Como se escreve por aí

Quanto mais simples, mais escorregam


      Legenda à Foto do Dia do Correio da Manhã de 21.05.2026: «Vaticano. Uma delegação dos Catholicos da Igreja Apostólica Arménia da Cilícia esteve ontem presente na Audiência Geral presidida pelo Santo Padre, Papa Leão XIV, na Praça de São Pedro.» Escrevem assim por não saber escrever como deve ser. É católicos. Tão simples quanto isto.

[Texto 23 046]

Léxico: «opacificante»

Está a acontecer


      Vais inteirar-te de mais um episódio doméstico, Porto Editora. Apareceram umas manchas no tecto de uma das casas de banho. Com a superfície a pintar limpa e seca, apliquei (sim, eu mesmo o fiz) duas demãos de primário aquoso opacificante da Robbialac. Agora só falta aplicar a tinta de acabamento, um esmalte aquoso 100 % acrílico, branco acetinado, da mesma marca. E pronto, é só isto, não envolve crimes nem traições, para decepção de muitos leitores, aposto.

[Texto 23 045]

Definição: «marimba» Léxico: «cristalofone»

Confusão material


      «Depuis, le marimba, cet étrange xylophone muni de résonateurs, originaire d’Afrique, développé au XIXᵉ siècle en Amérique latine, puis perfectionné au XXᵉ siècle en Europe ainsi qu’en Asie, a encore fait bien du chemin» («Le marimba, nouvelle star du classique», Thierry Hillériteau, Le Figaro, 26.05.2026, p. 22). 

      O jornalista mostra conhecer muito bem este instrumento, que a Porto Editora define assim: «1. MÚSICA espécie de tambor de origem africana; 2. MÚSICA instrumento formado de lâminas de vidro ou metal, graduadas em escala, que se percutem com martelinhos de madeira; xilofone». Ambas as definições estão profundamente erradas. Quanto à primeira acepção: a marimba sempre foi entendida como uma espécie de xilofone. Logo, eu proporia marimba 1. MÚSICA designação de diversos instrumentos africanos de percussão melódica, aparentados ao xilofone, constituídos por lâminas sonoras associadas a ressoadores. 

      A 2.ª acepção ainda está pior, e por vários motivos. Se é uma espécie de xilofone, as lâminas não são de vidro, pois nesse caso seria um cristalofone, nem de metal, pois nesse caso seria um vibrafone. Para esta acepção, proponho marimba 2. MÚSICA instrumento de percussão melódica, usado na música de concerto, constituído por lâminas de madeira graduadas em escala e tubos ressoadores, que se percutem com baquetas.

[Texto 23 044]

Léxico: «readesão | reindustrialização»

Ei-los


      «O partido de Nigel Farage reagiu, aliás, com grande alvoroço, acusando o Labour de querer “reabrir as portas” do Reino Unido à imigração e prometendo fazer uma campanha eleitoral assente na oposição à readesão britânica à UE. [...] “Um voto em mim será um voto a favor da mudança no Partido Trabalhista; porque o Partido Trabalhista precisa de mudar se quisermos reconquistar a confiança das pessoas. Será um voto para tornar a vida mais acessível novamente, um voto para dinamizar as regiões, um voto a favor da reindustrialização”, prometeu [Andy Burnham, presidente da Câmara de Manchester, candidato a um lugar de deputado no Parlamento britânico]» («Regresso do Reino Unido à UE entra na “pré-campanha” trabalhista», António Saraiva Lima, Público, 19.05.2026, p. 20).

[Texto 23 043]

Definição: «phishing»

Já foi assim, já


      Um vizinho idoso, muito aflito, veio mostrar-me uma SMS em que lhe pediam quase 50 euros por uma dívida ao Ministério da Saúde. Bem-vindo ao século XXI. Desafligi-o e elucidei-o acerca do mundo em que vivemos. You know, he could have been one of those survivalist crackpots who live hidden away in caves for years. Não o mandei foi consultar a definição de phishing (e muito menos de smishing) no dicionário da Porto Editora: «actividade criminosa que consiste em enviar emails não solicitados cujo objectivo é induzir o utilizador a fornecer dados pessoais e/ou financeiros». É tão anos 2000, meu Deus, que até nos faz sorrir. Temos é de ter uma definição abrangente, robusta, quase à prova do obsoletismo e que contemple todos os canais, dispensando assim smishing e outras que tais. Tudo visto, proponho phishing técnica fraudulenta que consiste em fazer-se passar por entidade legítima através de mensagens, sítios Web ou outros meios de comunicação electrónicos, com o objectivo de induzir alguém a revelar informações, efectuar pagamentos, instalar programas maliciosos ou realizar outras acções que beneficiem o atacante.

