«Pousar» e «posar», de novo

Passados uns anos


      «De regresso à Sala das Sessões, já depois do fim da cerimónia, para a fotografia dos constituintes, Marcelo cumprimentou várias pessoas, incluindo Jerónimo de Sousa, pousando a seu lado na imagem de grupo» («Marcelo assistiu sozinho na tribuna à sessão solene dos 50 anos da Constituição», Rádio Renascença, 2.04.2026, 12h38). 

      Como alguns sabem, já por aqui passou quem defendesse que era este o verbo para significar ficar imóvel numa determinada posição para ser fotografado ou para que lhe façam um retrato ou lhe modelem um busto, uma estátua, etc. Era e é uma voz isolada. O verbo certo é, sem dúvida alguma, posar. De Elvas até, sei lá, Mâncio Lima, é a opinião unânime. Vá, tirando uma pessoa, se é que ainda é viva, porque a pandemia ceifou muitas. Os que se enganam não contam.

[Texto 22 745]

Léxico: «androlepsia»

Tudo vai desaparecendo


      Andou durante séculos em manuais de Direito, dicionários e enciclopédias, agora desapareceu, excepto dos manuais de História do Direto, claro, refiro-me a ➜ androlepsia DIREITO (Grécia antiga) acção de represália admitida no direito ateniense, pela qual os parentes da vítima de homicídio podiam capturar até três homens na cidade para onde o homicida tivesse fugido, a fim de compelir essa comunidade a entregar o culpado ou a prestar satisfação pelo crime. 

      Vem do grego ἀνδροληψία (androlēpsía), de ἀνήρ, ἀνδρός (anḗr, andrós, «homem») e λῆψις (lêpsis, «apreensão, captura»).

[Texto 22 744]

Léxico: «herança indivisa»

As coisas como elas são


      Continuo a encontrar quase todos os dias herança indivisa. Foi pena o Governo proibir a Porto Editora de a levar para os dicionários. Pena não: é inadmissível num Estado de Direito. Estamos a caminho de uma ditadura, os sinais disso vão-se acumulando. Não proibiu? Ah, pensei... Entretanto, continua lá, imóvel e morta, como o próprio nome o indica, a herança jacente, que nenhum lexicógrafo até hoje teve a fortuna de encontrar num texto.

[Texto 22 743]

Léxico: «terreola»

Mais nim que sim


      Hesitei ali atrás, mas sim: temos as variantes terriola (única que Rebelo Gonçalves acolhe no seu Vocabulário da Língua Portuguesa, p. 997) e terreola. A Porto Editora, como tantas outras vezes, está numa posição dúbia: regista apenas «terriola» no Dicionário da Língua Portuguesa, mas não deixa de acolher «terreola» num bilingue. Apenas num. E na quinta-feira usou-o no verbete de «patarrega». São falhas destas que tem de ir corrigindo. 

[Texto 22 742]

Léxico: «policriminal»

A nova criminalidade


      «As polícias portuguesas detetaram em 2025 um fenómeno novo que saltou à vista após um aumento dos furtos de viaturas de aluguer. Segundo o RASI, “grupos policriminais” recorrem a testas de ferro (muitas vezes toxicodependentes) para efetuar os contratos de aluguer. Depois usam as viaturas para cometer outros crimes (tráfico de droga, roubos, etc.) e a seguir ‘despacham’ os veículos para outros países da Europa, “com especial incidência na Bélgica, no porto de Antuérpia ou imediações, onde várias viaturas foram recuperadas quando já estavam preparadas para serem embarcadas para Dakar”, no Senegal» («Rumo a Dakar, via Antuérpia», Correio da Manhã, 2.04.2026, p. 5).

[Texto 22 741]

Léxico: «caboclinho-do-pantanal | surubim-pintado»

Antes que seja tarde


      «Foram incluídas nas listas da CMS (sigla em inglês para Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres) 16 espécies que ocorrem no Brasil. O caboclinho-do-pantanal (Sporophila iberaensis), passarinho que migra pelo continente americano, e o surubim-pintado (Pseudoplatystoma corruscans), peixe típico de grandes bacias sul-americanas, passaram a integrar o Anexo 2 da CMS, voltado a espécies que precisam de ação internacional coordenada» («Após uma semana, cúpula da ONU amplia proteção a 40 espécies migratórias», Jéssica Maes, Folha de S. Paulo, 31.03.2026, p. A36).  

      Muito me admira que grafem os nomes científicos em itálico, já que nestas coisas são claramente trapalhões, meia bola e força. (Isso mesmo, Porto Editora, entesoura também esta expressão.) Nisto, digo bem, porque em geral entre nós há mais erros descabelados nos jornais.

[Texto 22 740]

Léxico: «avião-radar»

O Irão outra vez grande


      «A destruição de um precioso avião-radar Boeing E-3 Sentry dos Estados Unidos, atingido por um míssil iraniano em uma base na Arábia Saudita, explicita fragilidades da maior potência militar da história no conflito com o Irã» («Destruição de avião-radar evidencia fragilidade dos EUA na guerra com Irã», Igor Gielow, Folha de S. Paulo, 31.03.2026, p. A27). 

      Trump ainda vai implorar. Entretanto dicionarizemos nós ➜ avião-radar MILITAR aeronave equipada com sistemas de radar de grande alcance, destinada à vigilância e controlo do espaço aéreo, à detecção de aeronaves e mísseis a longas distâncias e à coordenação de operações aéreas, funcionando como plataforma aérea de alerta antecipado e comando, geralmente com antena rotativa montada sobre a fuselagem.

[Texto 22 739]

Léxico: «sitopia»

A vida passa a comer


     «Carolyn Steel dedicou-se a estudar a vida nas cidades, além da dimensão urbana, e chamou-lhe: sitopia» («A utopia de apenas viver», Fortunato da Câmara, «Revista E»/Expresso, 6.02.2026, p. 72). 

      Não faltam estudos sociológicos em que vejo usarem a palavra. Está então aprovada, pelo que proponho ➜ sitopia SOCIOLOGIA conceito segundo o qual as sociedades humanas, sobretudo urbanas, são estruturadas pelos sistemas de produção, distribuição e consumo de alimentos, entendidos como força organizadora da vida económica, espacial e cultural; por extensão, proposta de reorganização dessas estruturas de forma mais sustentável e equitativa. 

      Vem do grego sitos, «alimento», e topos, «lugar», termo cunhado pela arquitecta e investigadora britânica Carolyn Steel (n. 1965), por oposição a utopia, «não-lugar».

[Texto 22 738]

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