Léxico: «rorqual-comum»

É comum


      «Ces premiers enregistrements ont permis de mesurer des battements qui vont d’environ 6 à 8 par minute en plongée peu profonde (autour de 20-30 m) jusqu’à 25 par minute lors des phases de remontée et de respiration en surface. “Au-delà des enjeux de conservation et de protection, comprendre le cœur des baleines est scientifiquement passionnant, ajoute Angelo Torrente. C’est sans doute le plus gros cœur du monde animal, autour de 130 kg, et étudier un système aussi extrême nous aide à mieux comprendre les autres, y compris le nôtre”» («Le cœur des baleines révèle le stress des océans», Vincent Bordenave, Le Figaro/24 heures, 26.03.2026, p. 17). 

      Puseram o dispositivo num rorqual-comum, espécie que a Porto Editora nem sequer regista, ficando-se pelo nome de grupo, rorqual. Assim, proponho ➜ rorqual-comum ZOOLOGIA (Balaenoptera physalus) cetáceo da família dos Balaenopterídeos, segunda maior espécie de animal existente, podendo atingir cerca de 25 metros de comprimento e mais de 70 toneladas de massa; apresenta corpo alongado e hidrodinâmico, coloração acinzentada e alimentação por filtração de pequenos organismos marinhos; caracteriza-se por adaptações fisiológicas ao mergulho profundo, nomeadamente uma frequência cardíaca muito baixa durante as imersões. 

[Texto 22 737]

Léxico: «gabinete | gabinete de asseio»

Nem simples nem composto


      Tenho aqui uma rainha a precisar de ir aliviar-se a uma casa de banho. Mas sem anacronismos. Na tradução, e bem, ela precisa é de um gabinete de asseio (cabinet d’aisance), que tu, Porto Editora, não acolhes, mas de que o Michaelis, por exemplo, não se esqueceu. Especificamente, e numa só palavra: gabinete. É verdade que tens, e logo na primeira acepção, «compartimento, mais ou menos isolado do resto do edifício, reservado para um determinado uso», mas não chega.

[Texto 22 736]

Nomes de empresas

Criatividade? Incoerência


      Há uns tempos — ou desde sempre? — comecei a reparar no nome de empresas de construção civil. A criatividade que por ali vai, Jasus do céu! Dantes era Ferreira & Filhos, Lda., Duarte & Duarte, Lda., Cavaco & Irmãos, e pouco mais. Mas agora? Ângulos Sublimes, Patamar de Talento, Linhas Gerais, Margem Efémera, Margem Mítica, Evidente Perfeição, Equação Inusitada, Perfeição Futurista, Futuro Ajustável, Esfera Cristalizada, Pérolas d’Estratégia, Parênteses & Cardinais, Perímetros Imperiais, Potencial Tropical, Remate Perfeito, Talento Confirmado, Objetivo Obrigatório, Fábula Versátil, Frases & Páginas, Carácter Veloz, Virtude Contígua... Não me perguntem se os acho adequados para empresas de construção civil, porque a minha resposta só podia ser esta: #@$%&*! Para mim, tudo isto foi desatado pela Cavalo de Ferro. Não o digo pela incoerência do nome da editora, valha-me Deus, que de tal não padece, mas por ser composto. Tem de haver sempre pioneiros.

[Texto 22 735]

Etimologia: «investir»

Tem de se dizer mais


      «Le week-end dernier, les villes ont procédé à l’investiture des maires élus il y a quelques semaines. Le mot vient du verbe latin investire, «revétir»: en l’occurrence, le nouveau venu revêt l’écharpe tricolore dévolue à l’édile, signe de ce que cette élection revêt elle aussi quelque chose: une grande importance» («Investiture», Étienne de Montety, Le Figaro, 31.03.2026, p. 34). 

      A nota etimológica dos nossos dicionários, como é habitual, limita-se a repetir o verbo português no latim e no francês, sem esclarecer o valor semântico original nem a evolução. Assim, proponho ➜ do latim investīre, «revestir, cobrir com vestes; conferir dignidade ou função mediante acto formal», pelo francês investir, «conferir oficialmente um cargo»; ulteriormente, «aplicar capitais».

