã? «Endereço» a significar «morada» ou «casa»? Há-de ser — afinal Maria Ramos Silva está na Argentina — castelhano, e de forma ínvia. Em português, «endereço» é somente a indicação da morada, não a própria morada. E como «endereço» se pode dizer em castelhano «dirección», que significa tanto a indicação da morada como a própria morada, creio que está explicada a confusão.

[Texto 3032]

«Corretor/corrector»

Confusão total

      Está consumada a confusão total: «De acordo com a polícia, monsenhor Scarano foi o cérebro do plano com a ajuda de um corrector, Giovanni Carenzio, e de um agente dos serviços secretos, Giovanni Maria Zito, que foi suspenso há três meses da AISI, os serviços secretos domésticos italianos. A operação falhou porque Carenzio, o corrector, renegou o acordo, segundo os advogados» («Vaticano. O Monsenhor, o banqueiro e o espião presos por lavagem de dinheiro», Sérgio Soares, i, 29.06.2013, p. 32).
      A imprensa em língua inglesa afirma que Giovanni Carenzio é broker ou financier. Será corretor, financeiro.
[Texto 3031]

Tradução: «hype»

O meu euro

      «Bird [director do Media Monitoring Africa] acrescentou que “o hype” em torno de Mandela não permite comparações com Thatcher, “a comparação é entre Mandela e a princesa Diana, e nesse caso houve a cobertura foi frenética [sic]. Naquela altura viram-se rumores semelhantes, não sobre a saúde de Diana mas sobre a forma como ela morreu”» («Obama dispensa “momento fotográfico” com Nelson Mandela», Diogo Vaz Pinto, i, 29.06.2013, p. 34).
      Para Diogo Vaz Pinto, está visto, o termo inglês «hype» é intraduzível. Inadmissível, é o que é. Tem de ser o leitor a completar o trabalho.
[Texto 3030]

Ortografia: «ioiô»

Pois enganam-se

      «Wimbledon. Um iô-iô chamado Michelle Brito» (Cátia Bruno, i, 29.06.2013, p. 51). Porque ora estava a ganhar, ora a perder. (Descrição numa legenda de uma fotografia da tenista: «irregularidade exibicional».) Pois é, mas é ioiô que se escreve. Em inglês é que se escreve com hífen, yo-yo. É muito raro ver a palavra bem escrita, talvez porque ninguém tem tempo para consultar um dicionário.
[Texto 3029]

Não na definição

Dormir em sofás alheios

      «Um homem, residente em Lisboa, terá aproveitado o couch surfing, moda que se baseia em disponibilizar a própria casa como alojamento a viajantes estrangeiros, para atrair e violar uma turista» («Turista de couch surfing violada em Lisboa», Pedro Sales Dias, Público, 28.06.2013, p. 8).
      «Moda», a meu ver, está ali a mais. Pode estar na moda, mas isso não interessa para a definição. «Staying the night at the home of another person, especially a stranger, for free», lê-se no MacMillan.

[Texto 3028]

Não falta «pró-actividade»?

Falta ou não falta?

      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, encontram-se registados os vocábulos, agora tão encontradiços, pró-activo e proactivo, mas somente proactividade. É também a solução da Academia Brasileira de Letras no seu vocabulário. «Pró-activo», lê-se naquele primeiro dicionário, significa «o que é a favor da actividade». Já «proactivo» é o «que antecipa algo; antecipatório; que toma a iniciativa, não actuando apenas em reacção a algo; empreendedor». Se não são sinónimos — só com muito boa vontade nossa diremos que o são, mas apenas parcialmente —, mais estranha é a opção de não se ter acolhido também a forma «pró-actividade». Ou não?
[Texto 3027]


Léxico: «haloterapia»

Fora dos dicionários

      «As partículas de sal estão por toda a parte, desde o chão às paredes, sal ionizado permite que várias pessoas estejam a recorrer à haloterapia em Castelo Branco por sofrerem de doenças respiratórias, stress ou depressão. Um projecto pioneiro no interior do País» («Centro de haloterapia em Castelo Branco», Sandra Salvado, Jornal da Tarde, 26.06.2013).
[Texto 3026]

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