Como se escreve nos jornais

Para o anedotário

      «O cadáver da dentista Luciana Garcia, já muito debilitado, como explicaram ao DN, foi encontrado “próximo da porta do quarto”, o que para os bombeiros indicia que a mãe das crianças ainda terá “tentado abri-la” após a explosão, para todos conseguirem fugir» («Explosão ainda por explicar mata dentista e dois filhos», José Manuel Oliveira, Diário de Notícias, 23.08.2012, p. 18).
      Será que há cadáveres cheios de vigor e saúde? Será que os jornalistas não podem dedicar cinco minutos a reler o que escrevem?
[Texto 1985]

«Accommodation» e «facility»

Turismo e língua

      «Gostaria de saber a sua opinião», pergunta-me o leitor P. R., «sobre a tradução de accommodation por “acomodação” e facilities por “facilidades” ou “comodidades”. Por um lado, estou farto de ver “equipas de tradutores” como a do Booking.com (não, aquilo não é feito por tradutores automáticos, por incrível que pareça), a assassinar a língua portuguesa. Por outro, falta-me o espaço e a veia humorística que o Helder possui para reflectir adequadamente sobre o assunto.»
      Em relação a accommodation, Agenor Soares dos Santos escreveu: «Notar as diferenças entre este s. e “acomodação”, pois esta, assim como “comodidades”, em alguns casos não traduz inteiramente o cognato ing.» Com efeito, o termo inglês refere-se, simultaneamente, ao alojamento, à comida e a outros serviços em hotel ou estabelecimento semelhante («lodging, food, and services or traveling space and related services», lê-se no Merriam-Webster). Talvez não seja a pior tradução, ao contrário de «facilidades» por facilities. Demasiado fácil. Ainda assim, abstruso é, creio, traduzir, no mesmo texto, accommodation por «acomodação» e facilities por «comodidades». Se se não encontra correspondência num só termo, decerto que o recurso a uma expressão é sempre possível.
[Texto 1984]

Léxico: «braça»

Surpresa

      Na última página da edição de hoje do Correio da Manhã: «Um homem de 44 anos morreu ontem, em Lustosa, Lousada, ao ser atingido por uma braça de um pinheiro que tinha acabado de ser cortada» («Morto por pinheiro», Correio da Manhã, 22.08.2012). 
      De todos os dicionários que consultei, só o Dicionário Houaiss regista braça nesta acepção: «qualquer ramo secundário do tronco de uma árvore ou de um grande arbusto; braço».
[Texto 1983]

Como se fala na televisão

Para variar, com certeza

      Jornalista Rui Lagartinho, no Telejornal de 15 do corrente a propósito do êxito de vendas (o primeiro este ano, parece) As Cinquenta Sombras de Grey, de E. L. James: «O relato da iniciação sexual de uma jovem pelos caminhos do erotismo fetichista é o livro que as mulheres do hemisfério ocidental passam de mão em mão.» Hemisfério ocidental... não faz a coisa por menos. Diga lá onde é isso exactamente.

[Texto 1982]

Como se fala na televisão

Submerso

      Repórter António Nabo, no Telejornal de 14 do corrente: «Paulo Portas era ministro da Defesa em 2004, quando foi decidida a compra dos dois submarinos. Diz desconhecer quais os documentos procurados pelo Ministério Público, mas não acredita que existam documentos desaparecidos

[Texto 1981]

Léxico: «vergão»

Vergastada

      Dizia, se bem lembro, que sobre a carne pálida da escrava se via uma «lista arroxeada, a marca de uma vara ou de uma correia dura». Lista... À lesão da pele provocada por traumatismo ou pancada, sobretudo por vergastada, como parece ser o caso, dá-se o nome de vergão. Se as palavras existem, devemos procurar conhecê-las e usá-las com propriedade.

[Texto 1980]

Ortografia: «periurbano»

Peri-, pref.

      O autor escreveu sempre, do princípio ao fim (mais de vinte vezes), «peri-urbano». Bastava ter consultado um dicionário: periurbano. Ou, pelo menos, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «relativo à zona vizinha de uma cidade; situado nessa zona». Rebelo Gonçalves, no seu Vocabulário da Língua Portuguesa, apenas regista, com o mesmo prefixo e o segundo elemento a começar pela vogal u, «periuterino».
[Texto 1979]

«Responsável de/por»

Decida o ouvido

      «Em estúdio estava o responsável máximo pelas cadeias», escreveu o autor. Já vimos, lembram-se bem, esta questão. Vendo bem, até me soa melhor «responsável máximo de».
      «Assim, Said Benselama, aliás Bencherif, ficou mesmo para a História e a Justiça como o responsável máximo da criminosa operação» (Jaime Bunda, Agente Secreto, Pepetela. Revisão de João Pedro George. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2006, 8.ª ed., p. 332).
[Texto 1978]

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