[Texto 22 734]

Definição: «flagrante delito»

Para lá da intuição


      «“Esbofeteou a mulher à frente de todos, porque ela se esqueceu de trazer a requisição de um exame e ainda a ameaçou que ia apanhar mais quando chegassem a casa. Depois percebemos que já outros familiares tinham conhecimento disto, mas ignoraram. Estando nós pertinho da 18.ª esquadra da PSP, solicitámos logo ajuda”, contou uma das testemunhas ao CM. A polícia foi de imediato chamada e Mira Amaral foi detido em flagrante delito» («Antigo ministro suspeito de violência doméstica. Detenção», Tânia Laranjo, Correio da Manhã, 31.03.2026, p. 19). 

      Será mesmo flagrante delito? Pelo que é descrito, não é evidente que estejam preenchidos os requisitos. A polícia foi encontrar Mira Amaral ainda com a mão colada ao rosto da mulher? Havia sinais imediatos e inequívocos de uma agressão acabada de ocorrer? O cidadão comum, leigo, tem do flagrante delito a ideia de quem foi apanhado com a boca na botija. E não se engana muito. O Direito apenas alarga um pouco essa intuição, de forma controlada: admite o «logo após» e a perseguição imediata, desde que não haja quebra da sequência. Mas não vai a ponto de aceitar um simples relato posterior, por mais credível que seja. Basta, para o efeito, que a autoridade chegue de imediato, encontre os intervenientes ainda no local, com sinais evidentes do que acabou de acontecer (estado emocional, lesões visíveis, desordem no espaço, testemunhos imediatos), e sem quebra relevante entre o facto e a intervenção. O testemunho é relevante, pode até ser decisivo, mas no contexto do flagrante delito tem de estar inserido numa situação de imediatidade e continuidade. Fora desses casos, o testemunho já não sustenta o flagrante delito. Serve para investigação, mas não basta para qualificar a detenção como tal.

      Reconduzindo tudo aos nossos interesses, que são os da análise linguística, direi então que a definição de «flagrante delito» da Porto Editora reflecte a percepção comum, mas não traduz integralmente o conceito jurídico: «infracção ou crime em que o infractor é surpreendido no momento em que o pratica». Assim, sugiro ➜ flagrante delito DIREITO situação em que alguém é surpreendido no momento da prática de um crime, logo depois da sua consumação ou quando, logo após o crime, é perseguido por qualquer pessoa ou encontrado com sinais ou objectos que mostrem claramente que acabou de o cometer.

[Texto 22 733]

Erros de sempre e para sempre

O habitual


      «A detenção do espanhol aconteceu no dia 4 de dezembro, em Olhão, explica a Polícia Judiciária em comunicado, em articulação com a Guarda Civil. Sob o foragido, de 55 anos, pendia um mandado de detenção europeu pelos crimes de peculato e falsificação» («Figura de Hollywood e foragido em Espanha, foi apanhado no Algarve», Jornal de Notícias, 12.12.2025, p. 22).

[Texto 22 732]

Léxico: «calças de alçapão»

Ou torna-se ilegível


      «A estes, se não entusiasmava a petulância do foliculário, era benquista a pirraça ao burguês, um mequetrefe chegado de calças de alçapão e socos das almuinhas do Cávado ou do Bestança, e que em poucos anos estava rico como porco» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 40). 

      Pois, em lado nenhum, pelo que proponho ➜ calças de alçapão calças, geralmente interiores ou de dormir, com uma abertura traseira abotoada, usada para facilitar a ida à casa de banho sem ter de despir a peça.

[Texto 22 731]

Como se escreve por aí

Claro que ninguém releu o texto


      «Em síntese, o Conselho da Europa considera que penas de prisão por difamação são desproporcionais e têm um forte efeito de intimidação sobre jornalistas, ativistas e cidadãos, tendo vindo a pedir repetidamente aos Estados‑membros que abolam a prisão no caso da difamação e reformem as leis para evitar abusos numa área decisiva para o debate e o escrutínio público» («Difamação nos media e liberdade de expressão – modo de usar», Francisco Rui Cádima, Público, 24.03.2026, 00h20). 

      Numa palavra, errado. Irremediavelmente errado. O que há é quem defenda — mas nada de confusões! — a forma verbal «abulam»; aliás, todas as pessoas do Presente do Indicativo. Melhor (pior): todas as pessoas de todos os tempos. Aboliram totalmente a defectividade deste verbo. Não somos seguidores de tais práticas.

[Texto 22 730]

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