[Texto 23 042]


⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: A expressão vender-se como canela, que vimos ontem numa citação de Aquilino, significa vender-se muito bem, com grande rapidez e facilidade, aproximadamente o que hoje se diria «vender-se como pãezinhos quentes». Surge registada em estudos de fraseologia portuguesa como uma comparação fixa tradicional. A explicação parece estar ligada ao enorme valor e procura da canela noutras épocas. Durante séculos, a canela era uma especiaria cara, apreciadíssima e muito comerciada, pelo que algo que se vendia como canela era algo de saída rápida e garantida. Portanto, passou a significar «vender-se muito rapidamente e com grande aceitação; ter procura imediata e abundante». Não ser corrente hoje em dia e aparecer na literatura são a melhor recomendação para a dicionarizarmos.


Definição: «cachorro-quente»

Mais compostinho


      «É habitual ver um oceano de mãos a saudar ou a mandar beijos ao Papa ao final de cada audiência geral, mas um fiel decidiu mudar esta rotina. Enquanto Leão XIV se despedia, voou na sua direção um peluche em forma de cachorro-quente – e o Santo Padre alinhou na brincadeira. Apesar de não ter conseguido apanhar o boneco, este episódio desencadeou uma interação com o público. “Sendo de Chicago, o Senhor comeu mais cachorros-quentes do que qualquer outro Papa na história”, disse um peregrino, entre risos, já que a famosa receita é original da cidade onde nasceu Leão XIV. E o Papa respondeu: “Só com mostarda e ketchup”» («Um cachorro-quente para o Papa e engarrafamento no Everest. Veja as fotos da semana», Catarina Magalhães, Rádio Renascença, 22.05.2026, 23h58). 

      Mais valia ser convicção do peregrino, mas não, é mesmo da jornalista. A verdade é que a origem é muito mais complexa e disputada, e entre as cidades que a reivindicam estão Chicago, sim, mas igualmente Nova Iorque, Coney Island e St. Louis. De origem indisputável é o chamado «Chicago-style hot dog», uma variante muito específica, carregada de acompanhamentos, que se consolidou sobretudo durante a Grande Depressão. Mas não sou especialista na pequena História, pelo que avancemos para o que nos traz aqui. A Porto Editora define assim «cachorro-quente»: «CULINÁRIA sanduíche de salsicha quente, geralmente servida em pão alongado e acompanhada com mostarda ou outro molho». 

      O problema está na alternativa exclusiva, «mostarda ou outro molho», que se revela quase tão restritiva como o hábito de Chicago de banir o ketchup do cachorro-quente como heresia gastronómica, algo que transpareceu na primeira réplica de Leão XIV: «Just mustard.» Mas logo depois acrescentou, mais ecuménico, mais católico: «Mustard and ketchup.» Não somos de Chicago, pelo que proponho cachorro-quente CULINÁRIA sanduíche constituída por uma salsicha quente servida em pão alongado, geralmente acompanhada com molhos, como mostarda e ketchup, condimentos e outros ingredientes, como batata-palha.

[Texto 23 041]

Léxico: «contraperícia | contraperitagem»

Palavras não


      «El pasado martes 19 de mayo, tras llegar arrestado –y esposado a la espalda– a los juzgados de Martorell, su defensa subrayó, tras tener acceso a los 1.400 folios de la causa, que trabaja para demostrar su inocencia desmontando los indicios señalados, para lo que aportarán, entre otros, contrapericiales –es decir, informes de parte–» («La caída inexplicable de Isak Andic», Elena Burés e Pablo Muñoz, ABC, 24.05.2026, p. 61). 

      Também temos, e abundam em acórdãos, contraperícia e contraperitagem. Falta-nos qualquer coisa (que também tem nome), mas não certamente palavras.

[Texto 23 040]

Léxico: «élfico | elfo»

Anão? Não


      «Desenhada por Thomas T. Docherty, numa face a moeda apresenta o Anel Único com a icónica inscrição em élfico: “Um Anel para os governar a todos”. Na outra, está o retrato oficial do Rei Carlos III» («Casa da Moeda Real Britânica lança moeda comemorativa dos 25 anos do primeiro filme de “Senhor dos Anéis”, SIC Notícias, 2.05.2026, 8h21).

      Se até a seriíssima Royal Mint se meteu nisto, a coisa é relevante. De facto, se os nossos dicionários já registam «élfico» como adjectivo relativo a elfo, dada a importância universal da obra de Tolkien, bem se podia acolher élfico nome masculino LITERATURA designação genérica das línguas fictícias faladas pelos elfos no universo literário de J. R. R. Tolkien, especialmente o quenya e o sindarin, desenvolvidas com gramática e sistemas de escrita próprios.

[Texto 23 039]

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P. S.: A definição da Porto Editora, ao descrever os elfos como criaturas anãs, acompanha uma tendência presente também em vários dicionários modernos de outras línguas, influenciados sobretudo pelo imaginário folclórico e literário desenvolvido a partir da época moderna. Contudo, os estudos sobre a mitologia nórdica antiga mostram geralmente os elfos (álfar) como seres sobrenaturais associados à luz, à beleza e à magia, distintos dos anões (dvergar). Curiosamente, a literatura fantástica moderna acabaria até por popularizar a imagem de elfos altos e esguios. Reponha-se então a verdade.


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