Léxico: «cheque-prótese»

Mais um cheque


      «Os utentes vulneráveis que necessitam de reabilitação oral vão poder aceder ao cheque-prótese previsto no Programa Nacional de Promoção da Saúde Oral 2030, que integra esta área nas unidades locais de saúde (ULS) e reforça a articulação entre cuidados» («Governo lança cheque-prótese e reforça acesso a saúde oral no SNS», Jornal de Notícias, 21.03.20206, p. 24).

[Texto 22 667]

Definição: «viscoelasticidade»

Isso mesmo, material


      «O Ministério das Infra-Estruturas realça a necessidade de obras de “meia vida”, ou seja, uma intervenção necessária para garantir a estabilidade da ponte nos próximos 20-30 anos e que poderá custar cerca de 1,5 milhões de euros. A sua reabilitação prevê a substituição ou reparação de aparelhos de apoio; substituição das juntas de dilatação; verificação dos amortecedores que dissipam energia sísmica e reduzem vibrações (dispositivos viscoelásticos); reabilitação das bases de betão que suportam os pilares da ponte (plintos) e reabilitação extensiva do tabuleiro da ponte que foi inaugurada há duas décadas» («Ponte de Alcarrache, em Alqueva, tem graves problemas estruturais», Carlos Dias, Público, 19.03.2026, p. 19).

      Tudo bem aqui, o problema está do lado dos dicionários. Define assim «viscoelasticidade» a Porto Editora: «FÍSICA propriedade de certos líquidos que, além da viscosidade, exibem também elasticidade de deslizamento». Esta restrição indevida a líquidos estraga tudo. Bem, por acaso não é só por isso. Assim, proponho ➜ viscoelasticidade FÍSICA, ENGENHARIA DOS MATERIAIS propriedade de um material que combina comportamento viscoso e elástico sob tensão ou deformação, com resposta dependente do tempo, dissipação de energia e recuperação total ou parcial da forma inicial. 

      Mas no caso não precisava de me esforçar muito: bastava comprovar que a própria Porto Editora define assim «viscoelástico»: «(material) que tem viscoelasticidade».

[Texto 22 666]

Léxico: «instalação-piloto»

Esqueceu-se foi de reler


      «Mas, agora, a ideia é fazer da instalação-piloto um laboratório flutuante» («Na Barragem do Alto Rabagão, em Trás-os-Montes, testa-se o futuro da energia solar», Clara Barata, Público, 19.03.2026, p. 26). 

      Curiosamente, neste artigo, aparecem «instalação-piloto», «teste-piloto» e «projecto-piloto». Deve ter sido uma aposta da jornalista, assim um desafio à Georges Perec, mas mais fácil. O pior foi a terrível gralha umas linhas atrás: «No Alto Rabagão são produzidos 220kW (quilowatts), enquanto no Alqueva se produzem ci2oMW (megawatts). “Portanto, 20 vezes mais”, sublinhou Pedro Oliveira.» Temos de ser nós a pensar e a fazer as contas: multiplicando 220 kW por 20, temos 4400 kW = 4,4 MW. O que confere com os dados da mesmíssima EDP, que nuns documentos apresenta 4 MW de potência instalada, noutros 5 MW. Mas está bem, encaixa ainda: 4 MW / 220 kW ≈ 18,2; 5 MW / 220 kW ≈ 22,7.

[Texto 22 665]

Léxico: «polielectrólito»

Já aí anda


      «Esta nova solução, composta pela combinação de dois polielectrólitos – polímeros que são macromoléculas formadas pela repetição de unidades estruturais menores –, foi desenvolvida por uma equipa das universidades Southeast (Nanjing) e Jilin (Changchun), na China» («Lavar roupa e tirar nódoas? Cientistas criam spray que poupa 80% de água, energia e tempo», Andrea Cunha Freitas, Público, 19.03.2026, 18h04). 

      Não nos atrasemos ➜ polielectrólito QUÍMICA polímero constituído por unidades repetidas que possuem grupos ionizáveis, capazes de se dissociar em solução, conferindo à macromolécula carga eléctrica (positiva, negativa ou ambas) e permitindo a sua interacção com iões e outras espécies carregadas em meio líquido.

[Texto 22 664]

Léxico: «caimento»

Usa-se pois


      «O universo da moda, tantas vezes visto como superficial ou espetáculo, distante de nós e, ao mesmo tempo, tão próximo no feed do Instagram, revela aqui uma dimensão mais profunda do que apenas vestir uma roupa. Não é sobre tecidos, caimentos, texturas, cores, tendências. Mas sobre sentido, emoção e significado» («Encontrar o amor: a moda como resistência em tempos de guerras», lonara Silva, Público, 19.03.2026, 7h30).

      Não vejo claramente visto este sentido de «caimento» nos dicionários, pelo que proponho ➜ caimento forma como uma peça de roupa assenta e se dispõe sobre o corpo, resultante da queda natural do tecido, do corte e da sua estrutura, determinando a forma como acompanha as linhas e movimentos do utilizador e contribuindo para o efeito estético e a percepção do conjunto.

