«Esponja/espuma»

Só por escuma

      Que nome dão os meus caros leitores àquele material sintético, maleável e macio, usado no interior de colchões, almofadas, etc.? Espuma ou esponja? Toda a vida o designei e ouvi designar desta última forma, mas ultimamente vejo com frequência a primeira — que não está registada em quase nenhum dicionário, diga-se.
[Texto 1969]

«Creche/infantário»

Creche e aparece

      «Seja creche ou infantário», escreve o autor. Pergunto eu: não são sinónimos? Pelo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não o chegamos a saber bem. Creche, que começou por ser o estabelecimento para asilo diurno de crianças pobres e já foi um galicismo bárbaro (mas hoje já ninguém fala disso), é o «estabelecimento de educação destinado a crianças com idades compreendidas entre os 3 meses e os 3 anos de idade». Perfeito. Agora só falta ter, de preferência no mesmo dicionário, uma definição de infantário tão precisa. Mas não: «estabelecimento que se ocupa de crianças em idade pré-escolar; jardim-escola; creche». Para mim, são sinónimos, mas dizem-me aqui, sem mais argumentos, como tantas vezes, que não.
[Texto 1968]

Plural: «tuque-tuques»

Plural e português

      Repórter Margarida Cruz no Telejornal de anteontem: «Do Oriente para as ruas de Lisboa há menos de um mês, os tuk-tuk já sabem como conquistar território luso» («Tuk-tuk em Lisboa»).
      Já que chegaram a Lisboa, não há nenhum motivo para, de pés bem assentes na terra, não aportuguesarmos a palavra: tuque-tuque. Já o plural é outra questão. Tudo leva a crer que é de origem onomatopeica. Logo, como nos substantivos compostos de palavras onomatopeicas só a última se pluraliza, fica tuque-tuques, à semelhança de reco-recos, roque-roques, tico-ticos, tique-tiques, toque-toques, etc. A propósito, também aqui a nossa sacrossanta ortografia apresenta incongruências, pois, igualmente onomatopeicas, temos zunzum, tiquetaque, frufru... Por sorte, os dicionaristas ainda não descobriram o tim-tim das taças nos brindes. É preciso tintins para aguentar tanto.
[Texto 1967]

Léxico: «gnómon»

Boa, Anaximandro (ou Anaxímenes...)

      «“Ainda bem que foi recuperado”, congratula-se ao DN Fernando Correia de Oliveira, um dos mentores do blogue Observatório dos Relógios Históricos, que, desde 2007, tinha vindo a chamar a atenção para a descaracterização do gnómon (o “ponteiro” de um relógio de sol) da Praça do Império» («Relógio de sol volta a funcionar... desregulado», Inês Banha, Diário de Notícias, 12.08.2012, p. 20).
      Gnómon é o ponteiro (mas sem aspas, Inês), sim, mas também, por metonímia, em que se toma a parte pelo todo, o próprio relógio de sol.
      Ah, não se sabe exactamente: ou foi Anaximandro ou o seu discípulo Anaxímenes de Mileto quem inventou o gnómon.
[Texto 1966]

Léxico: «peitada»

Boa, Zé

      José Rodrigues dos Santos no Telejornal de ontem: «O jogo do Benfica com o Fortuna Düsseldorf foi interrompido por uma peitada: quando o árbitro ia expulsar Javi García, Luisão interveio e fez um contacto com o peito.»
      Alguma imprensa falou, impropriamente, em «encosto», mas as palavras existem para serem usadas. Peitada, segundo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é o embate de um peito com outro e o empurrão dado com o peito.
[Texto 1965]

Ortografia: «agrissilvipastoril»

Ominoso silêncio

      «Terras improdutivas sem dono, correspondentes às fragas, taludes ou alcantis e outras áreas sem características produtivas para fins agro-silvo-pastoris, etc.» Pena é os dicionários serem omissos nestas questões. O primeiro elemento é propriamente agri-, que, em forma de prefixo, não precisa de hífen para se ligar ao elemento seguinte. O segundo elemento, por sua vez, também é mais propriamente silvi-, que também se solda com o elemento que se lhe segue. Logo, agrissilvipastoril.
[Texto 1964]

Definição de «cadastro»

Não só os rústicos

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora define cadastro como o «registo público dos prédios rústicos de uma localidade ou região, com discriminação da sua extensão, qualidade e valor». Ora, parece-me que a definição está errada. Apelo para os leitores especialistas em Direito. O que eu leio no DL 172/95, de 18 de Julho, é que cadastro predial é «o conjunto dos dados que caracterizam e identificam os prédios existentes em território nacional». Todos, não somente os rústicos. É assim?
[Texto 1963]

Deduções & escalrachos

Impressões

      «Dou um exemplo que ainda trago fresco na memória, acontecido comigo duas semanas depois de entrar no DN: aconteceu a 19 de maio de 1982, notícia no dia seguinte. Álvaro Cunhal tinha falado na evocação da morte de Catarina Eufémia, em Baleizão e, do discurso que me chegou, uma frase saltou-me aos olhos: “Este governo é um escalracho do regime e tem de ser arrancado.” Saborosa frase para título. (Fui primeiro ver ao dicionário o que significa a palavra, que nunca a tinha ouvido, embora deduzisse. O leitor, se não sabe, também tem de lá ir: trabalho para casa – TPC...) Lá fiz o título: “Governo é escalracho do regime e tem de ser arrancado” e, em pós-título “– disse Álvaro Cunhal em Baleizão, etc.”» («Quando Chapalimaud ‘regressou’ do Brasil só com nove letras...», Oscar Mascarenhas, Diário de Notícias, 11.08.2012, p. 47).
      Com todo o respeito, salvanor, não me parece que se possa deduzir o que significa «escalracho». Depois de se saber o que significa é que, perante aquela frase, se acha que teria sido fácil deduzir. Antes de se saber, é mais propriamente um berbicacho a pedir desempacho instante.
[Texto 1962]

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