[Texto 22 663]

Definição: «colisionador | colisor»

Mais uma partícula


      Notícias do Grande Colisionador de Hadrões: descoberta uma nova partícula. «The new particle has been named “Xi-cc-plus”. Scientists have expressed hope that the particle – which is similar to a proton but four times heavier – will reveal more about the strange behaviour of quantum mechanics» («Large Hadron Collider discovers a new particle», The Hindu, 19.03.2026, p. II). 

      Como tu defines colisionador/colisor, Porto Editora («FÍSICA acelerador em que dois feixes de partículas, movendo-se em direcções opostas, se interceptam em vários pontos, provocando colisões a cada passagem»), mais parece uma brincadeira inconsequente dos cientistas. Então a natureza do dispositivo, a finalidade científica, o contexto técnico, a precisão terminológica? Mantendo ainda a brevidade, proponho ➜ colisionador/colisor FÍSICA tipo de acelerador de partículas em que dois feixes são acelerados em sentidos opostos e feitos colidir em pontos de interacção definidos, permitindo, por meio da análise dos produtos dessas colisões, detectar e estudar partículas elementares, incluindo partículas até então não observadas, e testar modelos fundamentais da física.

[Texto 22 662]


Léxico: «go | circunflexo»

Falta sempre qualquer coisa


      «Vinte anos depois, veio o algoritmo AlphaGo Zero, da Google DeepMind. Ele aprendeu o jogo oriental go sozinho, jogando contra si mesmo sem intervenção humana, e em poucos dias se tornou o jogador mais forte do mundo. O go é extremamente complexo, profundamente estratégico e com um número (10.170) quase inimaginável de posições possíveis. Mas ainda pudemos dizer que não passava de um jogo, muito longe do grau de sofisticação e profundidade de um grande teorema matemático» («IA chega à pesquisa matemática», Marcelo Viana [director-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada, Prémio Louis D., do Institut de France], Folha de S. Paulo, 18.03.2026, p. A44).

      Não acredito, obviamente, que tenha sido lapso do autor. Apostava que foi, por descuido ou ignorância, na paginação ou na edição do jornal. Se o número de posições fosse apenas de 10 170, estaria muito longe de inimaginável. Não é impossível que o autor tenha optado pela notação 10^170, e com isso lixou-se. Só que isso proporciona-nos outra acepção de «circunflexo» que falta nos dicionários. Não o vejo no dicionário da Porto Editora, e por isso proponho ➜ circunflexo 3. MATEMÁTICA símbolo (^) usado para representar a operação de potenciação em notação linear, como em «10^170» («10 elevado a 170», isto é, 10 multiplicado por si próprio 170 vezes). 

      Mas voltando ao jogo: na realidade, esta informação deve servir — com tal objectivo a trouxe aqui — para densificar a definição de ➜ go jogo de tabuleiro de estratégia abstracto, de origem chinesa e particularmente popular no Japão, em que dois jogadores colocam alternadamente pedras pretas e brancas nas intersecções de uma grelha de 19×19 linhas, procurando conquistar território e capturar grupos de pedras do adversário; caracteriza-se por uma enorme complexidade estratégica, com um número extremamente elevado de posições possíveis (estimado na ordem de 10^170). 

      Portanto, sim, o go é muito mais complexo do que o xadrez, por várias ordens de grandeza. O número de Shannon mostra-o bem, mas claro que o revisor (e o editor) da Folha de S. Paulo não saberão nada disso. Talvez hoje o fiquem a saber.

[Texto 22 661]

Definição: «estradivário»

Mais uma afinação 


      «Nos séculos 17 e 18, Stradivari produziu mais de 800 instrumentos. A maioria deles são violinos, mas também há violoncelos, violões e uma harpa. [...] Curiosamente, esses violinos tendiam a ter sido produzidos durante a chamada Era de Ouro de Stradivari, aproximadamente de 1700 a 1725, período conhecido por instrumentos Stradivarius de qualidade particularmente alta» («Anéis de árvores revelam as origens dos célebres violinos Stradivarius dos séculos 17 e 18», Katherine Kornei, Folha de S. Paulo, 18.03.2026, p. A44). 

      Todo o artigo, e não somente o excerto, traz excelentes dados que permitem, e até convidam, a enriquecer a definição de ➜ estradivário MÚSICA instrumento de cordas (sobretudo violino, mas também viola, violoncelo ou harpa) construído por Antonio Stradivari (1644-1737) ou na sua oficina; caracteriza-se pela excepcional qualidade sonora e elevado valor histórico e comercial, sendo especialmente valorizados os exemplares da chamada «Era de Ouro» (c. 1700-1725), associados ao uso de madeiras seleccionadas, nomeadamente abeto de regiões alpinas do Norte de Itália.

[Texto 22 660]

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